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quarta-feira, outubro 3

Rita e Anthony

29 Setembro 2018                                                                               Foto de Luis Barreira

segunda-feira, abril 23

A bata fendida de cima a baixo



Na cama um, Levy Martins, judeu, 59 anos, empresário. A enfermeira Cláudia com a sua voz de barítono perguntou se devia pronunciar Levy à maneira francesa ou se um Levy grave. O senhor Levy, habituado à dúvida, pronunciou de imediato o seu nome em francês. Ocupava a cama toda. Homem largo e baixo, carnes maciças, olhos profundos e seguros, barbas longas e frisadas que lhe escondiam o pescoço. Num rosto carregado um nariz bem definido, cabelo revolto puxado para trás deixavam à vista duas longas entradas. Só os braços rotundos marcados por nódulos gigantescos, intumescências arroxeadas e múltiplas picadas denunciavam um passado de cirurgias, enfartes e diabetes, que o levavam a reivindicar, impacientemente, a urgência do cateterismo agendado. Já conhecia as demoras hospitalares, tinha fome, queria ir para casa cedo.
- Enfermeira, por favor, traga-me o urinol.

Na cama três, o senhor Francisco. Transportaram-no para o quarto por volta das dez e meia da noite. O senhor Francisco vinha enrolado em si e sobre a cadeira de rodas. Os braços longos e curvos, as mãos  ósseas e esquálidas caíam pelas pernas a baixo e fechavam-no ainda mais. Puxaram-no penosamente pelo tronco, entreabriu-se a custo com gemidos guturais, quase inaudíveis. Colocaram o corpo na cama.

- Vá lá, Senhor Francisco ajude um bocadinho.

Pela parte de trás da estúpida bata fendida, o corpo tolhido expunha-se de cima a baixo: completamente seco, descarnado, de pele esquálida que lhe desenhava as vértebras, a pélvis, os fémures longos, de um amarelo translúcido que se espalhava por todo o lençol. A cabeça inclinada para trás afundava-se na almofada, e os olhos, salientes num rosto sugado pelo vácuo, fixavam a parede. A boca sempre aberta, chupada e imóvel, não articulava nada.

– Vá lá, senhor Francisco beba um bocadinho de água.

 E a água escorria pelos cantos da boca fora. Engasgava-se em pequenas convulsões sem que o corpo petrificado se soltasse.
- Descanse agora um pouco, senhor Francisco.

Mas não. O Senhor Francisco não parou mais, numa luta desigual, lenta, numa agitação caótica com o lençol que o cobria, com a fralda, com a gaze que lhe envolvia os dedos dos pés, com a bata verde fendida presa por um simples laço ao pescoço, numa agonia tremenda como se tudo estivesse feito contra ele.
Exausto. Completamente nu. O olhar paralisado, obtuso, fito na porta, como quem espera por ser chamado.

- Oh, senhor Francisco, o que é isto?
- Está todo molhado! Isto não se faz, 

E eu ali, 59 anos, salvo por um cateterismo, sem dor, perante um quadro lúgubre de final da Idade Média - a degradação de um corpo descarnado e ressequido, e o alerta «Tu serás em breve como eu um cadáver horrendo pasto dos vermes» (túmulo do Cardeal Jean de la Grange).

segunda-feira, fevereiro 5

O gordo gato preto


Durante meses a fio, na hora de dormir, um pequeno livro, a História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar, foi o preferido das minhas filhas. Não sei quantas vezes contei esta história do chileno Luis Sepúlveda. A repetição, noite após noite, levava-me a redesenhar partes do conto, a dar uma dimensão diferente a certas personagens, a abreviar certas passagens. Mas nunca consegui alterar, sem a imediata correção e um pequeno ralhete, as etapas fundamentais da promessa do gordo gato preto, Zorbas. Quando a gaivota finalmente voava e a luz se apagava, a Inês, a mais nova, pedia-me para ficar um pouco mais. Deitava-me transversalmente aos pés dela e esperava que adormecesse. Escutava, imóvel, quase em apneia, que a respiração suavíssima se tornasse profunda, que o corpo se soltasse. Por vezes, quando em movimentos muito lentos antecipava a saída, a Inês intersectava-me com um pedido sussurrado: pai …. E eu voltava à posição inicial. Imóvel de novo. Naquela quietude, aprendi a interpretar todos os sinais vindos daqueles corpos. No silêncio, a transportar-me para um plano paralelo ao da realidade quotidiana.
Vinte anos depois, na sua casa, voltei a ficar ao lado dela à espera que adormecesse e recuperasse a energia que a faz voar tão bem. Imóvel, com os sons da cidade esquecidos, escutei durante muito tempo os mesmos sinais. 

terça-feira, junho 6

Três dias em Londres



É difícil descrever estes três dias em Londres. Fico-me apenas por sensações, observações condicionadas e, certamente, por generalizações precipitadas. Retive: do arejado aeroporto de Heathrow ao claustrofóbico metro; a irreversibilidade de uma enorme metrópole multiétnica e a beleza surpreendente de tantos, fruto de cruzamentos genéticos; os milhares de turistas chineses padronizados e a extravagância diferenciadora dos jovens londrinos; os bairros históricos com a sua vida tão peculiar, a contrastar com a gélida e deselegante City de jovens de fato cinzento; o bulício caótico em larga escala e a certeza de um fim de tarde retemperador pelos pubs ou pelos parques; o enorme património histórico que lhes estrutura a civilidade; e no sábado terrorista, o regozijo com a vitória do Real de Ronaldo quebrado abruptamente pelo som dos helicópteros e das sirenes.

segunda-feira, maio 22

Do Museu Nacional de Arte Antiga à Gulbenkian


Foi uma surpresa ver o Museu Nacional de Arte Antiga cheio, apesar de saber que se comemorava o dia internacional dos museus e a entrada ser gratuita. Os salões perderam o silêncio habitual; a noite esteve quente, a fazer inveja aos melhores dias de verão, e uma ligeiríssima brisa desprendeu preguiçosamente milhares de flores dos jacarandás num jardim repleto de gentes de várias paragens; os alunos do Chapitô fizeram o que puderam.
Sempre achei que era nesta direção que os museus deveriam seguir: um lugar de oferta multifacetada onde o património material ocupa um lugar de relevo.
Recordo-me, quando aluno de escultura das Belas Artes, de uma proposta para um projeto de um parque infantil para a Fundação Calouste Gulbenkian. Pretendia atingir esses objetivos e, sobretudo, criar hábitos às crianças mais novas tornando esses espaços familiares. Todas as peças do parque infantil teriam como ponto de partida a escultura de Henry Moore da Fundação e seriam pensadas e moldadas de acordo com as necessidades lúdicas e o espírito dos mais pequenos. Em vão, não passou no crivo de um mestre a quem eu esqueci o nome. Já nessa altura, o cheiro bafiento que se instalara continuava a impregnar a cabeça de muitos zeladores de um património esconso.

sexta-feira, março 3

ITMOI, pela Companhia Nacional de Bailado



 Se juntarmos bons bailarinos, uma coreografia audaz, cenografia minimalista, com soluções a tocar no Cirque du Soleil e, claro, em boa companhia, só pode dar um belo espectáculo. No Teatro Camões.

segunda-feira, janeiro 2

No Porto para ver o velho e nobre casario ganhar vida ...




... mas também constatar o timbre pardacento e as sombras escuras desta terna cidade: o lixo que se amontoa, e a quantidade de indigentes que a fere.

sábado, setembro 19

Por Armamar


          Saídos da autoestrada, os últimos 15 quilómetros até Armamar não se esgotaram facilmente. Serpentear por socalcos de vinhedos e pomares numa paisagem estonteante, e por uma estrada que se degradava cada vez mais, fizeram com que duvidássemos do caminho para Armamar.
          Dobrado sobre a bengala, um homem gasto descia a rampa da casa.
          - Boa tarde, vamos bem para Armamar?
           Apoiou a mão nodosa na janela do carro aproximando o ouvido.
         - ARMAMAR, vamos bem? - repetimos.
         - Para Armamar? Os senhores não são de cá, pois não? Armamar é já aí, ao birar da curva, passam o biaduto e logo bêem … Olhem, benham beber um copo!

quarta-feira, setembro 2

Por Praga e Viena







Penso que é isto que procuramos numa cidade: uma estrutura arquitectónica, urbanística e paisagística inovadora, que distinga os povos e que preserve uma vivência colectiva única.
Foi isso que encontrei nestas duas capitais do centro europeu. Palmilhei Praga e Viena durante uma semana e verifiquei o que esperava: belas cidades de passado forte e rico. Mas a capital austríaca pareceu-me das mais perfeitas. Surpreendeu-me o requinte e monumentalidade dos edifícios, a quantidade e cuidado com os espaços verdes, a aposta nos diversos tipos de transportes (realce para as bicicletas e o espaço destinado aos peões) e, sobretudo, a maneira como os vienenses vivem descontraidamente a cidade.

quarta-feira, abril 29

Uma "Ikea"


Um contraste que não deixa dúvidas a ninguém. Parabéns aos designers da Ikea. 
Como reverter esta situação que se generalizou e desfigura as nossas casas? Uma ideia: porque não descer o IMI a quem tem bom gosto (não tem marquises).


quinta-feira, abril 2

Cinco dias em Florença



Cinco dias em Florença e os sinais foram por demais evidentes, arrisco generalizar: a prosperidade económica e cultural ao longo de tantos séculos nota-se a cada esquina desta magnífica cidade. Uma cidade pintada pelas cores do rio, de uma riqueza explícita que se manifesta nos palazzos renascentistas, na maneira como preservaram todo o edificado, como integraram o novo, como é tão óbvio para os florentinos que o luxo e a arte são eternos, como conservam os seus hábitos quotidianos. É fácil identificá-los. Distinguem-se pela elegância das roupas, pelos passeios de bicicleta no meio do formigueiro de turistas de telemóvel em riste, pela serenidade com que passeiam os cães ao final da tarde. Aceitam a avalanche diária com a altivez de quem sabe pertencer a uma cidade à escala do homem rico e culto.

sábado, agosto 2

Agosto




 “É triste no Outono concluir que era o Verão a única estação”, Ruy Belo

segunda-feira, abril 14

Regresso às Belas-Artes.

Rita

(7.ª EDIÇÃO – GAB-A GALERIAS ABERTAS DAS BELAS-ARTES)

O amarelo forte fica-lhe bem. Na entrada, procurei a escultura do Laocoonte e percebi de imediato que pouco mudara: os magníficos gessos expostos continuam estranhamente mal conservados. O acesso aos pisos superiores continua a fazer-se, à direita e à esquerda, por dois lances de escadas largas e polidas pelos anos e, como todos os alunos da Escola durante tantas gerações, também a Rita optou pelo lado esquerdo. Percorri os longos corredores de cicerone entrando nas salas de pintura, de desenho, de modelo e pareceram-me exactamente iguais: os mesmos estiradores, o chão e as paredes marcados pela tinta, as janelas claras e profundas viradas a sul, as paredes larguíssimas do convento, os trabalhos expostos aparentemente acabados de fazer. Agradou-me ver que a figura humana continua a ser a base de trabalho de formação.

Recordei-me deste "recorte" de José Cardoso Pires:
“ Em arte só se pode esquecer, sabendo; só assim se torna possível corromper o discurso para o renovar e lhe dar dimensões mais vivas. Assim fizeram os grandes mestres pintores dos nossos dias. Corromperam porque conheciam a gramática da imagem para a enriquecer com novas leituras e com novas confrontações com o real.”


quinta-feira, julho 19

Por caminhos de Sanabrés. Sete dias. Sete ideias.

  • O ordenamento do território tão visível aos nossos olhos durante todo o percurso: aproveitamento das potencialidades, utilização racional desse território, proteção do ambiente, ...;
  • a extensa e preservada mata de carvalhos e castanheiros que nos envolveu e protegeu;
  • a beleza do caminhos;
  • o património histórico. Em particular, o Mosteiro Cisterciense de Oseira onde pernoitámos depois de uma visita a todo o mosteiro e missa cantada pelos 16 monges cistercienses;
  • o esforço físico que nos aproximou das palavras de S. Bernardo " Oh alma que és verdadeiramente a mais bela, mesmo que habites um corpo inepto...";
  • a comida - abundante e bem cozinhada;
  • a afabilidade dos galegos, a simpatia e solidariedade dos caminhantes que conhecemos, em especial os catalães - o afável Miguel, Óscar e Laura, o eterno caminhante de Bréscia, Piero, e em particular o meu amigo Paulo Coimbra (blog)- amigo de sempre. 


segunda-feira, junho 4

De Vidago a Lisboa. Viagem de poucas palavras


Jogador: 

HCP Actual: 
8,5 Amador
Home Club: 
Aroeira
Sócio: 
11170


Torneio:
Camp. Nac. Clubes Mid-Amateur 2012
Data:
2012-06-02
Campo:
Vidago Palace
PAR:
72 (74,0 ; 140)

Cartão de Resultados

1
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Front
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Back
Total
PAR
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5
3
5
4
4
3
4
4
36
4
4
3
4
4
5
4
5
3
36
72
Stroke
8
14
10
6
2
12
18
16
4

13
9
15
11
17
5
1
3
7


Metros
395
465
165
485
400
370
154
350
395
3179
340
335
169
345
305
530
365
525
215
3129
6308
Gross
5
6
6
6
7
5
3
4
5
47
5
5
3
5
5
8
5
6
4
46
93
To PAR
+21



Todos sabemos que cada um de nós tende a provocar aquilo que mais teme. Jogar em Vidago, em casa (casa no sentido literal da palavra), causou-me uma enorme ansiedade e confirmou o ditado popular que tanto temi - em casa de ferreiro espeto de pau. Coro de vergonha quando penso em cada buraco, em cada pancada desastrada, noventa e três, e todas da minha inteira responsabilidade.
Sem remissão, resignado, refugiar-me-ei no pinhal da Fonte da Telha.