segunda-feira, maio 22

Do Museu Nacional de Arte Antiga à Gulbenkian


Foi uma surpresa ver o Museu Nacional de Arte Antiga cheio, apesar de saber que neste dia se comemorava o dia internacional dos museus e a entrada ser gratuita. Os salões perderam o silêncio habitual; a noite esteve quente, a fazer inveja aos melhores dias de verão, e uma ligeiríssima brisa desprendeu preguiçosamente milhares de flores dos jacarandás num jardim repleto de gentes de várias paragens; os alunos do Chapitô fizeram o que puderam.
Sempre achei que era nesta direção que os museus deveriam seguir: um lugar de oferta multifacetada onde o património material ocupa um lugar de relevo.
Recordo-me, quando aluno de escultura das Belas Artes, de uma proposta para um projeto de um parque infantil para a Fundação Calouste Gulbenkian. Pretendia atingir esses objetivos e, sobretudo, criar hábitos às crianças mais novas tornando esses espaços familiares. Todas as peças do parque infantil teriam como ponto de partida a escultura de Henry Moore da Fundação e seriam pensadas e moldadas de acordo com as necessidades lúdicas e o espírito dos mais pequenos. Em vão, não passou no crivo de um mestre a quem eu esqueci o nome. Já nessa altura, o cheiro bafiento que se instalara continuava a impregnar a cabeça de muitos zeladores de um património esconso.

quarta-feira, maio 17

"Salvador tem uma voz relaxada, afinada e extraordinariamente musical", Caetano Veloso

Também gosto muito da canção dos irmãos Sobral, mas não concordo com a ideia subjacente a toda esta gritaria que sobrevaloriza a vitória no Festival da Eurovisão, como se este concurso escrutinasse o que de melhor se faz ao nível da música popular. Não, este festival é e sempre foi muito fraco. Estávamos todos de acordo, não estávamos?
Bom, bom, como o inteligente Salvador reconheceu, foi o elogio do mestre Caetano Veloso. Aqui, entrevista ao DN.

sábado, maio 6

MNE corta exame que chumbava mulheres


Sendo verdadeira a notícia do Expresso, proponho ao ministério de Santos Silva que vá um pouco mais além. Vejam: (colocar legendas em português)



segunda-feira, maio 1

Cícero, por Robert Harris


«A sua (Molon) teoria  da Oratória era simples: não andar demasiado, manter a cabeça erguida, não se afastar do tema, fazê-los chorar, fazê-los rir e, uma vez conquistada a simpatia deles, sentar-se calmamente. - Nada seca com mais rapidez do que uma lágrima - dizia. Esta teoria estava mais de acordo com a maneira de ser de Cícero.»

«Devo falar-vos um pouco de Ático, cuja importância na vida de Cícero iria tornar-se extremamente importante. Já rico, recebera recentemente a herança de um tio, Quinto Cecílio, um dos mais detestados e misantropo prestamista de Roma: uma casa excelente no Quirinal e vinte milhões de sestércios em dinheiro; o facto de Ático ser a única pessoa que manteve relações razoáveis com aquele velho repulsivo até que ele morreu é bem revelador do carácter de Ático. Poderia haver quem visse ali oportunismo, mas acontecia que Ático, fiel aos seus princípios filosóficos, tinha por norma não se zangar com quem quer que fosse. Era um devoto seguidor dos ensinamentos de Epicuro («O prazer é o princípio e o fim da vida feliz»), embora convenha que se diga que não era um epicurista no sentida mais corrente, não procurava a luxúria, mas no sentimento mais verdadeiro, um seguidor a que os gregos chamam ataraxia, ou seja, a ausência de perturbação. Por conseguinte, evitava discussões e atitudes desagradáveis, aspirava apenas a tomar parte em discussões filosóficas com os seus amigos, de dia ou de noite. Achava que toda a humanidade devia perseguir objectivos semelhantes e sentia-se confundido por tal não acontecer. Era propenso a esquecer, como Cícero lhe recordava uma vez por outra, que nem toda a gente herdara um fortuna.»
Robert Harris, Imperium

segunda-feira, abril 24

Os turcos de Erdogan


André Carrilho

Retirei do DN:
. Na Turquia - vitória conseguida pelo presidente Recep Tayyip Erdogan - 51,18% votaram sim e 48,82% não;
. Na Alemanha vivem cerca de três milhões de turcos, votaram cerca de 650 mil, tendo o sim ganho com 63,07%.
. Depois da Alemanha, a França é o país preferido da imigração turca, estimando-se que sejam mais de 800 mil - votaram cerca de 140 mil, tendo o sim ganho com 64,85%dos votos.

Este referendo, para lá das questões formais da passagem de um sistema parlamentar para um sistema presidencial, foi sobretudo um sinal de apoio ou não às políticas seguidas por Erdogan. Só para recordar: Erdogan nos últimos tempos prendeu milhares de turcos da oposição, incitou ao ódio contra os europeus, reduziu drasticamente os valores de uma Turquia liberal (liberdade de expressão, liberdade de imprensa, liberdade de divergência e separação de poderes).
E foram os emigrantes turcos na europa a dar um apoio inequívoco a toda a política de Erdogan, e contrária aos valores das democracias europeias. Inquietante.

segunda-feira, abril 10

Largo do Olmo

O Luis, meu irmão, disse-me que só notara que Vidago tinha muitas árvores quando partiu para terras do sul. Acontece com frequência sentirmos falta das coisas, mas de árvores? Há, evidentemente, árvores por aqui, enormes, centenárias, mas não na dimensão, densidade e diversidade de Vidago. Sintra, onde se refugia para fotografar, talvez ultrapasse Vidago na mancha arbórea. A Câmara de Sintra e diversos grupos de defesa do património sabem muito bem o tesouro que têm. Mais do que usufruírem de uma natureza preservada e diversificada, vendem-na. Confessa, sempre que se fala do assunto, a mágoa ao ter constatado a destruição dos carvalhos que ligavam umbilicalmente Vidago ao Parque do Palace. Cortaram o que unia dois universos tão distintos a troco da ideia de “requalificar a avenida”, como se fosse possível requalificar cortando cerce e sem critério o que é impossível substituir de uma só vez – árvores adultas. Não sei quem impingiu esta ideia, mas tenho a certeza que não se lembraria de tal quem nasceu por lá. 
Também eu fui educado pela terra. Na rua, claro, como era comum naquele tempo. E em Vidago a nossa rua era, para nossa felicidade, muito mais do que isso: um espaço infinito e um mundo de aventuras marcado sobretudo pelos parques, pelo campo de golfe e pelas avenidas cobertas de sombra. Desde muito novos aprendemos a identificar as árvores e a chamá-las pelos nomes, como se faz com as pessoas.
Começo, deixando a memória vaguear pelos finais dos anos sessenta, por onde só podia começar: pelo centro mais antigo da vila – o Largo do Olmo. Há melhor mote? Dar o nome de uma árvore ao núcleo da pequena Vila. O olmo desapareceu, como quase todos os olmos na europa, mas a vontade em centrar o futuro à volta das árvores manteve-se. Apesar das tentativas vãs em repor a espécie, acabaram, anos mais tarde, por substituí-lo por um carvalho-americano. Bela alternativa. Recordo-me, a propósito dos olmos, muito comuns na altura, o esforço do meu pai e amigos frequentadores do Café Capri em combater o fungo para salvar um velho e frondoso olmo à frente do café. E quem não se lembra também do gigantesco eucalipto à frente do Grande Hotel a fazer lembrar o zimbório de uma catedral; ou do belo acer da meia-laranja, que continua a equilibrar o espaço do elegante posto de turismo; quem se esquece das três acácias da farmácia; do buxo que ultrapassava o muro alto do quintal do Sr. Costa; dos contrastes lustrosos em pleno inverno das japoneiras escondidas pelos muros do Dr. Canavarro; ou das amoreiras à frente da escola do Professor Fraga que tingiam de açúcar a sua sombra e anunciavam o final do ano escolar; ou dos enormes plátanos, olmos, pinheiros que acompanhavam a estrada nacional até ao apeadeiro Salus, até Oura, até Loivos e até ao fim de tudo; e a magnífica cobertura ogivada de plátanos da avenida que ligava a Estação de Caminho-de-ferro ao Palace, muito antes das soluções do arquiteto Santiago Calatrava para a gare do oriente em Lisboa; ou do biombo de árvores pujantes que aconchegava e dignificava a ruína do Hotel do Golfe; e os amieiros, freixos e salgueiros que apertavam e davam vida ao rio oura; e os carvalhos americanos que se generalizaram por toda a vila e tudo uniam. (Como ficava bem na heráldica de Vidago um simples carvalho-americano) E depois o campo de golfe, meu deus! O relvado, as mil e uma espécies – do vulgar pinheiro à invulgar sequoia, dos choupos às magnólias, das cuprésseas às tílias - e a paleta de cores que proporcionam e marcam a passagem do tempo.
Não sei de quem é a ideia, mas faço-a também minha de tanto a usar: O ser vivo mais antigo de uma cidade que se preze deve sempre ser uma árvore. A longevidade, beleza e estado dessa árvore diz-nos quase tudo sobre essa cidade.”

domingo, abril 2

"Eu nasci milionário"


Mesmo para quem nada leu de John le Carré, como é o meu caso, vale bem a pena ler estas histórias da sua vida. Quanto mais não seja pelo Filho do Pai do Autor, um dos últimos capítulos:

«Demorei muito tempo a conseguir escrever sobre Ronnie, vigarista, fantasista, preso ocasional e meu pai.
(...) Aonde quer que Ronnie fosse, o imprevisível ia com ele. Estamos na mó de cima ou na de baixo? Podemos encher o depósito a fiado na estação de serviço da zona? Ele fugiu do país ou estacionará orgulhosamente o Bentley no caminho para casa esta noite? Ou esconde-lo-á no quintal, apagando as luzes da casa, verificando as portas e as janelas e falando em murmúrios ao telefone, se ele ainda não tiver sido desligado? Ou estará a desfrutar da segurança e do conforto de uma das suas esposas alternativas?
(...) Tensão? toda a vida de Ronnie foi passada a andar sobre a camada mais fina e escorregadia que se possa imaginar. (...) Encantava e persuadia com as suas fantasias, via-se um menino de ouro de Deus e deu cabo da vida de muitas pessoas.
Graham Green diz-nos que a infância é o saldo credor do escritor. Por essa medida, pelo menos, eu nasci milionário.»
O Túnel de Pombos, John Le Carré

domingo, março 5

O meu tio Zeca

Nada sabia do meu tio Zeca. Nada sei.
Semana sim semana não, percorríamos 48 quilómetros para visitar a família na aldeia de Constantim. O meu pai nasceu lá, mas toda a sua infância e juventude passara-as por terras da raia à volta das saias da maestra Felisbela, minha avó. Por morte prematura de um pai de outras terras, ficou exclusivo da família materna, gente abastada - os Faceiras, e da aldeia que o mimou e tratou por Luizinho. Já a minha mãe era a filha mais nova de uma família da terra que partiu para o Brasil à procura de fortuna. Quando regressaram do Rio de Janeiro, logo após o nascimento de minha mãe, trocaram os dinheiros poupados por casas e pelas melhores terras da aldeia. Eram cinco os filhos: a Justina, a mais velha e por quem a minha mãe tinha uma adoração especial, o João, dono da venda e do café da terra, o Toninho, com táxi em Vila Real, o Zeca e a Lurdes, minha mãe, a mais bela e formosa da terra, nascida em tempos de abundância familiar. Todos eles casaram. Todos eles tiveram muitos filhos, o ti Zeca não.
As tardes de domingo eram passadas  na casa e na venda do meu tio João. Homem discreto e afável. A azáfama da venda e do café, o ritmo das primas que subiam e desciam com tarefas bem definidas e a atenção afetuosa que nos dedicavam tornavam estas tardes diferentes. Toda a aldeia rodava à volta da venda do meu tio, que prestava todos os serviços. Aos domingos, os homens ocupavam literalmente parte da estrada nacional à frente do café e por lá gozavam a única tarde de ócio de que dispunham. Foi nesse percurso, já rapaz e acompanhando minha mãe, que nos cruzámos com o tio Zeca. Abraço caloroso e familiar entre os dois e hesitação e estupefação minha perante o desconhecido. Cumprimentei-o perplexo e, enquanto conversavam, reparei nas feições familiares daquele rosto. Um rosto que não me era completamente estranho. Desde aí, vi-o algumas vezes mais. Sempre discreto, camuflado pelos homens da terra no café do seu irmão João. Por vezes, apanhava-o a perscrutar-nos com um olhar de quem procura pormenores do seu desenho genético nos rostos dos filhos da sua irmã Lurdes; mais de uma vez, vi-o a pedir a bênção ao pai, David, meu avô; uma ou outra vez, a cumprir o ritual na igreja onde era sacristão, diluído na exuberante talha dourada do altar, absorto de tudo o resto e sempre com o mesmo semblante. Encontrei-o também numa fotografia em casa do meu avô que tantas vezes vira e que não me despertara a mínima curiosidade. E lá estava o ti Zeca ainda menino, vestido como um adulto, quase imperceptível, apagado  pelos irmãos mais velhos e pela frescura das irmãs. Como conseguia este dom da invisibilidade? Quem era este homem tímido que ouvia muito e falava tão pouco, que no meio da gente da terra se mostrava longe das conversas, que demonstrava uma serenidade e uma bonomia constantes e que aparentava dar-se bem com a solidão?
A minha mãe dizia que era uma jóia de rapaz e que sempre fora assim - metido em si, ensimesmado. E era este ser assim que o afastava dos outros. Herdou o seu quinhão na altura das partilhas e com ele governara-se. O seu universo era a mulher, os campos, a igreja. Bastavam-lhe.Talvez tenha escolhido a obediência, o silêncio e a humildade e se tenha afastado deliberadamente dos prazeres mundanos. Este afastamento da família alargada resguardavam-no evidentemente das tensões e das questiúnculas naturais de quem está próximo, dos favores, da obrigatoriedade da retribuição, da formalidade da boa educação. Mas também o afastava da cumplicidade, do carinho e do sentimento de pertença.
Talvez fosse deliberada a sua escolha de uma liberdade mais plena. Talvez, pelo seu feitio, tivesse sido empurrado naturalmente para ela. Provavelmente, esta maneira de ser livre é, quase sempre, estar só.

sexta-feira, março 3

ITMOI, pela Companhia Nacional de Bailado



 Se juntarmos bons bailarinos, uma coreografia audaz, cenografia minimalista, com soluções a tocar no Cirque du Soleil e, claro, em boa companhia, só pode dar um belo espectáculo. No Teatro Camões.