domingo, outubro 26

O Legado de Humboldt, Saul Bellow


"Ninguém se torna interessante com a loucura, a excentricidade ou outras coisas do género, mas em virtude do poder de cancelar a distração, a atividade e o ruído do mundo e porque se mostra capaz de ouvir a essência das coisas."

Saul Bellow chega livro após livro à essência das coisas.

quinta-feira, agosto 28

Para Martin Amis, o grande romance da literatura americana. É verdade, não vale a pena procurar mais.


"O corpo de Stella, com o cheiro morno de mulher, estava coberto de água, começando a partir de uma linha tranquila acima dos seios. ... Sentei-me com o roupão pendurado no ombro e senti-me extremamente em paz. ... Eu sentia-me instalado e descontraído, o meu peito livre e os meus dedos abertos e confortáveis. E é aí que está a coisa. É preciso um momento como este para percebermos como o nosso coração anda angustiado e, além disso, todo aquele tempo em que pensávamos estar a vaguear ociosamente, estava a ser realizado um trabalho duríssimo. Sem nos apercebermos, estávamos a esforçar-nos duramente, cavando e escavando, abrindo minas e túneis, levantando, empurrando e carregando pedras, trabalhando, trabalhando, trabalhando, trabalhando, arfando, transportando, içando. E nada disto pode ser visto do lado de fora. É tudo feito internamente. Isto acontece porque nos sentimos impotentes e incapazes de obter justiça ou resposta, e, então, dentro de nós, trabalhamos, guerreamos e combatemos, ajustamos contas, recordamos insultos, brigamos, reagimos, negamos, palramos, denunciamos, triunfamos, enganamos, superamos, vingamo-nos, choramos, persistimos, absolvemos, morremos, ressuscitamos. E fazemos isto tudo sozinhos! Onde é que está toda a gente? Dentro do nosso peito e da nossa pele, o elenco inteiro."

Saul Bellow, As Aventuras de Augie March, Quetzal

sábado, agosto 2

Agosto




 “É triste no Outono concluir que era o Verão a única estação”, Ruy Belo

terça-feira, julho 22

Morrem Mais de Mágoa, Saul Bellow



"Mas por que viajaria ele tanto? Florestas indianas, montanhas chinesas, selvas brasileiras, a Antárctida. Confessava que a sua irrequietude tinha uma causa erótica, mas nunca conseguiu apresentar a forma de interpretá-la. Havia desejos contraditórios em jogo. Numa idade em que se tem o Eros de um lado e Thanatos do outro disputando campos, é muito natural que se faça as malas e se parta  para um aeroporto, em vez de se ficar à espera de ver o resultado. Vale mais andar-se em movimento? A correr para se manter a libido activa? Isto nunca lembraria a um garanhão."

domingo, julho 13

Terra, Olga Roriz

S. Paiva, Público

Diz António Lobo Antunes que um dos sinais mais fiáveis para avaliarmos se uma peça de teatro é ou não é boa manifesta-se pelo doer do rabo na cadeira. Depois do brilhante Orfeu e Euridice, Olga  Roriz apresentou a sua última criação, Terra, no CCB, e a dificuldade em arranjar uma boa posição durante a longa perfomance foi desesperante. Mais do que a magia do bailado, porque é disso que os bailados se fazem - de magia e comunicação, centramo-nos exclusivamente na capacidade física dos bailarinos, autênticos atletas de alta competição, e ficamos admirados com a tremenda exigência física a que são submetidos. Dança pela dança parece muito pouco para um leigo como eu. Muito pouco.

quarta-feira, julho 9

82. Quando a derrota verdadeiramente doeu.


A última selecção brasileira que não precisava de rezas nem mezinhas nem milagres. Simular uma falta era dar tempo ao adversário e um pontapé para o ar uma opção vergonhosa.

sexta-feira, julho 4

Técnica


Se técnica se define como eficácia com o menor esforço, aliás a própria definição é um primor de síntese e de eficácia compreensiva, os alemães possuem, desde há muitos anos, o futebol em que a técnica individual (não no sentido circense e comummente classificada como tal) melhor se expressa e, como não podia deixar de ser, ao serviço da equipa e das vitórias. Manifesta-se pela qualidade da recepção, do passe e do remate, pelo predomínio da objectividade, da linha recta e pela elevada quantidade de jogadores envolvidos nas acções - a matemática assim o exige.
Mas não é com este modelo minimalista de jogo que se fazem os espectáculos. Os grandes espectáculos de futebol fazem-se com a emoção da linha curva, do drible, do Olé, do rodriguinho, do erro, da simulação, do individualismo, das estrelas narcisistas, em suma: da teatralidade.

terça-feira, junho 24

Irresistível


… “Talvez tenha feito isso ou talvez não; alguma coisa fez, isso é certo – mas quem é capaz de distinguir o que é do que não é quando confrontado com semelhante mestra da falsidade? As cenas patéticas que ela improvisava! A pura hipérbole de tudo o que imaginava! O poder de autossugestão dos embustes que urdia! A convicção com que desenhava aquelas caricaturas!
Não vale a pena fingir que não contribuí para lhe alimentar o talento. Aquela que a princípio não terá passado de uma mentalidade mendaz e provinciana, tentada pela possibilidade de caçar uma boa presa, transformou-se, não pela fraqueza mas pela força da minha resistência, numa coisa maravilhosa e demencial, numa imaginação lunática e inebriante que – pondo de parte tudo o resto – reduzia ao ridículo absoluto as minhas convencionais conceções universitárias de verosimilhança na ficção e todas aquelas elegantes fórmulas jamesianas que tinha interiorizado sobre proporção, vias indiretas e tato. Levou tempo e custou sangue, e a verdade é que só quando comecei a escrever O Complexo de Portnoy consegui deitar cá para fora alguma coisa que se parecesse com o talento para a ousadia estonteante que ela tinha. Não há dúvida de que ela foi o meu pior inimigo de sempre mas, tenho de reconhecer, foi também o mais espantoso de todos os meus professores de escrita criativa, especialista por excelência em estética de ficção extremista.
Leitor, casei-me com ela.”    Philip Roth, Os Factos

No Público, aqui e aqui

quarta-feira, junho 18

Um longo passeio pelos greens (4)


O som dos spikes metálicos dos sapatos no granito das escadas íngremes do Pavilhão marcava a inquietude e a ansiedade de um tee time cada vez mais próximo. Mas tudo começara no dia anterior. Na limpeza meticulosa dos ferros Wilson que a prima da américa oferecera, na escolha da bola ainda embrulhada em celofane e reservada para a ocasião, na verificação da quantidade e do tamanho dos tees, no esticar e dobrar da luva encarquilhada, no toque no quarto de dólar americano que marcaria a bola nos greens. O polo azul Fred Perry e as calças de cor clara, já vincados pela mãe para lá das recomendações, e o brilho puxado nos sapatos fechavam, com o grau de discrição que a timidez exigia, mas também com o cuidado subtil de não passar despercebida, uma composição elegante.
E depois a noite longa, demasiado longa, de olhos apertados, a volta delineada nas voltas da cama, pancada a pancada, de uma regularidade e perfeição impossíveis, e o tempo que nunca mais passava, irrequieto e enervante, que o atirava para o relógio vezes sem conta. E quando o cansaço parecia vencer, a manhã precipitava-se. O alvoroço perturbava o silêncio de domingo e a surpresa disfarçada da mãe recordava-lhe as horas que ainda faltavam para o torneio, “Não é só à tarde?” Sim, era.
O Pavilhão, não sei porque lhe chamávamos assim, era uma antiga fonte de águas termais adaptada a clubhouse do campo de Golfe de Vidago. Entre o pavilhão e o tee do buraco 1 passava a avenida que ligava a fonte termal nº2 à fonte Salus, na extremidade do parque. Esta longa e longilínea avenida, apertada por plátanos, de saibro meticulosamente varrido, limitava, à direita, todo o percurso do primeiro buraco e servia de verdadeiro teste aos nervos de qualquer jogador. Mas era no perímetro do primeiro tee, em frente ao Pavilhão, que o espetáculo decorria. Tarde de domingo, bancos de madeira vermelhos vivos reservados desde cedo pela gente da terra que por ali ficava. Conhecedora dos meandros deste jogo elitista contrastava com a perplexidade dos aquistas que por ali passavam e que, surpreendidos pela estranha coreografia no relvado imaculado, paravam por breves momentos. A azáfama de jogadores e as correrias dos caddies até ao parque de estacionamento na disputa dos golfistas mais generosos rematavam o ambiente de festa. O afã que precedia as saídas das diversas formações de jogadores repetia-se, e o burburinho só diminuía pelo avançar do jogador chamado pela voz do starter e pelos primeiros movimentos de ensaio que precediam a posição definitiva.
Mas quando a nossa vez se aproxima já pouco se ouve e pouco se vê. A barriga aperta ainda mais, o tempo escoa-se. Quando avançamos para as marcas de saída, aqueles dez ou onze passos, aparentemente resolutos, deixam-nos sós num palco verde constrangedor. E então, orquestrados pelo código de um jogo que exige silêncio quando alguém se posiciona, toda aquela gente para e todos se centram em nós. É sempre nesta altura que alguém tosse, alguém se aproxima ainda, alguém diz uma palavra mais, alguém continua a andar no saibro da avenida para a fonte, e é nesse momento que a voz se faz ouvir de novo sobre as outras distraídas e exige que tudo pare. E é essa voz que perturba ainda mais, e todos param e sabemos que todos, sem exceção, se viraram para nós e esperam. E é nessa altura que se ouve o bater do coração e queremos sair dali. E tudo se precipita de uma forma mecânica: bola em cima do tee, três ou quatro passos atrás, movimentos de alongamento do corpo com swings ritmados num crescendo de vigor, memorização de um ponto para o alinhamento, regresso à posição definitiva, aproximação do ferro 2, ligeira correção da altura da bola, verificação da posição dos pés e mãos, olhar rápido para o objectivo, rosto apertado, olhos fixos na bola. O movimento de backswing, que devia ser mais lento e amplo, acelera para lá das rotinas que o treino parecia ter consolidado e desmorona a elegância necessária ao movimento. A correção instintiva do movimento transforma o final do voo da bola, vergonhosamente curta para um adolescente, numa curva para a direita roçando os plátanos da avenida. O embaraço espelha-se imediatamente no rosto após o som da pancada e alastra à gente mais velha da terra que não precisa de se levantar.
Mas é de lá que vem o toque no ombro ou a frase reconfortante, “Força, Ni!”.

sábado, junho 7

Não me lembro

Blue Jasmine

“Dormi tão bem,  … é disto que eu preciso, ter horas para dormir.  E tu? Conseguiste descansar? Olha, tens que me contar o finzinho do filme, estava desconcertada (piscar de olho) e agora que estava a pensar se ela tinha casado com ele … não me lembro … Bem, vou arranjar-me. Beijo.”   

sábado, maio 24

Um longo passeio pelos greens (3)


Durante duas semanas, numa pequena vila transmontana, o “golf”, esse desporto tão elitista e desconhecido para o comum cidadão português, relegava o futebol de Eusébio e Yazalde para um plano secundário. Em Setembro, os Torneios de Golf de Vidago representavam o culminar de uma preparação que se tinha iniciado aos primeiros dias primaveris. Eram quinze dias ininterruptos de golfe, num campo meticulosamente preparado e que aos primeiros sinais de Outono se transformava num local encantatório. Quinze dias de confronto com adversários vindos de longe. Quinze dias de ajuste e nivelamento sociais. Quinze dias que transformavam a pequena vila num pequeno mundo cosmopolita, de etiqueta, de silêncios, de exclamações. Quinze dias em que as conversas no Café se enchiam de anglicismos, de números, de decepções, de espantos, de regozijos, de promessas. Quinze dias que se esgotavam rapidamente e atiravam abruptamente o golfe para uma letargia potenciadora.

terça-feira, maio 13

Chá de Menta com Mel


Na Wikipédia: as mentas são plantas herbáceas vivazes. Em suas propriedades medicinais, é usada como anti-séptico, aromática, digestivo, estomáquica e expectorante. 

domingo, maio 11

Talvez o ato de egoísmo mais iluminado alguma vez registado


Otto Dix

Na tumultuosa Ucrânia, algo que a classe política europeia parece desconhecer:
“Os homens do dinheiro norte-americanos discutiram então de forma exaustiva um novo sistema financeiro internacional para o capitalismo e criaram o Plano Marshal, talvez o ato de egoísmo mais iluminado alguma vez registado. Se os europeus tivessem dinheiro no bolso, consideraram os norte-americanos, podiam comprar comida aos EUA, importar dos EUA maquinaria para reconstruir a sua indústria e – o mais importante – evitar o voto nos comunistas; por isso os EUA limitaram-se a dar-lhes 13,5 mil milhões de dólares, um vinte avos de toda a sua produção em 1948.”  Ian Morris, O Domínio do Ocidente, p.532.

domingo, abril 27

Vasco Graça Moura, Auto-retrato com a musa


1.
vejo-me ao espelho: a cara
severa dos sessenta,
alguns cabelos brancos,
os óculos por vezes
já mais embaciados.
sobrancelhas espessas,
nariz nem muito ou pouco,
sinal na face esquerda,
golpe breve no queixo
(andanças da gilette).
ia a passar fumando
mais uma cigarrilha
medindo em tempo e cinza
coisas atrás de mim.
que coisas? tantas coisas,
palavras e objectos,
sentimentos, paisagens.
também pessoas, claro,
e desfocagens, tudo
o que assim se mistura
e se entrevê no espelho,
tingindo as suas águas
de um dúbio maneirismo
a que hoje cedo. e fico
feito de tinta e feio.
2.
quem amo o que é que pode
fazer deste retrato?
nem sabê-lo de cor,
nem tê-lo encaixilhado,
nem guardá-lo num livro,
nem rasgá-lo ou queimá-lo,
mas pode pôr-se ao lado
e ter prazer ou pena
por nos achar parecidos
ou não achar. quem amo
não fica desenhado,
fica dentro de mim
e é quando mais me apago
e deixo de me ver
e apenas me confundo,
amador transformado
na própria coisa amada
por muito imaginar.
assim nem john ashberry,
nem o parmigianino,
nem espelho convexo,
nem mesmo auto-retrato.
só uma sombra que é
na sombra de quem amo
provavelmente a minha.
3.
quem amo tem cabelos
castanhos e castanhos
os olhos, o nariz
direito, a boca doce.
em mais ninguém conheço
tal porte do pescoço
nem tão esguias mãos
com aro de safira,
nem tanta luz tão húmida
que sai do seu olhar,
nem riso tão contente,
contido e comovente,
nem tão discretos gestos,
nem corpo tão macio.
quem amo tem feições
de uma beleza grave
e música na alma.
flutua nas volutas
de um madrigal antigo
em ondas de ternura.
é quando eu sinto a musa
pousando no meu ombro
sua cabeça. assim
me enredo horas a fio
e fico a magicar.

segunda-feira, abril 21

Um longo passeio pelos greens (2)




Mas é com o campo que o verdadeiro desafio se faz, qualquer jogador de golfe sabe isso.
Experimentem jogar em Vidago, no outono - a verdadeira essência da natureza, de uma natureza que se apresenta como emanação de um deus. Mas não se deixem iludir: toda aquela beleza, aparentemente espontânea, não passa de um logro. Por debaixo de toda aquela harmonia está o dedo perverso de um deus qualquer medieval - exigente, inclemente, quase sempre devastador, raras vezes acolhedor. Quem o desenhou fê-lo para nos seduzir e depois, creio cada vez mais, para nos corromper e para nos vexar.

Coloquemo-nos de um ponto de vista exterior, nos olhos do criador. Desçamos o monte íngreme de terra pobre e agreste, feito de fragas e penedos de granito, coberto de giesta, urze, rosmaninho, estevas, tojos, pinheiros, carrascos e cedros, e quando o monte descansa a paleta de cores altera-se radicalmente, incendeia-se: os verdes sem estação da montanha dão lugar a um vale de paleta rica em tons flamejantes açucarados.    E a escala de tudo aquilo! Se quisermos registar na nossa memória todo esplendor de cor, de texturas e luz, a altura e robustez dos plátanos e dos cedros, os áceres, os belíssimos tons amarelos dos castanheiros-da-índia, os amarelos, laranjas, vermelhos e castanhos dos frondosos carvalhos-americanos, os bordos nas terras ricas com o seu luminoso amarelo-ouro com notas avermelhadas, os longilíneos e trémulos choupos-negros com o seu amarelo-ocre, os freixos, amieiros e salgueiros que ladeiam o ribeiro que percorre todo o vale, a perfeição das tílias, a desmesura da sequoia-vermelha - que viverá por mil anos, o chão juncado de folhas que apertam o relvado, reduziremos o homem a uma infinita e insignificante pequenez.
E como se tudo isso não bastasse, o que nos toca mais no meio daquilo tudo é o silêncio. O silêncio absoluto. E a dimensão do absoluto mede-se paradoxalmente pela nitidez dos trinados dos rouxinóis, pelo canto limpo e repetido dos tordos, pelo restolhar dos melros nas folhas secas. E é esse silêncio que nos comove, e é esse silêncio que nos coloca num lugar indeterminado, num vazio inquietante difícil de detalhar e de compreender.

Perante esta explosão simultânea de violência e de tranquilidade, o que fazem os jogadores de golfe?
Cegos, perseguem uma bola.

segunda-feira, abril 14

Regresso às Belas-Artes.

Rita

(7.ª EDIÇÃO – GAB-A GALERIAS ABERTAS DAS BELAS-ARTES)

O amarelo forte fica-lhe bem. Na entrada, procurei a escultura do Laocoonte e percebi de imediato que pouco mudara: os magníficos gessos expostos continuam estranhamente mal conservados. O acesso aos pisos superiores continua a fazer-se, à direita e à esquerda, por dois lances de escadas largas e polidas pelos anos e, como todos os alunos da Escola durante tantas gerações, também a Rita optou pelo lado esquerdo. Percorri os longos corredores de cicerone entrando nas salas de pintura, de desenho, de modelo e pareceram-me exactamente iguais: os mesmos estiradores, o chão e as paredes marcados pela tinta, as janelas claras e profundas viradas a sul, as paredes larguíssimas do convento, os trabalhos expostos aparentemente acabados de fazer. Agradou-me ver que a figura humana continua a ser a base de trabalho de formação.

Recordei-me deste "recorte" de José Cardoso Pires:
“ Em arte só se pode esquecer, sabendo; só assim se torna possível corromper o discurso para o renovar e lhe dar dimensões mais vivas. Assim fizeram os grandes mestres pintores dos nossos dias. Corromperam porque conheciam a gramática da imagem para a enriquecer com novas leituras e com novas confrontações com o real.”


sexta-feira, abril 11

Um longo passeio pelos greens (1)



Dificilmente me seguirão. Ninguém suporta conversas sobre golfe e golfistas. Como se isso não bastasse, vou usar termos específicos da modalidade que, provavelmente, nada vos dirão. Mas também não dizem muito. Quando o itálico enviesar a palavra não liguem e pensem que tudo se resume a se bateu ou não bateu na bola. Passem à frente. Evitarei juntar aos anglicismos os palavrões que os precedem ou que lhes sucedem. São estes que classificam com acuidade a qualidade da pancada. Não há só dois tipos de pancadas, tal como sugeri, mas uma infinidade delas e, por estranho que vos pareça, as perfeitas são raras, dificilmente as vemos. Melhor, ouvimos, porque o som do contacto com a bola é o primeiro sinal, e o mais fiável, para atestar a qualidade do bom shot. O som não engana. O contacto perfeito provoca no jogador uma sensação única de plenitude e no adversário a exclamação genuína de reconhecimento ou, por vezes, o elogio forçado, a dissimulação, o silêncio invejoso. Estranha estas palavras quem pensa que o golf (repararam no itálico e a perda do é) é um desporto cortês de uma elite aristocrática de sapatos de franja brancos e calças aos quadrados seguidos por rapazinhos enfezados que carregam sacos enormes cheios de ferros de todos os feitios e incapaz de tais sentimentos mesquinhos. Afastem essa ideia. Esse mundo, se existiu, acabou há muito. A roupa e os acessórios exclusivos foram substituídos pelas plebeias nike e adidas que tornaram o golfe num circo de cores que só tem paralelo no jogging de domingo à beira-mar; pensam, ainda assim, que os grupos de afortunados que se passeiam nos greens a falar de negócios e a matar o tempo que lhes sobra são alheios à competição; acham, seguramente, que não encontram ao longo das quatro horas do percurso um gesto que os comprometa, uma palavra que os vulgarize, uma atitude que os denuncie. Nada disso, simples mortais. Batem-se tenazmente. São capazes de tudo: das desculpas mais torpes, dos palavrões mais rascas, dos olhares mais inquisitivos, das atitudes mais vis. Se lerem as regras que regulam este longevo desporto e a minúcia das situações que prevê, percebem que a tentação para contornar as normas está latente neste jogo do demo. Fazem tudo por um bom cartão.
Mas há os que o interpretam como um jogo para Homens. Impolutos. Um jogo de deuses. Uma luta inglória e sem fim contra nós próprios e contra o campo. E aí não há lugar para a trapaça. Só há lugar para a desilusão, para o silêncio, para o abanar de cabeça, para o palavrão surdo. E também para a catarse.
Claro que não há os bons e os vilãos. Uns e outros. Os jogadores são uns e outros. Mas todos têm duas características em comum, não estranhem: a perseverança e a humildade – conservam-se firmes, não desistem e são, também, os primeiros a reconhecerem as suas limitações, os seus defeitos, as suas incapacidades. E isso é, bem sabem, difícil de aceitar e, sobretudo, admitir perante os outros - e é aqui que surge o embuste, a simulação, a vaidade.

sexta-feira, abril 4

Gauguin teria gostado


O maior elogio que se pode fazer a uma obra de arte, fê-lo o operário reformado italiano ao manter durante 40 anos uma pintura pelo "valor facial". Pendurá-lo na cozinha foi, seguramente, o melhor local para este Fruits sur une table. Gauguin teria aprovado. 
Agora que o levaram, como ficará a cozinha? Pintará o rectângulo que sobra na parede? Com que se pinta a ausência súbita do que nos acompanhou durante tanto tempo?

I Loves you Porgy, Nina Simone


Neste inverno que não acaba mais, com esta chuva sem fim e um sol que nos abandonou, sabe bem ouvir esta música de George Gerschwin cantada pela imprevisível Nina Simone, e sugerida pelo MEC em Se As Canções Falassem

terça-feira, março 25

Periferia miserável


Também eu tenho uma pergunta a fazer sobre a Crimeia.
Após o voto pró-russo no referendo da Crimeia e perante as câmaras da RTP, um militar reformado de origem russa resumia assim o seu patriotismo: “Agora a minha pensão há de crescer três vezes.”

O que propõe o Ocidente depois de ter abandonado estes povos a uma periferia miserável? (Repararam na subtileza e na familiaridade de “periferia miserável”)
A resposta está hoje, dia 28/3, no Público: o FMI propõe ao governo ucraniano um "pacote de austeridade muito impopular, complexo, com reformas duras,"...  "que foi uma das razões que levou o Presidente Ianukovich a virar as costas à União Europeia  e assinar um acordo aduaneiro com a Rússia, em Dezembro passado.

segunda-feira, março 17

“Twinkling star”






Já todos sentimos aquele súbito tremor na vista e o frémito que percorre a espinha, aquele desconforto, aquela agitação interior perante o inesperado, perante o belo. Ou, como neste caso, perante o feio.

Apareceu de vestido de cetim branco, rodado, pelo joelho. A pele clara das costas, os ombros e os braços nus ganhavam um protagonismo inusitado. Preso do pescoço até a uma cintura subida, um emaranhado de pregas, franzidos e acessórios dourados diluíam por completo uns seios firmes e um corpo helénico. O trabalho com os cabelos foi devastador. O cabelo liso deu lugar a um elaborado e confrangedor penteado de madeixas e caracóis. Os brincos, arrecadas da avó de filigrana fina, baloiçavam incessantemente. E não soube parar, os olhos retocados a tons suaves e os lábios pintados desfiguraram irremediavelmente um rosto cândido. Para acentuar o desastre da composição, escolheu uns sapatos claros de salto alto a condizer.
Enquanto caminhava ao seu encontro, o jovem professor viu que Dalva transformara-se numa boneca espanhola desarticulada.
Viu-o desconcertar-se, pestanejar, entreabrir os lábios para não dizer nada. Ficou pálido.
«Vamos», balbuciou.
Emudeceu.

Os dias eram demasiado quentes e secos para os primeiros dias de junho. David passava pontualmente às seis e meia de regresso à casa alugada por um grupo de professores. Foi colocado a meio do ano letivo após ter terminado o serviço militar obrigatório. Alto, cabelo curto, de tez morena - reflexo da vida militar, David fora convidado a partilhar a casa com outros sete professores. A “casa dos professores”, uma verdadeira república nas palavras do padre da paróquia, era local de pouco sossego: saídas pela noite dentro, folias e folguedos a desoras, jantares prolongados no terraço com os muitos amigos que por lá pernoitavam. Não demorou muito tempo para que a casa fosse vista, na perspetiva dos olhares das viúvas da aldeia, como um local pouco recomendável pela suposta promiscuidade que por lá reinava e à qual o padre fizera na missa de domingo, embora velada, uma referência depreciativa às mulheres que a habitavam.

 Às seis e meia, o carro percorria os metros finais de uma estrada que acabava naquela terra isolada do Douro – Pedregal. Apesar do rio a escassa distância, aquelas terras não beneficiavam das vantagens da zona demarcada do vinho do porto. Terra pobre em concelho pobre. Devastada pela emigração que lhe levara os homens, Pedregal era terra de amazonas. Mulheres robustas, precocemente gastas, touca e avental, saias largas pelos joelhos, pernas nuas, braços fortes e tisnados, carregavam, ao final da tarde, cestos, produtos da terra, enxadas, filhos pequenos,trouxas dos filhos e da casa, e animais.
Dalva era a mais nova dos cinco filhos da proprietária da venda da aldeia. Ficara ela. Quatro anos antes, trocara com agrado os estudos para cuidar da doença da mãe e do pequeno negócio. Com os seus 20 anos, os dias eram demasiado longos para ela. Dormia até tarde, substituía a mãe na hora da preparação do almoço, aviava as velhas viúvas da aldeia, recebia o correio, lia as cartas de França ou da Alemanha, cumprimentava o velho padre da igreja em frente, que não evitava em olhá-la demoradamente alertando-a, com o sotaque arrastado e cantado do Porto, para os perigos de tanta beleza, «Dalbinha! Dalbinha!». Pela tarde, como em todas as tardes, sentava-se no banco de pedra à porta da loja a respirar, entediada. Entrava ocasionalmente para atender o telefone, chamar um carro de praça de Santa Marinha, despachar um cliente esporádico, e voltava para o banco à sombra da roseira retorcida de pequenas rosas escarlate. Conversava com os velhos da aldeia que por ali ficavam, simplificava na roupa, descuidava-se na postura naquelas tardes quentes. Não nos olhares para o professor que passava religiosamente àquela hora.
 Quando o motor do Fiat se fazia ouvir, já Dalva tinha alongado o corpo, prendera melhor o cabelo, colocara-se na posição mais favorável. E eram tantas, Dalva, filha de Júpiter. No momento fugaz em que cruzavam os olhares, Dalva esboçava, sem se descompor, um ligeiro sorriso atrevido. E era aquela postura de felino e aquela simplicidade que a tornavam, aos olhos de David, surpreendente bela. Como o comovia aquele toque de aparente negligência. As t-shirts e as calças de ganga que usava regularmente desenhavam-lhe um corpo magnífico. E ela sabia-o. O padrão não variava: fundo liso, riscas finas brancas horizontais adossadas a outras vermelhas ainda mais finas contornavam e realçavam os volumes de um busto perfeito e de uma cintura jovem. Os cabelos castanhos com laivos dourados apanhados atrás deixavam o rosto e, sobretudo, o sorriso brando superar a frieza da perfeição clássica.

O calor do fim do dia parecia ter atingido o pequeno carro pelas curvas da margem direita do Douro. Seguia em sentido contrário ao rio. Dalva mostrava-se entusiasmada com o convite para uma noite na discoteca com os amigos de David e tudo fez para que os monossílabos bruscos e o amuo dele se dissipassem. Tinha percebido desde o primeiro momento que algo o perturbara e, sem alterar a rotina dos meses anteriores, colocou, como colocava sempre, a mão na perna dele e esperou que a mão dele a tocasse, como tocava sempre. Deixou, como só as mulheres sabem, e sem que houvesse menor indício de vulgaridade naqueles descuidos, que o próprio percurso sinuoso do rio deixasse assomar o joelho redondo, a coxa lisa, que o vestido se descompusesse e deixasse, por momentos, que parte do seio direito se visse. A mão que sempre a tocara não escondia o mau estar nem o silêncio obstinado. Rodava impacientemente o botão do rádio, tirava e punha cassetes, rebobinava-as, guiava olhando a estrada de testa congestionada pela aversão. Não sabia como comportar-se, ou para onde ir, o que dizer. Não encontrava, no fundo, uma justificação para desistir da noite com os amigos. Podia ter-lhe pedido que tirasse o vestido branco de cetim e voltasse aos jeans e tshirt, mas a ideia de condicionar alguém estava fora das suas cogitações.
O mau humor não se dissipou ao jantar. Comeram pouco e quando David por breves momentos a olhou nos olhos, Dalva percebeu o pânico instalado no namorado. Não o inquiriu nem o condicionou. Falou do livro que andava a ler - porque lia noite dentro, dos livros que a despertaram para o hábito da leitura, de Eça de Queiroz, fez referências pormenorizadas aos lugares de A Cidade e as Serras, que tinha como cenário aquela zona. Pela primeira vez, Dalva falou mais do que ele. E fê-lo com graciosidade, sem aparente esforço, como diriam os italianos do quattrocento, com sprezzatura. David percebeu nessa altura que não só desconhecia o que Dalva lia, o que ouvia, do que mais gostava, mas também se tornou ainda mais claro de que ela o amava. Desde que o conhecera, passara a ser não só o porta-voz de um mundo novo como também o próprio mundo. Gostava de o observar, como se movia, como se comportava. Talvez fosse a melhor maneira de o conhecer. Mais, escutava-o. Mais, estava-lhe grata.
Mesmo resignado, a má disposição de David não se desvaneceu por completo e o resto do percurso foi marcado pelo entusiasmo moderado e pela ternura discreta de Dalva, que nunca provocaram nele qualquer tipo de constrangimento. Virou-se mais para si, para as músicas dela, e que eram também as dele: Louis Amstrong, Nat King Cole, em espanhol, uma descoberta para ela, e, sobretudo, as de Ella Fitzgerald que lhe pareceram as mais adequadas para retirar o companheiro do ambiente soturno em que se metera. Conhecia-as de cor. Suavemente, na penumbra que os envolvia, sobrepunha a sua voz à de Ella. Dedicated to you era canção preferida de David, e Dalva cantava-a baixinho, «If Ishould write a book for you/ … / That book would be like my heart and me/Dedicated to you» e tornava a sua voz imperceptível durante parte do tempo dando espaço à surdina do trompete, à orquestra, aos pensamentos, regressando para sublinhar, «If I should find a twinkling star/ One half so wondrous as you are/ That star would be like my heart and me /Dedicated to you», prolongando, para além da voz de Ella, o u em diminuendo.
Chegaram mais cedo que os amigos à discoteca e sempre que alguém entrava, o coração de David saltava. E tal como ele previa, aconteceu o que mais desejava e, também, o que mais temia: Luísa também viera.

Deixara-o há alguns meses. Mulher de mil encantos, mulher que moldou os seus gostos, mulher que ocupou obcecadamente todos os seus pensamentos. No dia em que a conheceu, não conseguiu dormir; quando soube do interesse dela em voltar a sair com ele, não acreditou; quando lhe deu o primeiro beijo, não soube se devia rir ou chorar. Portuense, aluna da faculdade de medicina, Luísa falava, ao contrário do que seria de esperar, de cinema e de teatro, recomendava o cinema fantástico do Fantasporto, referia, a miúdo, as propostas alternativas do FITEI (festival de teatro do Porto) e gostava, em particular, de livros, dos sul-americanos - tão em voga com o prémio nobel de Garcia Marquez. Mas era de poesia que falava com mais entusiasmo. Iniciou-o em Fernando Pessoa, nos heterónimos, mostrava preferência por Ricardo Reis, lia-lhe os modernistas portugueses. David sucumbiu não só à beleza de Luísa, mas também ao poder da palavra, ao entusiasmo, às escolhas que fazia, ao cosmopolitismo de Luísa. Quando terminou a relação, falta dizê-lo, fê-lo com a delicadeza que se esperava: transcreveu um poema de Mário de Sá Carneiro na página dedicatória do livro que lhe oferecera - «Um pouco mais de sol – eu era brasa / Um pouco mais de azul – eu era além / Para atingir faltou-me um golpe de asa …. Se ao menos eu permanecesse aquém …» e terminava com a ideia de que ao ler o livro David compreenderia melhor a decisão dela.
Um enigma que o havia de consumir.
Estava mais magra e, como muitas vezes acontece, tornara-se ainda mais bonita. Mantinha uma elegância fora do vulgar, um pouco francesa misturada com uma certa travessura italiana. O cabelo liso e negro pelos ombros, risca ao meio bem desenhada, pele morena, olhos de suave recorte oriental reflectiam requinte e sofisticação e, para além disso, o mistério das mulheres belas. E mulheres belas, especialmente se ainda são inteligentes, provocavam em David um tremendo sentimento de insegurança.
Quando viu David, o olhar de Luísa passou por brevíssimos instantes por ele para se fixar de imediato na companheira do lado, em Dalva, numa avaliação imediata, instintiva, precisa, para lá do cetim branco e das arrecadas de filigrana fina, para voltar de novo a David. O sorriso alargou-se, familiar, sedutor, de resgate. Luísa vira uma igual. Dalva, apesar de surpreendida, compreendeu de imediato tudo. David não foi capaz de fazer mais nada senão olhar para a universitária, enfeitiçado. Ficou embaraçado, terrivelmente embaraçado, e o muito que sentiu foi sobretudo expresso pelo pouco que disse.
Foi uma noite de silêncio, espaçada por risos nervosos e galanteios. David manteve-se próximo de Dalva, mas não se esquivou nem quis às conversas curtas e recorrentes de Luísa nem aos seus subtis sinais de afecto. O barulho obrigava-os a aproximarem os rostos para se ouvirem. Invocavam um passado recente, recordavam episódios entre os dois, não evitavam tocar-se. David absorvia cada gesto, cada sorriso, cada palavra, mesmo sem as perceber. O simples fluir do som que as palavras produziam, a intimidade da conversa, excitavam-no.
 Não conseguiu ocultar os sentimentos, que é, como alguém disse, o primeiro passo no sentido das maneiras civilizadas. É o risco que a pessoa corre quando se apaixona. Arrisca-se a perder a dignidade.
 Dalva, Dalva, filha de Júpiter.
Dalva, circunspecta, colocava a mão na perna dele num último esforço para o agarrar, e só a retirou, num gesto instintivo, quando Luísa fez referência a Aquellos ojos verdes de Nat King Col e em particular a Dedicated to you, de Ella Fitzgerald.
Dalva inclinou-se, e com uma tremura na voz embargada suplicou-lhe ao ouvido, «Vamos …?» - desviando o olhar, escondendo-o. Estava só. Sentia-se uma intrusa num ambiente adverso.
David percebeu, num lampejo de lucidez, o desconforto e o abandono da namorada.

Era tarde. Tudo estava em ordem: o carro verde seguia agora no mesmo sentido do rio. O Douro brilhava do lado esquerdo. O contorno dos ciprestes, esguios e nítidos, que pontuavam a paisagem duriense entrava pelo céu claro daquela noite sem ar. O silêncio só era perturbado pelas janelas abertas e pelo barulho de um motor apático.
Embora por diferentes razões, o silêncio entre eles exprimia tudo o que sentiam. Não foi pronunciada uma única palavra. Tiveram a inteligência de não falar. Não se pode prever as consequências que as palavras podem causar, os mal-entendidos, o efeito explosivo. De olhar quase cego, com o vento no rosto, David não conseguia esquecer as palavras que ouvira nem o beijo fresco de despedida no canto da boca. Luísa sabia que por esse último beijo seria sempre recordada. Como traduzir aquele beijo em palavras? Enquanto o silêncio perdurou, repetiu mentalmente, uma e outra vez, as conversas, misturando o que ouvira com o que tinham dito e com o que desejava ter dito. Atribuiu significados aos mais pequenos gestos, aos olhares, interrogou-se, especulou, procurou as palavras certas, reconstruiu diálogos, esboçou sorrisos. Tudo lhe parecia mais nítido.
Quando o carro se preparava para desviar do rio, a escassos quilómetros da aldeia, Dalva, num gesto de condescendente ternura, colocou, como colocava sempre, a mão na perna dele e a mão dele, num gesto espontâneo de contrição, tocou-a de imediato, como fazia sempre.

Do promontório via-se o rio ao fundo, apertado por montes e vinhedos. Há muitos no Douro, mas aquele fora o primeiro local que David escolhera para passar as tardes de ócio. Um pequeno desvio em terra, ladeado por olmos, castanheiros, giestas, escondia o carro, deixando-o suspenso com o rio aos pés. Era ali que passavam as tardes. Dalva sentia-se à vontade, aliviada, de brilho nos olhos. A mão que colocara na perna dele, já afagara a mão de David, já notara a excitação, já repousara lá. O Fiat 127 verde estava de frente para um rio largo, brilhante. Dalva retirou os brincos, soltou o cabelo, já descalçara os sapatos de salto. Passou para o banco de trás com a desenvoltura de quem o fizera de outras vezes. David seguiu-a. Sentou-se primeiro. E ela em cima. Virada para ele. O vestido de cetim branco rodado facilitou o contacto quente dos corpos. Inclinou a cabeça na direção do peito e permitiu que David retirasse, de um gesto só e como que por magia, as pregas, os folhos e os franzidos que escondiam os seios rijos. Na memória dele, toda a noite, a pouca luz e toda a beleza se imobilizaram nesse momento. O momento em que a imagem de Dalva superava os mestres barrocos e tornava-se numa obra-prima viva, sedutora, eloquente. A luz de um luar quase pleno contrastava um corpo firme de uma voluptuosidade estonteante. Os lábios dela, luxuriantes e ternos, redimiam-se de um silêncio atroz. Dalva oscilava entre a meiguice e o enliçamento animal. Esmagavam as bocas, mordiam-se, chupava-lhe as mamas túmidas, paravam para ganhar fôlego e era nestes instantes, presos pelo sexo, que se olhavam deslumbrados.
«Amo-te», sussurrou-lhe ao ouvido pela primeira vez. Dalva sorriu.

David sabe, hoje, que a bela Dalva – a bela Afrodite, pertencia ao grupo de mulheres que, a começar pelo corpo e a acabar na alma, se tornaria a mulher perfeita. A verdade, no entanto, é que se tornara evidente que apesar de todos os seus encantos – a sua ternura, a sua beleza, o seu riso fácil – David nunca poderia amá-la. David tinha um enigma que o consumia.



Orfeu e Eurídice, Companhia Nacional de Bailado



Para além da frivolidade que lhe está inerente, o facebook é sobretudo um espaço de partilha: vê o que eu vejo; gosta do que eu gosto; lê o que eu leio... Segui a sugestão da Alexandra e estive no Teatro Camões para o magnífico Orfeu e Eurídice. A coreografia de Olga Roriz mexe connosco, pura emoção, deslumbramento; a músicacom orquestra e coro presentes,  duplicou o prazer do espectáculo; os figurinos de uma simplicidade e equilíbrio surpreendentes; e a luz, num cenário completamente negro, desenhou espaços, marcou ritmos, deu protagonismo.  

domingo, fevereiro 23

L’Arpeggiata de Christina Pluhar

Eu sei que há palavras que não devem usar-se muito. Gastam-se, desvalorizam, temos poucas, devemos guardá-las para ocasiões muito especiais. Mas o concerto do L’Arpeggiata de Christina Pluhar foi fantástico. Uma viagem musical na região do Mediterrâneo. Um itinerário surpreendente num auditório cheio. A convidada do grupo foi a fadista Mísia à guitarra do brilhante Sandro Costa.  E quando ela cantou, estranhei, em mim que não gosto de fado, o arrepio que me percorreu.

sábado, janeiro 18

Cru


Cru. (Diz-se, em pintura, dos tons duros em que, entre os escuros e os claros, não há transição. in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa). Cru, não mais. Filme duro: pelos sentimentos que provoca; pela incapacidade de Solomon explicar o óbvio; pela austeridade cromática; pela irracionalidade de um tempo que nos parece ficcionado, e não é; e um alerta, por sabermos que, disfarçada por outras roupagens, a escravatura existe.

sexta-feira, janeiro 10

The Good Wife, 4ª temporada


Começou a 4ª temporada The Good Wife, canal 2. Não sei se partilham, mas é, provavelmente, uma das melhores séries sobre o poder judicial e, também, sobre o poder político e económico. Mas não se esgota por aqui, evidentemente. Os guiões são sofisticados e imprevisíveis. Os diálogos brilhantes e inteligentes. As interpretações convincentes e de uma elegância extrema. As personagens, complexas, evoluem engenhosamente ao longo das temporadas. A não perder.

quinta-feira, janeiro 2

O Herói Discreto, Mário Vargas Llosa


Não será uma obra-prima, não deslumbra, mas deu-me um imenso prazer ler o último livro de Vargas Llosa. Sabor a novela sul-americana, bem escrito como um prémio nobel sabe, personagens simples, relações complexas. Só para vos aguçar o apetite: Felícito Yanaqué tem uma amante muito mais nova – Mabelita, de uma beleza exuberante; para deserdar os filhos, Ismael, um octogenário rico, casa com a empregada escandalosamente jovem. Tudo isto ligado pelo casal de outros romances de Vargas Llosa - Lucrécia e Rigoberto, mestres da volúpia.