sábado, agosto 27

Elena Ferrante e Enid Blyton


Estranharão esta associação. Mas os dois primeiros volumes da tetralogia de Elena Ferrante remeteram-me para esse prazer de ler que Os Cinco de Enid Blyton me proporcionaram nos estios quentes de Vidago de há muito tempo. A escrita luminosa, a desenvoltura da narração, as personagens incríveis e imprevisíveis levam-me a sentir de novo a sofreguidão e a excitação daqueles tempos de miúdo.


«A história é bonita, uma história dos dias de hoje muito bem articulada, e escrita de uma forma que nos surpreende constantemente; mas o essencial não é isso: é a terceira vez que leio o livro e em cada página há algo de poderoso que não consigo compreender de onde vem.» 
História do Novo Nome, Elena Ferrante

domingo, agosto 14

A Amiga Genial, Elena Ferrante


Segui o conselho de Carlos Vaz Marques no clássico inquérito de verão da Visão, e não podia estar mais de acordo com ele: sei que terei saudades de Elena e Lila quando terminar o último livro da tetralogia de Elena Ferrante.
O primeiro, A Amiga Genial, é delicioso.

« Lila, com um rubor repentino na garganta e em torno dos olhos, puxou o marido energicamente pelo braço e disse-lhe qualquer coisa ao ouvido. Sílvio fez um ligeiro gesto aos filhos, Manuela olhou-os com orgulho de mãe. O vocalista começou a cantar Lazarella, imitando sofrivelmente Aurelio Fierro. Rino convidou Marcello a sentar-se, com um sorriso amigável. Marcello sentou-se, desapertou a gravata, cruzou as pernas.
O imprevisível só nessa altura se revelou. Vi Lila perder a cor, tornar-se pálida como era em miúda, mais branca do que o vestido de noiva, e os olhos tiveram aquela repentina contracção que os transformava em duas fendas. Tinha uma garrafa de vinho na frente, e temi que o seu olhar a trespassasse com uma violência tal que a fizesse em mil estilhaços, com o vinho a esguichar por todo o lado.. Mas ela não estava a olhar para a garrafa. Olhava para mais longe, olhava para os sapatos de Marcello Solara.»

Por Olhão

Uma bela semana.

quarta-feira, agosto 3

Ravelstein, de Saul Below



«Se não sair como um chilrear de um pássaro, não vale nada
Talvez o meu ouvido não estivesse preparado para este Saul Below, Ravelstein.


sábado, julho 23

Pornopopeia. Uma festa de safadezas e de bem escrever



«Seguinte: quando ouvi aquela segunda salva de palmas no portão, desapeei o HP da minha barriga e fui até à mureta da varanda, de onde enquadrei minha musatlântica num lindo plongê, ela carregando o que parecia uma cambuca de tamanho médio envolta num pano branco de algodão impecável de limpo. De cabeça baixa, jogava olhadinhas curtas pros lados, aflita. Veio com o mesmo shortinho de sábado, lavado e passado de novo. Aquela sabe tirar o máximo do mínimo. Ergueu o olhar rapidamente, me viu e teve um estremecimento. Achei que fosse chispar dali num risco horizontal de cartoon, e, antes que isso acontecesse de verdade, pulei de três em três os degraus de tijolo escorregadio e fui abrir o portãozinho para recepcionar a visita. Antes que eu pudesse abrir a boca, e sem dizer nada ela também, Josilene me passou a cambuca e arremeteu para dentro de casa, subindo a escada de dois em dois degraus. Segui atrás dela observando que, junto com shortinho hipersexy, a Jôsy tinha se lembrado de trazer o mesmo par de pernas acobreadas que eu tinha cobiçado durante uma tarde inteira lá nas Rocas, sem falar naquela bundinha fenomenal, ali, ao alcance da mão. Fiquei só assistindo àquele espetáculo glúteo, enquanto sentia nas mãos a mornidão da cumbuca bojuda que desprendia um forte perfume a coentro.»
Reinaldo Moraes, Pornopopeia, Quetzal

terça-feira, julho 12

Três ou quatro coisas sobre o Europeu


Este europeu representou um retrocesso no futebol espetáculo que tem vindo a ser seguido pelo futebol ao nível de clubes. Neste contexto de futebol de cariz pragmático, a equipa portuguesa é uma justa campeã. Fernando Santos é inteligente, perspicaz, ouve tudo e todos e isso reflectiu-se nas diversas alterações na composição da equipa ao longo do campeonato. Ainda assim, e a mim que ninguém me ouve, o treinador campeão não conseguiu contrariar a previsibilidade do jogo português com Ronaldo em campo nem conseguiu resistir à promoção meteórica e exclusivamente mediática da pop star Renato Sanches. 

terça-feira, junho 28

Bicicletas

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Já tudo foi dito sobre Amesterdão: água, muita água; turistas, muitos; muitas flores; milhares de bicicletas. Mas foram as bicicletas - pardas, ferrugentas, qual erva daninha,  que me impressionaram mais. O binómio bicicleta/holandês parece fruto de um aperfeiçoamento “genético” ao longo dos tempos. Quase modelo único: discretas, roda alta, volante elevado puxado para trás, uma distância dos pés ao chão digna de uma confiança e equilíbrio naturais. A forma sisuda da bicicleta dilui-se e faz com que seja fácil distinguir os habitantes de amesterdão, permitindo  às belas holandesas uma postura vertical, costas bem direitas num movimento pendular das longas pernas, olhar altivo, e uma elegância e naturalidade desarmantes.  

sábado, junho 11

Morbidezza

Bronzino

«A palavra que significa melhor o seu corpo é: turgente. Açodada pelas minhas ficções salazes, tudo nela se torna curva e proeminência, sinuosa elevação, de têmpera branca. Essa é a consistência que o bom degustador deveria preferir para a sua companheira na hora do amor: terna abundância que parece a ponto de se derramar mas que se mantém firme, solta, elástica como a fruta madura e a massa recém-amassada, essa terna textura que os italianos chamam morbidezza, palavra que até aplicada ao pão soa a lasciva.»
Mário Vargas Llosa, Elogio da Madrasta

segunda-feira, abril 11

“Look at me”


O “Look at me” mais suplicante e delicioso que já ouvi. Entre o ciciar de palavras de circunstância, o nervosismo das mãos num corpo tenso, o olhar que procura algo em que se fixar, o tímido pedido de desculpa já com os primeiros acordes e, depois, a transformação repentina para o vozeirão seguro, convicto e apaixonado de Sarah Vaughan, fazem deste Misty, e em particular deste registo em Montreux, um apelo irresistível.


quarta-feira, abril 6

Vozes de Chernobyl, Svetlana Alexievich




"Lembra-se...? Dostoiévski descreveu... Como um homem chicoteava o cavalo nos olhos mansos. Homem louco! Não na garupa, mas nos olhos mansos..."