quarta-feira, julho 19

Café Capri

Paulo, Mendes, Júlio Brás, Luis, Cardoso, Zé Luis
Eu, Barroso, Manel Capri, Tó, Júlio

Gosto muito desta fotografia. É de pequena dimensão, doze por oito, e de uma definição surpreendente. Quarenta anos depois e os vários tons de cinzento ainda se mantêm. O Café Capri com o equipamento alternativo do Vidago Futebol Clube.
O Capri era muito mais do que um café. Três espaços bem definidos: o espaço central de muito bom gosto com uma estética dos anos sessenta; uma sala adjacente virada para o quintal da Dona Anita, ocupada por um bilhar livre, que lhe dava um tom diferenciador; e à frente, contígua à estrada nacional 2, a esplanada. E era a esplanada que pelas noites longas e abafadas de verão tornava O Capri tão agradável. Um lugar de permanência quotidiana, um lugar de passagem, um lugar de reencontros anuais. Era um local aberto e cosmopolita que espelhava o temperamento dos proprietários: da Dona Priscila recordo a enorme tolerância de professora e a sua energia inesgotável, do Sr. Manuel, Manel Capri, a juventude permanente, a imaginação sem freio e a vontade de fazer. Mas o traço que melhor os caracterizava era o de gostarem de pessoas. E foi neste ambiente que saiu esta equipa feita em cima do joelho para uma única partida para confraternizar não sei o quê.
Tenho-a de novo à frente. Percorro cada rosto uma vez mais: reparem no Mendes (Jorge) de braços cruzados e olhar altivo, o primeiro defesa central moderno que vi. O tempo no jogo sobrava-lhe tal a clarividência que imprimia, e quem jogasse à sua frente rapidamente percebia que a bola sairia domesticada do seu brilhante jogo de cabeça. Também o Júlio Brás estava habituado a competir, nota-se na segurança com que nos olha. Era um exímio jogador de golfe, várias vezes campeão do clube, que arrastava atrás de si em matchplays históricos contra jogadores de outros clubes dezenas de pessoas pelo relvado do Campo de Golfe de Vidago. Metódico, persistente, com uma técnica apuradíssima, usava os mesmos princípios na sua função de ponta de lança – eficácia com o menor esforço. O Zé Luis e o Mário Barroso também eram handicaps baixos. Não me lembro de jogarem futebol, mas recordo claramente a tenacidade, a voz clara e assertiva do primeiro e a enorme gentileza do Barroso. Eu e o meu grande amigo Tó eramos os mais novos deste grupo. O Tó jogou a defesa direito tanto neste jogo como nos juniores do clube. Nunca foi outra coisa senão isso – direito, direto, justo. Ao lado dele, o Júlio. O Júlio, vejam bem, tinha uma Honda CB 200 vermelha naquele tempo de motorizadas e tal como a mota toda a sua anatomia estava preparada para a velocidade e para os recordes. Corria, saltava, lançava como ninguém. Júlio, porque não vais ao Sporting? Sorria com uma indiferença juvenil como se o tempo não corresse também. Quanto ao guarda-redes, era óbvia a escolha: a baliza só podia estar ocupada por quem tinha estampa e de todos os que frequentavam o Café Capri o Paulo Veiga era o único que preenchia todos os requisitos: altura, voluntarismo e uma confiança transbordante. O meu irmão jogou à bola desde miúdo e jogava muito bem, mas dá-me ideia que sempre preferiu a autenticidade dos grandes jogos que só a infância permite. E por fim o Mário Cardoso. Tenho a certeza de que quem subia até ao pelado João Oliveira ia para ver a performance do Mário Cardoso. Valdano, jogador argentino do Real Madrid e em tempos colunista do El País, disse que o «futebol é engano: aparenta uma coisa para acabar fazendo outra». O Mário era o futebol. Criava futebol. Reparem na ansiedade que lhe trespassa o rosto como um ator antes de entrar em cena. Com o Mário em palco os adeptos vidaguenses para lá de aplaudir e gritar faziam uma coisa nunca vista, riam à gargalhada solta! O futebol do Cardoso era assim mesmo: teatral, tecnicamente perfeito, absolutamente desconcertante. 
Ficava-nos bem o preto do Café Capri

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