quinta-feira, dezembro 6

Naquela noite de Verão





A chegada da família do Sr. João de Menezes dava início ao melhor período das férias grandes. O Zé Mário era o mais velho de seis irmãos. Tinham seis bicicletas de todos os tamanhos. Uma delas, a verde, era de rapariga, da Joana, nem por isso menos pretendida, tal como as bicicletas dos irmãos mais novos que eram literalmente confiscadas. Todas elas serviam para imprimirmos outra velocidade àquela terra feita para miúdos. A do Zé Mário, não. A bicicleta do Zé Mário nunca se despiu dos guarda-lamas, da bolsa de ferramentas presa ao selim, tão pouco do suporte traseiro. Pudera, o Zé Mário precisava dele para transportar as inúmeras caixas cheias de fios, lâmpadas, tubos de ensaio, e todo o género de ferramentas. As mãos magras e os longos dedos do “engenhocas” pareciam esculpidas para aquilo. Era alto o Zé Mário, homem feito, costas curvas, branco como nenhum outro, olhos grandes encovados em olheiras arroxeadas. Naqueles estios infernais, refugiava-se nas suas experiências, ensimesmado, bem longe dos fedelhos.

Os fedelhos cresceram. O Zé Mário não mais andou na bicicleta de roda vinte e oito. Manteve a silhueta vincada - que traía a sua discrição, as camisas de risca fina de manga curta, o saco a tiracolo. Apesar de mais sociável, continuava reservado, falava baixo, cochichava projectos que a nenhum interessavam, repetia ladainhas sobre recentes amizades do Porto, dava conta de conversas tidas com o grupo de universitários sobre objetos voadores não identificados, tão frequentes nos céus daquele tempo. O aparecimento desses estranhos seres era conversa recorrente nos jornais, na televisão e também no Café Capri. O Zé Mário sentia-se à vontade na matéria, perdia a timidez, alimentava as conversas com pormenores, revelações, estudos científicos. O pormenor, claro, levava ao bocejo da rapaziada, mais interessada em carros, futebol e raparigas.

(Não devíamos ter feito aquilo. Estávamos longe de pensar nos transtornos que iríamos causar ao nosso amigo.)

Não sei de quem partiu a ideia, mas recordo com uma nitidez surpreendente o primeiro acto. Para dar credibilidade a toda a peça pedimos ao Mário Cardoso, empresário, casado, um pouco mais velho do que o grupo de rapazolas, que se referisse a um estranho fenómeno que lhe teria acontecido quando regressava a casa depois de um dia de trabalho. O Mário Cardoso era um brilhante “actor”. O campo de futebol era o seu palco predileto. Dono de uma fabulosa capacidade técnica a que juntava a teatralidade de um mimo, o Cardoso fazia gato-sapato dos adversários e, mais do que ganhar ou marcar golos, o que procurava era o aplauso. Imaginem Maradona e Conan O´Brien num só: era o Mário Cardoso.
Todos o conheciam, excepto o Zé Mário. A descrição do estranho acontecimento de que tinha sido vítima na noite anterior incendiou aqueles olhos ávidos. Todos desdenhámos a ocorrência, dando coerência a conversas anteriores e ao plano improvisado. O Zé Mário, de olhar fixo, passou a único interlocutor: prolongou a conversa, procurou detalhes, pediu explicações. O Cardoso respondia de maneira evasiva, tinha lapsos de memória, divagava. Saiu da esplanada do Café Capri visivelmente transtornado, deixando para trás a informação de que haveria um novo contacto com aqueles seres dois dias depois, quinta-feira.
Tínhamos dois dias. A cada hora que passava o Zé Mário aumentava a preocupação com o estado emocional do M. Cardoso e aumentava, também, exponencialmente, o entusiasmo com a revelação. A história alastrou a todo o Capri e os sorrisos e os avisos dos mais velhos não refrearam o comportamento obcecado do Zé Mário.
O local do contacto estava definido. A preparação dos adereços e o esboço do guião ocupou-nos toda a tarde de quarta em casa do Paulo. O Paulo já na altura olhava o céu de outra maneira. Por vezes, em noites quentes e abafadas de agosto, como só as de Vidago são, escolhíamos o green do quatro e estatelados de barriga para as estrelas conversávamos noite dentro. Era nesse local de observação privilegiada que seguíamos o dedo do Paulo na identificação de vários pontos luminosos, de hipotéticas galáxias e, em vão, de perceber as distâncias absurdas a que tudo se encontrava. A possibilidade de existência de vida no Universo provocava a imaginação e as conversas ganhavam ainda mais cor com as constantes referências à série britânica Espaço: 1999, um êxito da televisão no final dos anos setenta, e aos livros que o Paulo lia sobre ficção científica. Recordo o fascinante “A nebulosa de Andrómeda", de Ivàn Efrémov, que li na altura, e o sugestivo “A crónica dos mundos paralelos” de Guy Tarade, que tanto o marcou.  Era, evidentemente, o mais preparado para dar credibilidade, qual ponto do teatro, às dificuldades argumentativas que iriam surgir, e era o único que dominava a linguagem específica que seria necessária no confronto com o terráqueo. A logística da operação passou, sobretudo, pela gravação de sons num gravador de cassetes Orion (curioso). Pensávamos nós que a melodia e a harmonia estariam relegadas da sensibilidade desses seres e assim a composição transformou-se numa delirante montagem de excertos dos novíssimos Kraftwerk, dos Emerson Lake and PalmerRick Wakeman, aos quais misturámos uma cacofonia de sons e ruídos bizarros. Alguns anos mais tarde, ao ouvir o Helicopter Sring Quarter  e outras composições de música contemporânea de Stockhausen recordei-me imediatamente desta tarde magnífica.

 O local escolhido para o encontro foi um lugar recatado no meio do Reigás. Fazia lembrar a cávea de um teatro grego, com fragas enormes e uma mata de pinheiros e carrascos densa que acabavam num palco de erva rasteira, seca, oculto da estrada nacional por uma série de plátanos frondosos.
O Mário Cardoso vestiu a melhor camisa branca e calças de fato vincadas. O Zé Mário, inquieto, desafiou os mais próximos a assistirem ao contacto. Só os restantes rapazolas do grupo aceitaram.

O encontro era à meia-noite daquela noite escura como breu, o ar estava quente, os extraterrestres instalados. Chegaram antes da hora e esperaram, esperaram, esperaram até à uma da manhã. Só o sussurrar nervoso do Zé Mário quebrava o silêncio da montanha ocupada. A espera alimenta e potencia o desejo, e quando resignado se preparava para desistir, surgiram os primeiros sons: primeiro, pequenos ruídos metálicos, depois a composição aleatória amplificada pela montanha e de uma clareza surpreendente. O Zé Mário parou, estupefacto, pediu que parassem todos, fez uma pausa no sentido de confirmar o que ouvia e num acto de coragem (sim, coragem) assumiu a liderança e toda a responsabilidade, “Calma, estamos perante um encontro com extraterrestres!” Com os seus longos braços tentava acalmar os restantes que se mostravam assustados com o fenómeno (rapazolas!). Com a “música” a ressoar, surgiu uma figura enorme ao meio da cávea que resultava da junção do penedo ao meu corpo por um lençol branco e terminava num capacete integral azul com uma bola de natal vermelha no interior. Os focos de luz apontados tornavam a figura gigantesca, irreal e sem vestígios de humano. O impacto foi tremendo. O Zé Mário, petrificado, só reagiu depois de uma voz monocórdica, pausada, ribombar monte a baixo e se anunciar. A voz do Zé Carvalho, alterada pelo megafone de latão, era credível, e o conhecimento rudimentar da língua dos humanos servia para nos esquivarmos às dificuldades que iríamos sentir. E as perguntas surgiram em catadupa: quais eram as nossas intenções, de que galáxia vínhamos, e velocidades, e radiações, e a nave, e porquê ali, e mais e mais, e o entusiasmo era tanto que começou a aproximar-se de nós sem que antes, e numa atitude protectora,  o Zé Mário afastasse os restantes para trás. Para o conter, o chefe, essa massa informe, exerceu a primeira represália sobre um dos humanos – sobre o Cardoso de camisa branca imaculada e calças de fato justas. A um gesto, caiu abruptamente, rastejou, rebolou, ficou possesso perante todos, executando uma coreografia que nunca tínhamos imaginado sem a bola nos pés. Parou repentinamente e num movimento de obediência cega caminhou como um autómato em direcção à voz metálica - a nós. O pânico instalou-se no nosso cândido amigo e a surpresa em todos os outros com o estranho bailado do Cardoso. Numa atitude de grande nobreza, o Zé Mário pediu encarecidamente que não lhe fizéssemos mal, que a responsabilidade era toda dele, que o M. Cardoso era casado e tinha filhos. A resposta foi imediata e ameaçadora: “A mentira, ao contrário dos humanos, não é admissível, este humano não tem filhos.” O desespero apoderou-se do Zé Mário: gesticulou, pediu perdão, explicou que não o conhecia bem, suplicou pela libertação do infeliz. E o desespero e a agonia aumentaram quando comunicámos que o humano iria ser sujeito a uma intervenção cirúrgica no sentido de percebermos como funcionavam os terráqueos. Nos longos minutos de espera, o Zé Mário pouco fez, pouco disse. Vergado pelo peso da culpa juntou-se aos restantes que não conseguiam esconder o gozo proporcionado pelo espectáculo naquela noite de verão. Teria durado uma eternidade para o Zé Mário, não fora a entrada em cena de um grupo de amigos que se dirigia para as Pedras Salgadas e decidira participar na estúpida brincadeira.“Calma, estamos perante um encontro de terceiro grau!”, repetiu o Zé Mário, ganhando um novo folgo. A explicação detalhada do acontecimento foi cortada pelo reaparecimento do  Cardoso que descia a ravina, naturalmente, de camisa aberta, a tocar numa cicatriz que sempre tivera e que não conseguia explicar e, muito menos, o que fazia ali àquelas horas. Dirigiu-se para a carrinha com os restantes, deixando o Zé Mário por breves instantes só. O Tó Rodrigues puxou de novo a cassete atrás, os sons iniciais ecoaram, a voz metálica ameaçou o terráqueo pela ousadia demonstrada, os focos de luz apagaram-se. O silêncio instalou-se novamente no monte.

Depressa se soube na esplanada do Café Capri e em todo o Vidago. O Zé Mário, numa excitação incontrolável, tinha perdido a noite a escrever o relatório do acontecimento a que juntou um desenho do “allien”. Desde bem cedo não tinha parado de divulgar o encontro. Era difícil dar crédito ao Zé Mário precisamente pela magnitude daquilo que descrevia. Quem o ouviu, e foram muitos, depressa concluiu que tudo não passara de uma brincadeira e, tarde dentro, os próprios rapazolas confirmaram o acontecimento, assumindo ser os responsáveis pela brincadeira.
O Zé Mário partiu no dia seguinte.
O Zé Mário voltou quinze dias depois. Voltou com o grupo de universitários amigos, editores de uma publicação daquela área, com o intuito de esclarecer e apoiar as vítimas desses encontros que, diziam eles,  preferiam esconder os acontecimentos a exporem-se à incompreensão e ao ridículo. Avisaram-nos, desde logo, que já tinham inspeccionado o local tal como a casa do M. Cardoso e encontrado vestígios e provas do contacto a que tínhamos sido sujeitos e que só precisavam de ouvir os nossos testemunhos para publicarem a notícia. Depois de longas horas e de uma nova simulação no local perceberam definitivamente que o Zé Mário tinha sido o protagonista de um “encontro espectacular”, não mais.

Nunca mais vi o Zé Mário. Nunca deixou de ser para mim, e para todos os rapazolas, um dos grandes amigos do Porto. E as férias, as Grandes, só começavam quando ele e os seus irmãos chegavam.
Demóstenes dizia que todo o homem acredita que aquilo que deseja seja também verdadeiro.
Tão humano, afinal.


Nota: este texto é um relato subjectivo baseado e idealizado a partir de dados reais.

11 comentários:

  1. Magnífico relato! Parabéns.
    Esqueceste-te de mencionar que o Tó Mário era radioamador e que passou o resto da noite a contar no rádio o que lhe tinha acontecido. Já meses se tinham passado e ainda a história andava no ar, contada pela boca do protagonista.
    Um abraço
    PC
    (http://enifpegasus.blogspot.pt/)

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    1. É verdade, eu e um amigo que estava nas Pedras Salgadas, estivemos a ouvi-lo umas boas horas pela noite dentro.
      LP

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  2. Dois sentimentos me acompanharam, ao falar desta história: um enorme gozo por ter resultado na perfeição e, naturalmente, uma pena por termos "perdido" o Tó Mário para sempre. Já lá vão muitos anos, não me lembrava de pormenores referidos no texto, mas penso que a ideia surgiu numa tarde, com o Mário Cardoso, em plena viagem pelo Barroso (no negócio dos colchões). Chegado a Vidago, vi a proposta aceite pelo bando: Ni, Paulo, Zé, Filipe(?). O sucesso da operação teve algumas coincidências felizes: o entusiasmo (estupidez própria da idade), a noite sem luar, escura mesmo e os conhecimentos do Paulo em astronomia, que deram credibilidade ao acontecimento.
    Uma boa história para contar ao nossos netos. Ou para eles verem na net...
    Boa Ni!
    Tó Rodrigues

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  3. Já me tinham dito que os transmontanos são terriveis.
    Não pude evitar uma gargalhada (no local de trabalho!) enquanto lia esta fantástica estória.

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  4. Só mais uma achega:
    Convém dizer que os amigos que iam (ou vinham?) da discoteca, sabiam da marosca. Assim que param o carro, dizem quem estavam com problemas de energia(falso). Quando essa informação chega a ti, interlocutor supremo, informas os terráqueos que tal facto se deve aos problemas com a alimentação da nave, que está a "sugar" a energia de todas as fontes possíveis...,incluindo a dos automóveis...
    1 abraço
    Paulo (http://enifpegasus.blogspot.pt/)

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  5. A credulidade do “Zé Mário” foi apenas um pormenor no meio deste criativo episódio. A sua especial apetência pela eletrónica arredava-o do convívio regular com os seus pares e facilitou-lhe o deslumbramento face a uma encenação tão bem montada, apesar de improvisada. Com efeito, o que sobressai de toda a história, é o gozo de termos conseguido orquestrar tão bem sucedida encenação com adereços tão rudimentares.
    Lembro-me que se chegou mesmo a ponderar a interrupção do ato devido a tão grande entusiasmo do Zé Mário, mas o desenrolar da diegese estava já num estado tão avançado e bem sucedido que já não era mais possível parar a ânsia de assistir ao desfecho de tão bem improvisada representação. O êxito foi tal que até os estudiosos dos fenómenos extra-terrestres convidados do Zé Mário, tiveram dificuldade em acreditar que tudo aquilo não passou de uma brincadeira.
    Foi, acima de tudo, uma evidência entre muitas, de como este grupo de jovens conseguia com tanta facilidade sincronizar as suas apetências e seus saberes tão diversos. Velhos tempos…
    Um abraço para o “Zé Mário” que não vejo há décadas e parabéns para o narrador deste episódio que tem vindo gradualmente a demonstrar “recortes” literários de elevada qualidade.

    José M. Carvalho

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  6. Ni, o meu pai já me tinha contado esta história diversas vezes, ou se foi só uma foi tal a avidez com que o ouvi que hoje na minha memória parece uma história constantemente revivida... mas digo-te: tu sabes escrever caramba! A descrição do Zé Mário está qualquer coisa!

    Mas penso que a grande conclusão a tirar daqui é: já não se pregam partidas como antigamente! Qual fantasmas nos elevadores qual quê, elaborar este plano deve ter tido tanto de suor como de gargalhadas, ri-me bem !

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    1. Exageras no elogio, Maria. Obrigado.
      Realmente naquela noite tudo correu bem. A preparação foi muito divertida e o teu pai já na altura andava com a cabeça no ar (nas estrelas, claro). O ambiente na altura era propício: falava-se de ovnis a toda a hora e muita gente acreditava.
      Aquele grupo do Porto merecia um pouco mais de atenção e detalhe na descrição. Eles encontraram muitos vestígios e sinais reveladores da presença desses seres. Quando chegaram ao Café Capri com as provas ficámos perplexos com o que ouvimos e, aí sim, rimo-nos à gargalhada. Era engraçado conversar com o Mário Cardoso porque foi alvo de um exame físico pormenorizado
      Quanto ao Zé Mário era uma rapaz de uma generosidade e de uma doçura difíceis de encontrar.

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  7. A propósito desta visita extraterrestre, acabei de receber um mail do nosso amigo Luís Pizarro, na época um apaixonado pelo radioamadorismo, que, entre outras coisas diz:
    ... é verdade, estive eu e o Joaquim Ferreira a ouvi-lo noite dentro, pela rádio ele dizia: “ó amigos Ferreira e Pizarro, estou todo borradinho, aconteceu-me uma coisa…”
    Um abraço
    Paulo Coimbra
    (http://enifpegasus.blogspot.pt/)

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