segunda-feira, março 11

Faial, Pico e São Jorge, pelos olhos de Vitorino Nemésio. Magnífico


«Margarida curvou-se sobre a cruz, e ali abriu e dispôs as suas despedidas de verão. Depois, persignando-se, ficou um momento recolhida. Um melro voou do muro do cemitério e foi esconder no galho de uma árvore o seu assobio dobrado, um destes módulos que, em coro crescente, enchem de torpor e de sonho as madrugadas das ilhas. Depois sentiu-se uma grande chilreada, o frémito de várias asas, e uma nuvenzinha de melros, precedida do par que guerreava, perdeu-se para os lados do pico.»
Mau Tempo no Canal, Vitorino Nemésio

terça-feira, janeiro 22

A Síbila, de Agustina Bessa Luís


Um livro que me tinha impressionado há muitos anos e que, na altura, exigi a mim mesmo uma nova leitura. Trinta anos depois, uma opinião definitiva: não conheço melhor. Denso, inteligente, brilhante!

«Quina espiava-o, sem, porém, deixar que ele a surpreendesse. E tomava-a uma secreta alegria, ao sentir de novo a familiaridade de todos aqueles objectos, os ancinhos, as velhas foices desdentadas no vão escavado da parede mestra, a lareira com a pequena cafeteira que fervia e cujo silvo era o acompanhamento adequado ao ronronar dos gatos. Por uma frinchazinha da pálpebra, advertia a atitude amuada e puerilmente orgulhosa daquele homem cuja estreita fronte se franzia num esforço tocante de se mostrar penalizado por uma ofensa. E ela ria-se intimamente; e as lágrimas afogavam-lhe o riso, e as suas mãos tremiam ao tocarem a tampa da cafeteira que oscilava ao ferver. O grande luar e a atmosfera toda azul viam-se da janela de grandes abauladas; os cães ladravam aos rumores da noite, e sonoramente a água caía de alto sobre o tanque, desenhando círculos que eram como rugas de vidro.Quina estendia os seus pequenos pés, os calcanhares poisados nas chinelas; o lenço, puxado sobre a boca, dava-lhe um ar misterioso e quase jovem.»
A Síbila, Agustina Bessa Luís

quinta-feira, novembro 1

Garrincha



Mais uma biografia maravilhosamente escrita por Ruy Castro. Agora sobre o jogador mais amado pela geração de 50/60.  Mané Garrincha - da infância selvagem à destruição pelo alcoolismo.

«Garrincha foi então deixado sedado e sozinho - uma estrela mais solitária do que nunca naquela noite imensa. Todo o interior de seu corpo estava em revolução. Esse corpo já não lhe pertencia para as arrancadas de Pimpinela Escarlate pela ponta direita, para as freadas bruscas que faziam guinchar as chuteiras, para as torções de circo em que os seus músculos e ossos pareciam de borracha nem para a mortífera potência de colocação de seus chutes. Não lhe servia também para ter prazer e dar prazer às muitas mulheres que ainda poderia possuir pela vida. Não lhe servia nem mesmo para absorver e metabolizar todas as garrafas que ainda pretendia beber. Já não lhe servia para nada. A autópsia revelaria que seu cérebro, coração, pulmões, fígado, pâncreas, intestino delgado e rins já estavam parcialmente destruídos.»
 Ruy Castro, Estrela Solitária, Tinta da China

domingo, outubro 21

Seguir A Página Negra de Manuel S. Fonseca dá nisto




Eu creio ainda ouvir

Eu creio ainda ouvir
Oculta sob as palmeiras
A sua voz terna e sonora
Como um canto de pombos
Oh, feiticeira da noite
Divino êxtase
Oh, recordação encantadora
Louca embriaguez, doce sonho!

Ao brilho das estrelas
Eu creio ainda vê-la
Entreabertos seus longos véus
À brisa morna da noite.
Oh, feiticeira da noite
Divino êxtase
Oh, recordação encantadora
Louca embriaguez, doce sonho!

Encantadora Recordação!
Admirável Recordação!

quarta-feira, outubro 3

Rita e Anthony

29 Setembro 2018                                                                               Foto de Luis Barreira

segunda-feira, agosto 27

Agosto com os Karamázov



«Tal fama havia adquirido Fiódor Pavlovitch Karamázov, que, decorridos treze anos após a sua morte, de maneira sombria e trágica como vereis a devido tempo, ainda causa comentários cheios de interesse aos vizinhos da comarca onde viveu. Por agora, limitar-me-ei apenas a afirmar que este proprietário que não dedicou um só dia às suas terras era um tipo raro. Não porque não abundem aqueles que à degradação dos vícios unam a insensatez das ideias; mas Fiódor pertencia a esse grupo de isentos capazes de se aferrar obstinadamente  ao interesse material dos seus negócios e não dedicar qualquer espécie de interesse a tudo o resto. Começou com quase nada, e uma posição das mais modestas; mas, impondo a sua presença em casa dos vizinhos, e conquistando com arte um lugar às suas mesas postas, amontoou os cem mil rublos que, em moedas, foram encontradas em arcas quando da sua morte. Recebeu sempre as honras dispensadas aos homens mais extravagantes e fantásticos da região. Dissemos que não era tolo, já que muito astutos e inteligentes são estes indivíduos fantasiosos; mas era caracterizado por essa insensatez peculiar do Russo que possui uma manifestação própria.
Casou duas vezes e teve três filhos: um, Dmitri, o mais velho, da primeira mulher, e dois, Ivan e Alexey, da segunda. A primeira esposa, Adelaide Ivanovna, pertencia à família dos Miusov, uma das mais nobres e opulentas, e dona de considerável extensão do nosso território. Não tentarei explicar como foi possível que uma rica herdeira, que à sua formosura unia a fortaleza de espírito e inteligência tão comuns às jovens de hoje, mas que, naqueles tempos, eram um dom raro, contraísse matrimónio com um aldrabão tão desprezível, como todos apelidavam o marido.»
Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamázov, Ed. Saída de Emergência 

segunda-feira, julho 16

O triunfo dos treinadores. A derrota do futebol.


O mundial da Rússia foi o mais aborrecido de todos os que me lembro ver. Mesmo para aqueles que dissertaram sobre cada partida querendo fazer de cada uma delas um jogo de suprema estratégia, quais generais a por e a dispor os seus soldadinhos de chumbo num campo de batalha, ainda assim, não conseguiram negar a evidência – que estopada foi este futebol por terras russas. Ouvi-los, jogo após jogo, tentar seguir os raciocínios elaborados foi o primeiro passo para percebermos que não estávamos a ver a mesma coisa. Esforçaram-se muito, é verdade. A linguagem é cada vez mais cuidada e o vocabulário específico assertivo. No entanto, o futebol praticado de há uns anos para cá não acompanha esta vontade veemente de o entender racionalmente, de ver beleza onde o belo não toca, de o vender como de obra de arte se tratasse.
Desde que os treinadores e os seus afeiçoados comentadores começaram a ter um protagonismo inusitado, a qualidade do futebol nas quatro linhas mirrou: o rigor e a disciplina férreas espartilharam o jogo, os esquemas táticos, assinados por estrategas de gravata e fato armani, tiraram-lhe o improviso, o pragmatismo seco e inestético impôs-se. Aos domesticados craques da favela ou do bairro pobre parisiense resta-lhes apenas escolher a cor das chuteiras, os cortes de cabelo e as tatuagens.

terça-feira, julho 3

Ler e reler Philip Roth


«Escrever era a única coisa que valia a pena, a experiência excepcional, a luta exaltada, e não havia outra maneira de escrever que não fosse fanaticamente. Sem fanatismo, nada de grandioso se alcançava na ficção. Nathan tinha no mais alto conceito possível as gigantescas capacidades da literatura para engolir e purificar a vida. Escreveria mais, publicaria mais, e a vida tornar-se-ia colossal.
Mas o que se tornou colossal foi a página seguinte. Pensava que tinha escolhido a vida, mas o que tinha escolhido era a página seguinte. Enquanto roubava tempo para escrever contos, nunca lhe ocorreu pensar no que o tempo estaria a roubar-lhe a ele. Só pouco a pouco o aperfeiçoamento da sua vontade férrea de escritor começou a parecer-lhe a evasão da experiência, e o meio de libertar a imaginação para a exposição, revelação e invenção da vida lhe surgiu como a mais feroz forma de encarceramento. Pensava que tinha escolhido a intensificação de tudo, e afinal tinha escolhido a vida monástica e a clausura.»
Lição de Anatomia, Philip Roth

quinta-feira, junho 14

Meridiano 28


Sem a energia e o páthos do Arquipélago, sem a leveza e a simplicidade das crónicas de A Vida no Campo.