quinta-feira, junho 14

Meridiano 28


Sem a energia e o páthos do Arquipélago, sem a leveza e a simplicidade das crónicas de A Vida no Campo.

domingo, maio 20

Cartas e Recordações, Saul Bellow


«Não deves ser muito dura com o teu egoísmo. A Bíblia diz: «Eu, porém, sou um verme e não um homem.» Quando se trata de sermos duros connosco, a Bíblia está muito à nossa frente. Na verdade, os ateus não conseguem saber quão insignificantes são. Provavelmente, acontece o mesmo com os agnósticos. Só obtêm um adiamento»

Saul Bellow, Cartas e Recordações, Quetzal

quinta-feira, maio 3

Ressentiment



«Na sua presciente crítica à noção neoliberal da liberdade individual, Rousseau afirmara que os seres humanos não vivem para si próprios nem para o seu país numa sociedade de comércio onde o valor social se forma a partir do valor monetário. Vivem, sim, é para a satisfação da sua vaidade, ou amour propre: o desejo e a necessidade de assegurar o reconhecimento pelos outros, de ser-se estimado por eles tal como estimamos a nós próprios.
Mas, como salientou Kierkgaard, quem procura a liberdade individual deve fugir da prisão em que a sua própria reflexão o mantém e, a seguir, da vasta penitenciária construída pela reflexão dos seus associados. Nunca encontrará a liberdade nos espelhos confinantes, próprios das barracas de ilusões das feiras, do Facebook e do Twitter. Porque a vasta prisão das imagens sedutoras não cura as feridas que apetece coçar e coçamos, sem parar, do amour propre. Pelo contrário: mesmo o mais festivo dos espíritos de uma comunidade disfarça a competitividade e a inveja causadas pela exposição constante ao êxito e ao bem-estar por parte dos outros.
Como avisou Rousseau, o amour propre está condenado a ser perpetuamente insatisfeito. Demasiado banal e parasitário das opiniões inconstantes, sustenta na alma o desagrado de cada pessoa  por si própria e alimenta o ódio impotente pelos outros. O amour propre pode degenerar rapidamente numa tendência agressiva, onde o indivíduo só se sente reconhecido quando é preferido em vez dos outros e quando pode regozijar-se com a abjeção deles. Como concisamente disse Gore Vidal, Triunfar não chega. Os outros devem falhar.

O ressentimento pode parecer uma consequência natural da procura, à escala mundial. Da riqueza, do poder, do estatuto e da excitação estéril a que o capitalismo obriga: embora torne algumas pessoas ricas, o capitalismo expôs as diversas disparidades de receita e de oportunidades e deixou muitos a improvisarem desesperadamente máscaras alegres para usarem na selva social. Os meios de comunicação digitais melhoraram inquestionavelmente a tendência humana para a comparação constante da vida de cada um com as vidas dos que parecem ser os afortunados.
Mas o extremismo palpável do desejo, do discurso e da ação no mundo de hoje também provém de algo que é mais insidioso do que a desigualdade económica e a sociabilidade insocial. Tem a mesma origem das milhentas revoltas e rebeliões românticas da Europo do século XIX: a incompatibilidade entre as expectativas pessoais, aumentadas por uma rutura traumática com o passado e a realidade cruelmente indiferente da mudança vagarosa. Os seres humanos tinham sido libertados, em teoria, da estase da tradição para poderem empregar as suas capacidades, movimentarem-se livremente, escolherem as suas ocupações e vender e comprar de quem quisessem escolher. Mas a maioria descobriu que na prática, as noções do individualismo e de mobilidade social são irrealizáveis.
Continua a ser exigido muito, como antes, à população largamente juvenil no mundo. Aceitar as convenções da sociedade tradicional é ser-se menos do que um indivíduo. Rejeitá-las é chamar a si um peso intolerável em condições que, frequentemente, são mesmo desencorajadoras. Por isso, dois fenómenos que foram muito observados na sociedade europeia do século XVIII – a anomia, ou mal-estar do indivíduo sem amarras que só muito por alto é que se parece atender às normas sociais, e a violência anarquista – estão agora surpreendentemente muito generalizados. Seja na Índia, no Egito ou nos EUA, vemos hoje a mesma tendência dos desiludidos para se revoltarem e dos que se sentem confusos para procurarem refúgio na identidade coletiva e nas fantasias de uma nova comunidade.»

Pankaj Mishra, Tempo de Raiva, Temas e Debates

segunda-feira, abril 23

A bata fendida de cima a baixo



Na cama um, Levy Martins, judeu, 59 anos, empresário. Com a sua voz de barítono, a enfermeira Cláudia perguntou se devia pronunciar Levy à maneira francesa ou se um Levy grave. O senhor Levy, habituado à dúvida, pronunciou de imediato o seu nome em francês. Ocupava a cama toda. Homem largo e baixo, carnes maciças, olhos profundos e seguros, barbas longas e frisadas que lhe escondiam o pescoço. Num rosto carregado um nariz bem definido, cabelo revolto puxado para trás deixavam à vista duas longas entradas. Só os braços rotundos marcados por nódulos gigantescos, intumescências arroxeadas e múltiplas picadas denunciavam um passado de cirurgias, enfartes e diabetes, que o levavam a reivindicar, impacientemente, a urgência do cateterismo agendado. Já conhecia as demoras hospitalares, tinha fome, queria ir para casa cedo.
- Enfermeira, por favor, traga-me o urinol.

Na cama três, o senhor Francisco. Transportaram-no para o quarto por volta das dez e meia da noite. O senhor Francisco vinha enrolado em si e sobre a cadeira de rodas. Os braços longos e curvos, as mãos  ósseas e esquálidas caíam pelas pernas a baixo e fechavam-no ainda mais. Puxaram-no penosamente pelo tronco, entreabriu-se a custo com gemidos guturais, quase inaudíveis. Colocaram o corpo na cama.

- Vá lá, Senhor Francisco ajude um bocadinho.

Pela parte de trás da estúpida bata fendida, o corpo tolhido expunha-se de cima a baixo: completamente seco, descarnado, de pele esquálida que lhe desenhava as vértebras, a pélvis, os fémures longos, de um amarelo translúcido que se espalhava por todo o lençol. A cabeça inclinada para trás afundava-se na almofada, e os olhos, salientes num rosto sugado pelo vácuo, fixavam a parede. A boca sempre aberta, chupada e imóvel, não articulava nada.

– Vá lá, senhor Francisco beba um bocadinho de água.

 E a água escorria pelos cantos da boca fora. Engasgava-se em pequenas convulsões sem que o corpo petrificado se soltasse.
- Descanse agora um pouco, senhor Francisco.

Mas não. O Senhor Francisco não parou mais, numa luta desigual, lenta, numa agitação caótica com o lençol que o cobria, com a fralda, com a gaze que lhe envolvia os dedos dos pés, com a bata verde fendida presa por um simples laço ao pescoço, numa agonia tremenda como se tudo estivesse feito contra ele.
Exausto. Completamente nu. O olhar paralisado, obtuso, fito na porta, como quem espera por ser chamado.

- Oh, senhor Francisco, o que é isto?
- Está todo molhado! Isto não se faz, 

E eu ali, 59 anos, salvo por um cateterismo, sem dor, perante um quadro lúgubre de final da Idade Média - a degradação de um corpo descarnado e ressequido, e o alerta «Tu serás em breve como eu um cadáver horrendo pasto dos vermes» (túmulo do Cardeal Jean de la Grange).

quarta-feira, abril 4

SAPIENS, Yuval Noah Harari. O animal que se tornou um deus

«Apesar das coisas espantosas que os humanos são capazes de fazer, continuamos sem ter a certeza dos nossos objectivos e parecemos estar mais descontentes do que nunca. Avançámos das canoas para as caravelas, para os barcos a vapor, para vaivéns espaciais - mas ninguém sabe para onde vamos. Estamos mais poderosos do que alguma vez estivemos, mas não fazemos a mínima ideia do que fazer com todo esse poder. Mas pior ainda é que os humanos parecem mais irresponsáveis do que nunca. Deuses autoproclamados, com apenas as leis da física para nos fazerem companhia, não somos responsabilizados por ninguém. Estamos, assim, a espalhar o caos sobre os nossos companheiros animais e o ecossistema envolvente, em busca de pouco mais do que o nosso próprio conforto e divertimento, sem, no entanto, nos darmos por satisfeitos.
Existirá algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem?»
Sapiens, Yuval Noah Harari. Elsinor

sexta-feira, março 2

Hermosa


Si no canto lo que siento
Me voy a morir por dentro
He de gritarle a los vientos hasta reventar
Aunque solo quede tiempo en mi lugar

Si quiero me toco el alma
Pues mi carne ya no es nada
He de fusionar mi resto con el despertar
Aunque se pudra mi boca por callar

Ya lo estoy queriendo
Ya me estoy volviendo canción
Barro tal vez
Y es que esta es mi corteza
Donde el hacha golpeará
Donde el río secará para callar

Ya me apuran los momentos
Ya mi sien es un lamento
Mi cerebro escupe ya el final del historial
Del comienzo que tal vez reemprenderá

Si quiero me toco el alma
Pues mi carne ya no es nada
He de fusionar mi resto con el despertar
Aunque se pudra mi boca por callar

Ya lo estoy queriendo
Ya me estoy volviendo canción
Barro tal vez

Y es que esta es mi corteza
Donde el hacha golpeará
Donde el río secará para callar

sexta-feira, fevereiro 16

Brilhante Yuval Noah Harari


Voraz e profundamente inquietante. Página a página, um livro que nos provoca uma vontade irresistível de partilhar tanta e tão diversa informação. Será este livro um produto da Inteligência Artificial?

«1. Será que os organismos vivos são apenas algoritmos e a vida não é mais do que processamento de dados?
2. O que tem mais valor, a inteligência ou a consciência?
3. O que acontecerá à sociedade, à política e à vida quotidiana quando os algoritmos não conscientes mas de inteligência superior nos conhecerem melhor do que a nós próprios?»
Homo Deus, Yuval Noah Harari

segunda-feira, fevereiro 5

O gordo gato preto


Durante meses a fio, na hora de dormir, um pequeno livro, a História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar, foi o preferido das minhas filhas. Não sei quantas vezes contei esta história do chileno Luis Sepúlveda. A repetição, noite após noite, levava-me a redesenhar partes do conto, a dar uma dimensão diferente a certas personagens, a abreviar certas passagens. Mas nunca consegui alterar, sem a imediata correção e um pequeno ralhete, as etapas fundamentais da promessa do gordo gato preto, Zorbas. Quando a gaivota finalmente voava e a luz se apagava, a Inês, a mais nova, pedia-me para ficar um pouco mais. Deitava-me transversalmente aos pés dela e esperava que adormecesse. Escutava, imóvel, quase em apneia, que a respiração suavíssima se tornasse profunda, que o corpo se soltasse. Por vezes, quando em movimentos muito lentos antecipava a saída, a Inês intersectava-me com um pedido sussurrado: pai …. E eu voltava à posição inicial. Imóvel de novo. Naquela quietude, aprendi a interpretar todos os sinais vindos daqueles corpos. No silêncio, a transportar-me para um plano paralelo ao da realidade quotidiana.
Vinte anos depois, na sua casa, voltei a ficar ao lado dela à espera que adormecesse e recuperasse a energia que a faz voar tão bem. Imóvel, com os sons da cidade esquecidos, escutei durante muito tempo os mesmos sinais.