domingo, fevereiro 5

Did Cristh laugh?

(clicar na imagem) 

A leitura deste excerto do último livro do Ricardo Araújo Pereira, A doença, o sofrimento e a morte entram num bar, remeteu-me imediatamente para o momento chave do filme de Jean-Jacques Annaud,  "O Nome da Rosa", a partir da obra de Umberto Eco: o memorável diálogo entre o franciscano William Baskerville e o bibliotecário Jorge sobre o poder maléfico do riso e da sua capacidade em subverter o medo. Como bem sabemos, sem medo não há reverência.
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quinta-feira, janeiro 26

A Gorda, Isabela Figueiredo



Depois do surpreendente Caderno de Memórias Coloniais, Isabel Figueiredo publica este romance cru, de tons duros, entre os escuros e os claros, impiedoso e pujante.

« Sacolejando-me, procuro o lugar da ignição, vem coisa imaterial ao redor de mim, vem, e há um instante em que agarro essa névoa por um braço, perna, um farrapo, a agarro toda, a puxo com força, a seguro, tenho-a, prendo-a, e, mantendo-a, deixo-a rebentar no momento em que cruza inteira o tamanho do meu corpo, não sei em que direcção, vai, não sei quem sou, não pertenço a lugar algum, sexo e cérebro são uma esfera de luz-prata na qual nos suspendemos por segundos, não mais, cegos, só dor luminosa no lugar do nada…»


sexta-feira, janeiro 20

O que correu mal em Obama?

Ilustração André Carrilho

Também vou ter saudades de Obama. Saudades do humanismo e da tolerância. Saudades da modernidade e da elegância dos actos. Do seu sorriso largo. Saudade dos discursos espontâneos e informais, das diferenças de timbre da sua voz, das alterações sistemáticas de ritmo, das pausas prolongadas que nos permitiam refletir. A oratória como uma ciência das emoções. Também um mestre na gestão da imagem. Ninguém geriu tão bem a linguagem corporal, os locais por onde andou ou por onde passeou, até mesmo a subtil e eficaz exploração dos espaços familiares e dos gestos mais íntimos. Se era difícil superar Bill Clinton, Barack Obama conseguiu-o largamente.
Se do ponto de vista europeu e pelos dados revelados pelos vários indicadores, a governação foi, apesar da maior crise económica mundial depois de 1929 e ao invés da Europa, um sucesso, há algo que não consigo compreender, porque contraria a história da tomada do poder dos partidários do populismo: o que correu mal nestes anos de Obama para que o povo americano votasse numa mudança tão radical e entregasse o mais alto cargo da nação ao sinistro Donald Trump?

sexta-feira, janeiro 13

Plata o Plomo



Anos 80. Pablo Escobar era o maior contrabandista do mundo. Toda a sociedade colombiana estava refém de um negócio  próspero - cocaína, dinheiro e sicários. O confronto entre o poder político e o narcotráfico levou a situações de uma violência inaudita: a chantagem, o rapto, o terrorismo.
A não perder a série da Netflix  e acompanhar com a leitura do livro de Gabriel Garcia Márquez, Notícia de um Sequestro.

«Com a fortuna e a clandestinidade, Escobar ficou dono da situação e converteu-se numa lenda que dominava tudo a partir da sombra. Os seus comunicados  de estilo exemplar e cautelas perfeitas chegaram a parecer-se tanto com a verdade que se confundiam com ela. No alto do seu esplendor ergueram-se altares com o seu retrato e puseram candelabros nas comunas de Medellin. Chegou a julgar-se que fazia milagres. Nenhum colombiano em toda a história tinha tido ou exercido um talento como o dele para condicionar a opinião pública. Nenhum outro teve maior poder de corrupção. A condição mais inquietante e devastadora da sua personalidade era que carecia completamente da indulgência para distinguir entre o bem e o mal.»
Notícia de um Sequestro, de Gabriel Garcia Marquez.

«A realidade saiu-lhe ao encontro quando viu abandonado à beira da estrada o cadáver de uma adolescente de uns quinze anos, com boa roupa de cores festivas e uma maquilhagem escabrosa.
- Está ali uma rapariga morta.
- Sim - disse o motorista sem olhar. - São as bonecas que andam nas festas com os amigos de Dom Pablo.»
                                                                               Notícia de um Sequestro, de Gabriel Garcia Marquez.

segunda-feira, janeiro 2

No Porto para ver o velho e nobre casario ganhar vida ...




... mas também constatar o timbre pardacento e as sombras escuras desta terna cidade: o lixo que se amontoa, e a quantidade de indigentes que a fere.

quinta-feira, dezembro 29

Homens Bons, de Arturo Pérez-Reverte


Uma aula de história. Da Madrid beata e cinzenta à Paris iluminista e libertina, em vésperas da Revolução de 1789.

« Indica-lhe um lugar da biblioteca perante o qual don Hermógenes já se deteve, extasiado. Ali na luz plúmbea que penetra pela janela, destacam-se as lombadas douradas de vinte e oito volumes de grande formato, encadernados em pele castanho-clara: Encyclopédie, pode ler-se nos rótulos vermelhos e verdes.
- Posso abrir um?
- Por favor.
Com reverente unção, como se fosse um sacerdote que leva nas mãos o Santíssimo Sacramento, o bibliotecário põe os óculos, retira o primeiro volume da estante, coloca-o em cima da mesa do gabinete e abre-o cuidadosamente.
- Discours préliminaire des éditeurs - lê, quase emocionado, - L`Encyclopédie que nous présentons au Public, est, como son titre l`annonce, l`ouvrage d`une société de gens de Lettres...»

domingo, outubro 30

domingo, outubro 16

Ronda das mil belas em frol, Mário de Carvalho



Qualquer livro Mário de Carvalho obriga-me a ter o dicionário ao pé. Já estava à espera: um vocabulário alargado e rico, uma grande atenção à escrita. Mas ler esta coleção de contos eróticos a roçar o vulgar e de gosto duvidoso, interrompidos amiúde pelo Priberam, e compará-los com as descrições ritmadas, licenciosas e onomatopaicas de Reinaldo Moraes, que li recentemente, transformou a narrativa de Mário de Carvalho, Ronda das mil belas em frol, em algo decepcionante.

«Na hora da verdade, a experimentada, ávida e estrondosa Antonieta não queria outra coisa. Algo ela me ensinou. Regia os tempos. Escusava pressas, mas, inesperada, também precipitava delongas. Ditava e mandava, disfarçando o todo em lânguida doçura.
Cabeça revolta a dar a dar, um ofego em crescendo, com torção do corpo e arranque abismal, bradado na surpresa dum rompante ao modo popular, exigindo mais alguma coisa ou asseverando que alguma coisa estava para acontecer. Vocabulário cru, em barda. Expressões que não me eram lembradas desde a pornografia adolescente.»

segunda-feira, outubro 10

A estranheza da escolha de A vegetariana à tetralogia de Elena Ferrante para o Man Booker Internacional


«As gravações tinham ficado melhores do que esperava. A iluminação, os movimentos dela, o ambiente que evocavam - tudo estava de cortar a respiração. Considerou por um momento a possibilidade de adicionar alguma música de fundo, mas decidiu mantê-lo sem som, para dar a ideia de que tudo o que se estava a passar no ecrã acontecia numa espécie de vácuo. A delicadeza das linhas dela, o seu corpo nu coberto de flores maravilhosas, a mancha mongólica - tendo como pano de fundo o silêncio, uma harmonia silenciosa que evocava algo de primitivo, e eterno.»
A Vegetariana, de Han Kang

sábado, outubro 8