terça-feira, dezembro 25

Um branco de inverno


Os tempos são outros, é certo. A loiça pode ser da Vista Alegre, os talheres de cutelaria de renome, os cristais de tamanhos e volumes adequados, a toalha barroca, os guardanapos enormes e contrastantes, algumas iguarias de latitudes diferentes. Mas a tradição da mesa transmontana dita que o cabrito assado no forno seja o alvo de todas as atenções. Assim foi. As expressões dos rostos faziam adivinhar facilmente as palavras que justificariam detalhadamente o acerto da confecção - o tempo da assadura, a consistência das diferentes partes, a proporção dos temperos, a espessura e cor do molho, a qualidade das batatas que acompanhavam o assado.
A escolha do vinho mereceu também uma atenção particular, e um atrevimento - quem escolheria um branco para acompanhar o almoço de Natal?
Resposta: o Senhor Luís Barreira, meu pai. O gosto pelos brancos vem de longe e o interesse pelos da Adega de Vila Real também, não fosse ele um transmontano e um apreciador de vinho. Se os brancos estão associados aos peixes e ao verão pela frescura e baixo teor alcoólico, sempre estranhei este gosto desalinhado (que contaminou o meu) e pouco ortodoxo do meu pai. A escolha mostrou-se acertada. O “branco de inverno” de Vila Real, Grande Reserva, 2010, correu livremente.

segunda-feira, dezembro 24

Bacalhau cozido com batatas do barroso



Recordo-me que o dia de consoada era longo, muito longo. O repasto, excepcionalmente mais tarde, começava com o depenicar de uns macios bolos de bacalhau. Depois, entravam fumegantes postas de bacalhau cozido com batatas farinhentas do barroso e couve troncha passada pelo azeite e alho, que eram substituídas pela pequenada pelo polvo, também ele cozido. No fim, os doces – rabanadas de leite e água, jirimuns lambidos em suave calda de açúcar perfumada com pau de canela, línguas de abade, leite-creme bem marcado pelo ferro, pratos de aletria decorados com a mestria da minha mãe - enchiam de novo uma mesa ainda composta.

sábado, dezembro 22

Nem húngaros, nem espanhóis, nem greg.. (cruzes, canhoto!). Portugueses, de sete costados.



Recortes da imprensa:

“Contas equilibradas, defesa da classe média, descida de impostos e aumento do salário mínimo. Hungria parece imagem invertida de Portugal.” in Dinheiro Vivo

Cambio de ritmo crucial. La Comisión Europea se ha comprometido a dar más flexibilidad a España para cumplir las metas de déficit, según explican a este diario fuentes de Bruselas y confirma el Gobierno de Mariano Rajoy. In El País

“Só no universo de clientes do BPN com empréstimos superiores a meio milhão de euros, já há três mil milhões de dívidas em incumprimento total.” in Expresso

"Caso o défice orçamental previsto para 2013 comece a derrapar, o Governo tem preparado um plano de contingência que passará por reduzir ainda mais a factura salarial do Estado." In Público



domingo, dezembro 16

Um país de cowboys


Nos Estados Unidos há 300 milhões de armas de fogo para 311 milhões de habitantes. Tem a maior taxa de posse de armas do mundo nas mãos de civis. O comércio de armas nos EUA cresceu para o dobro nos últimos dez anos.(Ver mais aqui.) Se a conquista do Velho Oeste legitimou esse complemento bélico, uma nação como os EUA não pode ficar presa ao passado, muito menos refém de uma poderosíssima indústria  de armamento. Vamos ver de que são feitas as lágrimas de Obama.

quarta-feira, dezembro 12

Enamoramentos


Na contracapa: este romance é, acima de tudo, uma investigação metafísica sobre a vida, a morte, o amor e a moralidade. E um fascinante tratado sobre o enamoramento...
Só retiraria o adjectivo à última frase e salientaria a constante referência ao romance O coronel Chabert, de Balzac. Reflectem Marías e Balzac sobre a impossibilidade de alguém regressar a um lugar quando todo o contexto se alterou. O livro de Javier Marías é muito mais do que um romance. É, sobretudo, uma reflexão crua sobre a vida.

     Quem segue o regresso do sargento Nicholas Brody, na fabulosa série Homeland (Fox, canal 89), encontrará em Enamoramentos um complemento oportuno.



"Sim, todos somos arremedos de pessoas que nunca chegámos a conhecer, gente que não se aproximou e passou ao largo da vida de quem agora queremos, ou que se deteve mas se cansou com o tempo e desapareceu sem deixar rastro ou só a poeira dos pés que vão fugindo, ou que morreu para aqueles que amamos causando-lhes mortal ferida que quase sempre acaba cicatrizando. Não podemos pretender ser os primeiros, ou os preferidos, somos apenas quem está disponível, os restos, as sobras, os sobreviventes, o que vai ficando, os saldos, e é com esse pouco nobre que se edificam os maiores amores e se fundam as melhores famílias, disso provimos todos, produto da casualidade e do conformismo, dos descartes e das timidezes e dos fracassos alheios, e mesmo assim daríamos qualquer coisa às vezes para continuar junto de quem resgatámos um dia de um sótão ou de um leilão, ou tiramos à sorte nas cartas ou nos recolheu dos detritos; inverosimilmente conseguimos nos convencer dos nossos fortuitos enamoramentos, e são muitos os que creem ver a mão do destino no que não é mais do que uma briga de aldeia quando o verão já agoniza…"


quinta-feira, dezembro 6

Naquela noite de Verão





A chegada da família do Sr. João de Menezes dava início ao melhor período das férias grandes. O Zé Mário era o mais velho de seis irmãos. Tinham seis bicicletas de todos os tamanhos. Uma delas, a verde, era de rapariga, da Joana, nem por isso menos pretendida, tal como as bicicletas dos irmãos mais novos que eram literalmente confiscadas. Todas elas serviam para imprimirmos outra velocidade àquela terra feita para miúdos. A do Zé Mário, não. A bicicleta do Zé Mário nunca se despiu dos guarda-lamas, da bolsa de ferramentas presa ao selim, tão pouco do suporte traseiro. Pudera, o Zé Mário precisava dele para transportar as inúmeras caixas cheias de fios, lâmpadas, tubos de ensaio, e todo o género de ferramentas. As mãos magras e os longos dedos do “engenhocas” pareciam esculpidas para aquilo. Era alto o Zé Mário, homem feito, costas curvas, branco como nenhum outro, olhos grandes encovados em olheiras arroxeadas. Naqueles estios infernais, refugiava-se nas suas experiências, ensimesmado, bem longe dos fedelhos.

Os fedelhos cresceram. O Zé Mário não mais andou na bicicleta de roda vinte e oito. Manteve a silhueta vincada - que traía a sua discrição, as camisas de risca fina de manga curta, o saco a tiracolo. Apesar de mais sociável, continuava reservado, falava baixo, cochichava projectos que a nenhum interessavam, repetia ladainhas sobre recentes amizades do Porto, dava conta de conversas tidas com o grupo de universitários sobre objetos voadores não identificados, tão frequentes nos céus daquele tempo. O aparecimento desses estranhos seres era conversa recorrente nos jornais, na televisão e também no Café Capri. O Zé Mário sentia-se à vontade na matéria, perdia a timidez, alimentava as conversas com pormenores, revelações, estudos científicos. O pormenor, claro, levava ao bocejo da rapaziada, mais interessada em carros, futebol e raparigas.

(Não devíamos ter feito aquilo. Estávamos longe de pensar nos transtornos que iríamos causar ao nosso amigo.)

Não sei de quem partiu a ideia, mas recordo com uma nitidez surpreendente o primeiro acto. Para dar credibilidade a toda a peça pedimos ao Mário Cardoso, empresário, casado, um pouco mais velho do que o grupo de rapazolas, que se referisse a um estranho fenómeno que lhe teria acontecido quando regressava a casa depois de um dia de trabalho. O Mário Cardoso era um brilhante “actor”. O campo de futebol era o seu palco predileto. Dono de uma fabulosa capacidade técnica a que juntava a teatralidade de um mimo, o Cardoso fazia gato-sapato dos adversários e, mais do que ganhar ou marcar golos, o que procurava era o aplauso. Imaginem Maradona e Conan O´Brien num só: era o Mário Cardoso.
Todos o conheciam, excepto o Zé Mário. A descrição do estranho acontecimento de que tinha sido vítima na noite anterior incendiou aqueles olhos ávidos. Todos desdenhámos a ocorrência, dando coerência a conversas anteriores e ao plano improvisado. O Zé Mário, de olhar fixo, passou a único interlocutor: prolongou a conversa, procurou detalhes, pediu explicações. O Cardoso respondia de maneira evasiva, tinha lapsos de memória, divagava. Saiu da esplanada do Café Capri visivelmente transtornado, deixando para trás a informação de que haveria um novo contacto com aqueles seres dois dias depois, quinta-feira.
Tínhamos dois dias. A cada hora que passava o Zé Mário aumentava a preocupação com o estado emocional do M. Cardoso e aumentava, também, exponencialmente, o entusiasmo com a revelação. A história alastrou a todo o Capri e os sorrisos e os avisos dos mais velhos não refrearam o comportamento obcecado do Zé Mário.
O local do contacto estava definido. A preparação dos adereços e o esboço do guião ocupou-nos toda a tarde de quarta em casa do Paulo. O Paulo já na altura olhava o céu de outra maneira. Por vezes, em noites quentes e abafadas de agosto, como só as de Vidago são, escolhíamos o green do quatro e estatelados de barriga para as estrelas conversávamos noite dentro. Era nesse local de observação privilegiada que seguíamos o dedo do Paulo na identificação de vários pontos luminosos, de hipotéticas galáxias e, em vão, de perceber as distâncias absurdas a que tudo se encontrava. A possibilidade de existência de vida no Universo provocava a imaginação e as conversas ganhavam ainda mais cor com as constantes referências à série britânica Espaço: 1999, um êxito da televisão no final dos anos setenta, e aos livros que o Paulo lia sobre ficção científica. Recordo o fascinante “A nebulosa de Andrómeda", de Ivàn Efrémov, que li na altura, e o sugestivo “A crónica dos mundos paralelos” de Guy Tarade, que tanto o marcou.  Era, evidentemente, o mais preparado para dar credibilidade, qual ponto do teatro, às dificuldades argumentativas que iriam surgir, e era o único que dominava a linguagem específica que seria necessária no confronto com o terráqueo. A logística da operação passou, sobretudo, pela gravação de sons num gravador de cassetes Orion (curioso). Pensávamos nós que a melodia e a harmonia estariam relegadas da sensibilidade desses seres e assim a composição transformou-se numa delirante montagem de excertos dos novíssimos Kraftwerk, dos Emerson Lake and PalmerRick Wakeman, aos quais misturámos uma cacofonia de sons e ruídos bizarros. Alguns anos mais tarde, ao ouvir o Helicopter Sring Quarter  e outras composições de música contemporânea de Stockhausen recordei-me imediatamente desta tarde magnífica.

 O local escolhido para o encontro foi um lugar recatado no meio do Reigás. Fazia lembrar a cávea de um teatro grego, com fragas enormes e uma mata de pinheiros e carrascos densa que acabavam num palco de erva rasteira, seca, oculto da estrada nacional por uma série de plátanos frondosos.
O Mário Cardoso vestiu a melhor camisa branca e calças de fato vincadas. O Zé Mário, inquieto, desafiou os mais próximos a assistirem ao contacto. Só os restantes rapazolas do grupo aceitaram.

O encontro era à meia-noite daquela noite escura como breu, o ar estava quente, os extraterrestres instalados. Chegaram antes da hora e esperaram, esperaram, esperaram até à uma da manhã. Só o sussurrar nervoso do Zé Mário quebrava o silêncio da montanha ocupada. A espera alimenta e potencia o desejo, e quando resignado se preparava para desistir, surgiram os primeiros sons: primeiro, pequenos ruídos metálicos, depois a composição aleatória amplificada pela montanha e de uma clareza surpreendente. O Zé Mário parou, estupefacto, pediu que parassem todos, fez uma pausa no sentido de confirmar o que ouvia e num acto de coragem (sim, coragem) assumiu a liderança e toda a responsabilidade, “Calma, estamos perante um encontro com extraterrestres!” Com os seus longos braços tentava acalmar os restantes que se mostravam assustados com o fenómeno (rapazolas!). Com a “música” a ressoar, surgiu uma figura enorme ao meio da cávea que resultava da junção do penedo ao meu corpo por um lençol branco e terminava num capacete integral azul com uma bola de natal vermelha no interior. Os focos de luz apontados tornavam a figura gigantesca, irreal e sem vestígios de humano. O impacto foi tremendo. O Zé Mário, petrificado, só reagiu depois de uma voz monocórdica, pausada, ribombar monte a baixo e se anunciar. A voz do Zé Carvalho, alterada pelo megafone de latão, era credível, e o conhecimento rudimentar da língua dos humanos servia para nos esquivarmos às dificuldades que iríamos sentir. E as perguntas surgiram em catadupa: quais eram as nossas intenções, de que galáxia vínhamos, e velocidades, e radiações, e a nave, e porquê ali, e mais e mais, e o entusiasmo era tanto que começou a aproximar-se de nós sem que antes, e numa atitude protectora,  o Zé Mário afastasse os restantes para trás. Para o conter, o chefe, essa massa informe, exerceu a primeira represália sobre um dos humanos – sobre o Cardoso de camisa branca imaculada e calças de fato justas. A um gesto, caiu abruptamente, rastejou, rebolou, ficou possesso perante todos, executando uma coreografia que nunca tínhamos imaginado sem a bola nos pés. Parou repentinamente e num movimento de obediência cega caminhou como um autómato em direcção à voz metálica - a nós. O pânico instalou-se no nosso cândido amigo e a surpresa em todos os outros com o estranho bailado do Cardoso. Numa atitude de grande nobreza, o Zé Mário pediu encarecidamente que não lhe fizéssemos mal, que a responsabilidade era toda dele, que o M. Cardoso era casado e tinha filhos. A resposta foi imediata e ameaçadora: “A mentira, ao contrário dos humanos, não é admissível, este humano não tem filhos.” O desespero apoderou-se do Zé Mário: gesticulou, pediu perdão, explicou que não o conhecia bem, suplicou pela libertação do infeliz. E o desespero e a agonia aumentaram quando comunicámos que o humano iria ser sujeito a uma intervenção cirúrgica no sentido de percebermos como funcionavam os terráqueos. Nos longos minutos de espera, o Zé Mário pouco fez, pouco disse. Vergado pelo peso da culpa juntou-se aos restantes que não conseguiam esconder o gozo proporcionado pelo espectáculo naquela noite de verão. Teria durado uma eternidade para o Zé Mário, não fora a entrada em cena de um grupo de amigos que se dirigia para as Pedras Salgadas e decidira participar na estúpida brincadeira.“Calma, estamos perante um encontro de terceiro grau!”, repetiu o Zé Mário, ganhando um novo folgo. A explicação detalhada do acontecimento foi cortada pelo reaparecimento do  Cardoso que descia a ravina, naturalmente, de camisa aberta, a tocar numa cicatriz que sempre tivera e que não conseguia explicar e, muito menos, o que fazia ali àquelas horas. Dirigiu-se para a carrinha com os restantes, deixando o Zé Mário por breves instantes só. O Tó Rodrigues puxou de novo a cassete atrás, os sons iniciais ecoaram, a voz metálica ameaçou o terráqueo pela ousadia demonstrada, os focos de luz apagaram-se. O silêncio instalou-se novamente no monte.

Depressa se soube na esplanada do Café Capri e em todo o Vidago. O Zé Mário, numa excitação incontrolável, tinha perdido a noite a escrever o relatório do acontecimento a que juntou um desenho do “allien”. Desde bem cedo não tinha parado de divulgar o encontro. Era difícil dar crédito ao Zé Mário precisamente pela magnitude daquilo que descrevia. Quem o ouviu, e foram muitos, depressa concluiu que tudo não passara de uma brincadeira e, tarde dentro, os próprios rapazolas confirmaram o acontecimento, assumindo ser os responsáveis pela brincadeira.
O Zé Mário partiu no dia seguinte.
O Zé Mário voltou quinze dias depois. Voltou com o grupo de universitários amigos, editores de uma publicação daquela área, com o intuito de esclarecer e apoiar as vítimas desses encontros que, diziam eles,  preferiam esconder os acontecimentos a exporem-se à incompreensão e ao ridículo. Avisaram-nos, desde logo, que já tinham inspeccionado o local tal como a casa do M. Cardoso e encontrado vestígios e provas do contacto a que tínhamos sido sujeitos e que só precisavam de ouvir os nossos testemunhos para publicarem a notícia. Depois de longas horas e de uma nova simulação no local perceberam definitivamente que o Zé Mário tinha sido o protagonista de um “encontro espectacular”, não mais.

Nunca mais vi o Zé Mário. Nunca deixou de ser para mim, e para todos os rapazolas, um dos grandes amigos do Porto. E as férias, as Grandes, só começavam quando ele e os seus irmãos chegavam.
Demóstenes dizia que todo o homem acredita que aquilo que deseja seja também verdadeiro.
Tão humano, afinal.


Nota: este texto é um relato subjectivo baseado e idealizado a partir de dados reais.

sábado, dezembro 1

Danay

Via facebook chegou até mim - Danay Suárez. E não deixei mais de a ouvir. Agradeço ao Tó.


Com o pianista Roberto Fonseca.



quinta-feira, novembro 29

Um tremendo logro



"Atacar a países del sur fue la fórmula del Gobierno y bancosalemanes para recuperar las pérdidas de sus bancos ludópatas." 

Um artigo no El País que, a ser verdade, denuncia não só tremendo logro de que estamos a ser vítimas como os contornos de malvadez com que tudo isto é feito. Aqui.


terça-feira, novembro 27

Milhões



Na tentativa de justificar os aumentos de IRS e em particular a sua incidência nas famílias com mais rendimentos, o secretário de estado Paulo Núncio acaba por se referir aos mais de dois milhões de agregados familiares que não pagam IRS. Ou, sendo mais explícito: mais de cinco milhões. É este o número de cidadãos que não pagam taxas moderadoras por insuficiência económica. Números terríveis que nos deviam envergonhar e, sobretudo, a todos os que têm ou tiveram funções governativas.

sábado, novembro 24

«AlC IXH XAN»



Na moldura e em grego, «AlC IXH XAN», «tão bem como posso». Auto-retrato de Ian Van Eyck, 1433. De um fundo escuro sai um rosto tenso e observador. O turbante vermelho, revolto, é uma magnífica demonstração de domínio técnico e de composição tridimensional e, talvez, a representação simbólica de um espírito enérgico e seguro. Porquê inscrever  «AlC IXH XAN» na parte de cima da moldura dourada? Num tempo em que os artistas não assinavam as obras, esta pintura pode ser entendida como apresentação de credenciais, de currículo ou de afirmação - Eu sou o que posso.


sexta-feira, novembro 16

Almanaque de Jorge Silva


"Um folclórico mafarrico de crista moicana, dentuça arreganhada e rabo de arpão está prestes a entregar a alma ao Criador, subjugado por um branquíssimo caçador de impecável fatiota bávara, o que revela a visão premonitória do ilustrador." Em Almanaque Silva, um blog incontornável para quem gosta de ilustração

sábado, novembro 10

Tira os sinais e lerás



Para além de injusto seria redutor dizer que o Bloco de Esquerda se esgota em Francisco Louçã. Na última década, e num parlamento cada vez mais pobre, o grupo parlamentar do Bloco tornou-se a verdadeira oposição aos governos das maiorias. A cada debate esperava pela eloquência provocadora de Louçã, apreciava a sensatez esclarecida de João Semedo, desejava a velocidade de argumentos e inteligência da bela Ana Drago. Se daqui a alguns anos me perguntarem por parlamentares destes tempos, direi estes e pouco mais.Temo que a juventude do partido e as características com que Louçã o desenhou - um partido de oposição, acabem com ele. Mas este será o maior desafio: tira os sinais e lerás.

Obs. Não encontrei imagens do F. Louçã

quarta-feira, novembro 7

Presidente negro dos EUA ...



O que faz dele um negro? A largura do nariz?, o emaranhado cabelo? O sangue negro do pai? E o da mãe? Seria um presidente branco num país de negros? Um pingo de genes negros num alvo caucasiano transformam-no definitivamente num negro? Apesar da mãe amarela, o golfista Tiger Woods também é negro. Que poder é esse dos negros? ou que dificuldade é essa em aceitar a miscigenação. Ando com isto às voltas... 

domingo, novembro 4

João Reis, Shylock


Numa área urbana pouco qualificada, o Teatro Azul de Almada dá mostras evidentes de não ter requalificado o espaço. Integrou-se. Mais um exemplo de originalidade não ser sinónimo de bom gosto.

Em cena a obra de William Shakespeare, Mercador de Veneza. Uma bela interpretação de João Reis (Shylock, o judeu).

ANTÓNIO — Ainda agora pudera novamente dar-te o nome de cão, de minha porta tocar-te a pontapés, cuspir-te o rosto. Se queres emprestar-nos teu dinheiro, não o faças como a amigos — em que tempo a amizade cobrou do amigo juros de um metal infecundo? — antes o empresta como a teu inimigo, pois no caso de vir ele a faltar com o pagamento, com mais alegre rosto hás de extorquir-lhe tudo o que te dever.
SHYLOCK — Ora essa! Vede como vos exaltais! É meu desejo prestar-vos um obséquio, conquistar-vos a amizade, esquecer-me das injúrias com que me maculastes, suprir vossa necessidade, sem tirar proveito nenhum do meu dinheiro. No entretanto, não me quereis ouvir. E amiga a oferta.

terça-feira, outubro 30

Goodbye Columbus, Philip Roth


"Então ouvimos o tempo do verbo em que tínhamos falado e caímos em nós e no silêncio.
Minutos depois, peguei na minha mala e vesti o casaco. Penso que a Brenda também estava a chorar quando abri a porta para sair."

Sinopse, aqui.

terça-feira, outubro 23

Braga, no mercado da marca branca


Público
Toda a América do Sul e em particular o Brasil representam desde há muitos anos um imenso mercado de jogadores. As equipas portuguesas foram as primeiras a explorarem exaustivamente este filão. Se os melhores jogadores vão inevitavelmente para as grandes equipas europeias, uma quantidade infinita de jogadores de altíssima qualidade, de nomes menos sonantes, encontram-se nas equipas portuguesas mais modestas.
E é aqui que o Braga trabalha, e é daqui que se tem vindo a construir. Estruturada pelo arguto presidente Salvador, sucessor directo de Pinto da Costa, toda a equipa, do treinador repescado de uma morte anunciada até ao incrível lote de futebolistas de “marca branca” que por lá joga, brilha à custa de um resgate de jogadores que o anonimato potenciou.
Seria de toda a justiça o Braga ganhar.

domingo, outubro 21

Frankenweenie


As personagens deste delicioso filme de animação são tão fortes, as vozes tão expressivas, que toda a história, centrada na revolta do miúdo contra a morte do seu cão, nos leva a oscilar entre as gargalhadas e o silêncio mais perturbante.

sexta-feira, outubro 19

Manuel António Pina


Também eu lia regularmente as suas crónicas. Os 1100 caracteres cinco dias por semana no JN eram suficientes para manter uma profunda admiração por ele.

Numa entrevista a Anabela Mota Ribeiro (Pública). 
Costumo dizer uma coisa: o amor é a bondade que se aplica a tudo. É a bondade, é a beleza. O amor é um conceito só. Sou um céptico, mas conheço duas ou três ou quatro pessoas bondosas.
A minha sogra é uma pessoa bondosa, a minha mulher também é. O amor é o principal veículo de comunicação. [Aproxima-se uma gata] (É a minha gatita, deve ter tropeçado.) De maneira que o amor ou a bondade é tudo o que temos. Memória é tudo o que temos, palavra é tudo o que temos, e as palavras são a forma de podermos, eventualmente, tocar a fímbria do amor e da memória.


Entrevista ao Jornal de Letras quando foi distinguido com o Prémio Camões. Aqui. 
Crónica de António Lobo Antunes. Aqui.

quinta-feira, outubro 18

Septicemia


Despesa, receita, défice, austeridade, orçamento, napalm, Manuela (Cavaco não fala), Borges, Gaspar, Pedro e o lobo, Portas, coligação, memorando, Merkel, a Europa, FMI, troika, "Que se lixe a troika", Relvas, "Vai estudar Relvas", rua, manifestações, Espanha, Grécia (cruzes, canhoto!), Portugal, os portugueses, nós, "o melhor povo do mundo", juros, impostos, irs, imi, tsu, gritar, ladrões, indignação,  desemprego, "não há luz ao fundo do túnel",emigração, scuts, ex-scuts,  governo anterior, governo, desgovernoBancos, assembleia, deputados, a maioria, os outros, os militares, jornalistas, economistas, fiscalistas, jornais, telejornais, serviços noticiosos, depressão, esquizofrenia, Septicemia. 

quarta-feira, outubro 10

Eu, professor da Escola Pública



Para mim, professor da escola pública, é intolerável ser tratado sistematicamente desta maneira – como despesa. Significa tão só e a limite uma discriminação assente na natureza da minha entidade empregadora. E isso é preconceituoso e, certamente, inconstitucional.

sábado, outubro 6

Coração de leão



Também a mim me parecia o homem certo para o Sporting. Claro que sou, sobretudo nestas questões, parcial, muitas vezes sem bom senso algum. Defendi veementemente Robson e Peseiro, insurgi-me contra os experimentalismos de quase todos os outros, critiquei o excessivo protagonismo dos treinadores no clube. Mas desde que Sá Pinto chegou que não sofro com as derrotas e não encontro razões para isso – aceito, resignado. 

sexta-feira, outubro 5

O discurso de Francisco Assis


Dirão alguns que não passou de retórica política o discurso de Francisco Assis, hoje no Parlamento. Se mais não fosse do que arte de bem falar, já seria o bastante naquele mar de mediocridade. Mas, sinceramente, pareceu-me muito mais do que isso. O discurso "improvisado" do deputado foi de uma acutilância, de uma inteligência e de uma elegância de que não tenho memória.

segunda-feira, outubro 1

Contagiante, Markus Haider



Em Dia Mundial da Música esta gravação de Markus Haider de cigarro e copo nas mãos num registo delicioso.

domingo, setembro 30

quinta-feira, setembro 27

"Pensar o Mundo", Manuel Maria Carrilho



Um discurso esclarecido. Uma leitura abrangente e sem dogmas. Uma retórica clara. Desilusão. Algumas saídas para o país e para a europa.  

segunda-feira, setembro 24

Homeland


Homeland (Segurança Nacional) vence Emmys e estreia em Portugal  a 2ª temporada, a 8 de outubro, pelas 23.15, na Fox.
A não perder.

quinta-feira, setembro 20

Elogio a Paulo Portas



Sem preconceitos nem ironia. Quando Paulo Portas se opôs às alterações radicais da TSU ou tomou publicamente posição sobre a necessidade do serviço público de televisão estar alocado a uma empresa pública, mostrou definitivamente que há limites para o desvario ultraliberal, e representa, por estranho que pareça, o lado mais moderado deste governo. 
Na conferência de imprensa que promoveu, chamou patriotismo ao facto de nesta conjuntura não ter rompido a coligação, e eu concordo; fez saber a todos e por todos que estava contra as alterações da TSU, e nisso é um mestre; mostrou ao PSD que é um par no governo, e eles estão perplexos com a afronta.

sexta-feira, setembro 14

O CAOS! O CAOS!


A tragédia anunciada por Passos Coelho se os deputados da maioria não aprovassem as medidas propostas, fez-me recordar a história do governante que perante a multidão vociferava: "Tendes que escolher: nós ou o CAOS (tragédia)!" e o povo gritou: O CAOS, O CAOS! O governante rematou: "É igual, também somos nós!"

sábado, setembro 8

Cavaco, o último a saber


O PR disse que um novo aumento dos impostos terá de preservar o princípio da equidade. Cavaco sublinhou ainda que só deve haver mais austeridade para os que têm escapado. As palavras são de ontem. Ontem. Recordo-as (aqui) aos crédulos, crentes da palavra dada, republicanos que elegem a mais alta figura da nação como garante da independência nacional, da unidade do Estado e do regular funcionamento das instituições democráticas. Quem se demitirá? Ninguém. Confrangedor, tudo isto.


quinta-feira, setembro 6

Decidiram acabar com o Canal




Podia “sacar” toda a temporada da net. Podia gravar. Mas gosto assim: esperar pacientemente pela quarta-feira, vinte e duas e quarenta e oito, canal dois, e ver mais um episódio da 5ª temporada de Don Draper; esperar pela sexta, pelos Gallagher no lado direito do sofá, ligeiramente enviesado com a televisão, pernas bem esticadas até ao repousa-pés do ikea. É dali, e só dali, que eu vejo realmente alguma coisa. Foi dali que nos últimos anos vi as melhores produções televisivas - Os Sopranos, Sete Palmos de Terra, The Good Wife, Dexter, Roma e tantas e tantas outras, que me levaram, semana após semana, a reservar uma parte da noite para o canal dois.
Mesmo com a proliferação de canais por cabo, agradeço à programação do Canal 2 as rotinas a que me obrigaram e as surpresas que me causaram.
E agora, decidiram acabar com o único Canal que realmente se preocupava com o dito "serviço público".


sábado, setembro 1

Leituras de Verão. De um folêgo só.




"Dessa massa era eu feito - dessa melancolia aos supetões, dessa esquizofrenia que dominava os meus passos ali, em Lisboa ou em qualquer outro lugar do mundo. E, no entanto, não conseguia deixar de voltar todos os anos à procura de mais, inspirando aquele ar húmido e sorvendo aquele cheiro da terra e prostrando-me perante aquela névoa permanente que era ao mesmo tempo um castigo divino e o afago solícito e trapalhão do próprio Deus ...". Joel Neto

"Uma coisa parecia certa: no dia vinte e cinco de Abril de mil novecentos e setenta e quatro, faltaria ainda um bom bocado para as sete da manhã, Celestino apertou a cartucheira à cintura, enfiou a Browning a tiracolo, verificou o tabaco e as mortalhas, esqueceu-se do relógio pendurado num prego que também segurava um calendário e saiu porta fora. O céu começava a clarear. Ou talvez nem sequer tivesse começado a clarear." João Ricardo Pedro

sábado, agosto 18

"Esta senhora é um Avião", segundo Carlos Tê




Porque é Agosto, só pode ser, há dois dias reservados a dois ícones da cultura pop. Ano após ano, e já lá vão muitos e já não tenho paciência, a televisão e os jornais mantêm um ritual incompreensível: um dia cheiinho para Marilyn Monroe, outro também cheiinho para Elvis Presley. Porque é Agosto.
Porque é Agosto, numa reposição da TSF da playlist de Carlos Tê, a primeira escolha do letrista do Porto foi, justamente, para Amy Winehouse. Já não a ouvia há muito tempo e o prazer e a admiração mantêm-se. "Esta senhora é um Avião". Recupero para aqui Me & Mr Jones.

domingo, agosto 12

Luís Lopes e o seu contrário


aqui escrevi sobre a capacidade de Luís Lopes nos guiar pelos meandros do atletismo. Fá-lo com denodo e competência extraordinários. Mas o contrário é mais frequente: conseguiram assistir a algum jogo de Vólei (espetaculares) sem um esgar, um abanar de cabeça ou um desabafo perante a arrogância, o mau gosto e o despropósito dos comentários de José Nicolau de Melo?

quinta-feira, agosto 9

Os Jogos continuam


Talvez estejam trinta e sete graus ao sol. Talvez trinta e oito, trinta e nove. Sobem e descem a rua de bicicleta. Longas pernas cor de bronze cruzam-se indolentemente; quando descem, fazem uma pausa no movimento; percebo que conversam numa língua que não é nossa.
 Os Jogos continuam.



domingo, agosto 5

Medalha de Ouro para Luís Lopes



É fácil reter a atenção dos espectadores para um grande número de modalidades olímpicas. Outras há que pela sua duração, pela intrínseca falta de espetacularidade ou, no meu caso, pela manifesta falta de conhecimentos, dificilmente me merecem mais do que uns minutos no zapping olímpico. Hoje, assisti sem interrupções a duas horas e tal de maratona feminina seguindo Jéssica Augusto, as etíopes e quenianas e, sobretudo, Luís Lopes, comentador da RTP2 para o atletismo. É difícil manter uma performance tão alta: quantidade e qualidade de informação, ritmo alucinante, visão global do fenómeno desportivo. Caracteristicas que me levaram, desde os tempos do Jorge Lopes, a admirar profundamente este comentador eloquente de voz trapalhona e terna. Luís Lopes de ouro.

sábado, julho 28

This is for everyone


Uma fantástica cerimónia de abertura.
Demonstração exuberante de um percurso histórico de que tanto se orgulham e elogio a um modelo civilizacional de que todos nós, Europeus, tanto nos deveríamos orgulhar.

sexta-feira, julho 27

Concessão da coroa de oliveira brava


"Vieram ter com eles uns poucos de trânsfugas da Arcádia, que precisavam de ter com que viver e queriam trabalho. Quando os levaram à presença do grande Rei, os Persas perguntaram-lhes que estavam os Gregos a fazer. Havia um que, mais do que todos, insistia na pergunta. Eles responderam que os Helenos estavam a celebrar os Jogos Olímpicos e contemplavam os concursos gímnicos e hípicos. Perguntou então qual era o prémio proposto pelo qual lutavam. E eles referiram-se à concessão da coroa de oliveira. Então, Tritantaicmes, filho de Artábano, exprimiu uma opinião nobilíssima, que lhe valeu o apodo de cobarde por parte do grande Rei. Ao ser informado que o prémio era uma coroa, e não dinheiro, não se conteve que não exclamasse diante de todos: Ai, Mardónio, que homens são esses com quem nos levas a combater, se eles não lutam pela riqueza, mas só pela superioridade?"  Maria Helena da Rocha Pereira, JL

quinta-feira, julho 19

Por caminhos de Sanabrés. Sete dias. Sete ideias.

  • O ordenamento do território tão visível aos nossos olhos durante todo o percurso: aproveitamento das potencialidades, utilização racional desse território, proteção do ambiente, ...;
  • a extensa e preservada mata de carvalhos e castanheiros que nos envolveu e protegeu;
  • a beleza do caminhos;
  • o património histórico. Em particular, o Mosteiro Cisterciense de Oseira onde pernoitámos depois de uma visita a todo o mosteiro e missa cantada pelos 16 monges cistercienses;
  • o esforço físico que nos aproximou das palavras de S. Bernardo " Oh alma que és verdadeiramente a mais bela, mesmo que habites um corpo inepto...";
  • a comida - abundante e bem cozinhada;
  • a afabilidade dos galegos, a simpatia e solidariedade dos caminhantes que conhecemos, em especial os catalães - o afável Miguel, Óscar e Laura, o eterno caminhante de Bréscia, Piero, e em particular o meu amigo Paulo Coimbra (blog)- amigo de sempre. 


terça-feira, julho 17

Herbie Hancock + Gustavo Dudamel + George Gershwin



Durante dias percorri caminhos de Sanabrés trauteando, assobiando o clássico de Gershwin, aqui com dois músicos brilhantes.
E tudo porque o YouTube nos propõe uma lista personalizada a que dá o nome de "recomendado para si". Agradeço a sugestão.

quinta-feira, julho 5

O que me irrita mesmo

As canalhices têm sido tantas e as aldrabices tão regulares que já pouco me irritam. Irritar pressupõe alteração súbita da normalidade, não é? A vigarice permanente e despudorada, a figurinha Relvas, os Relvas, os quatro euros dos enfermeiros causam em mim uma apatia e uma indolência preocupantes.
O que me irritou mesmo foi a estreia da 5ª temporada da justamente aclamada série americana Mad Men e a RTP2 ter "escondido" esse facto. Senhores da 2, a Fox põe cartazes nas paragens dos autocarros!


segunda-feira, julho 2

Shameless


No canal 2, às Sextas, dez e tal, a série NO LIMITE, adaptação americana da série britânica Shameless, com a brilhante Emmy Rossum e William H. Macy. Uma série que passou há algum tempo na Sic Radical e que merece uma atenção especial.
O brilho de Emmy Rossum, numa entrevista com Conan O`Brien:



quinta-feira, junho 28

Decoro



Nestas coisas do desporto e, pensando bem, em todas as outras, para captar a minha simpatia exijo acima de tudo dignidade e decoro. As vitórias ou as derrotas não alteram em nada o apreço que tenho por elas. Neste caso particular do Euro, a seleção de Paulo Bento foi exemplar e brindou-nos ainda com um futebol de altíssima qualidade.

domingo, junho 24

Retrato de uma jovem rapariga




Sabe-se muito pouco sobre Petrus Cristus. Como todos os grandes pintores flamengos, passou pelas oficinas de Jan Van Eyck, sendo um dos seus discípulos. As semelhanças com o mestre são evidentes, o domínio técnico da pintura a óleo, o cuidado com o detalhe, a valorização do retrato psicológico. Já o que o diferencia e valoriza tanto é a austeridade ornamental, a elegância, a discrição. O “retrato de uma jovem rapariga” (1470) é um exemplo magnífico, e do qual sabemos tão pouco: