quarta-feira, agosto 31

Mickey Sabbath


Sou um leitor de Philip Roth. Sempre que acabo um livro fico com a sensação que terei que o reler. Este, tal como os outros, é magnífico. Mickey Sabbath é um personagem turbulento, trágico, hilariante.
“ – Boa tarde – disse Sabbath, e inclinou formalmente a cabeça. – Sou o beneficiário do instinto de construir um ninho de Roseanna e a personificação de toda a resistência que ela encontra na vida. Estou certo de cada uma das senhoras tem um companheiro indigno: eu sou o dela. Mickey Sabbath. Tudo quanto ouviram a meu respeito é verdade. “

sábado, agosto 27

Os super-ricos



"Estava, Warren Buffett, no escritório, olhou à volta e deu-se conta de que os seus colaboradores mais próximos pagaram mais: em 2010, Buffett pagou 6,9 milhões de impostos, cerca de 17,4% do que tinha ganho; já os seus empregados pagaram uma média de 36%." No DN e no El País

Será que alguns já perceberam que não poderão ser ricos no meio de uma sociedade cada vez mais pobre? Por cá, tudo farão para fugir aos impostos. Preferem a caridade.

quarta-feira, agosto 24

Recomendava-lhe que estudasse o que faz Jesus

Público

Domingos poderá não conhecer bem os 14 reforços com que foi presenteado, mas não poderá dizer o mesmo dos restantes jogadores da equipa. Conhece todos os defeitos do miserável plantel que o Sporting mantém de anos anteriores. Mais uma vez, o treinador quer ser o protagonista: faz algum sentido manter na equipa principal 7/8 jogadores do ano anterior e esperar resultados diferentes?
Se o Sporting fizesse uma análise detalhada aos dados estatísticos dos jogos, remeteria definitivamente a maioria dos antigos jogadores para a reforma antecipada: a quantidade de vezes que Postiga, Matias e Djaló põem fim ao jogo da equipa é assustadora; na defesa, Polga é um caso sério de mediocridade que se perpétua e Rodriguez, apesar de novo na equipa, um bluff – lento, pesado e baixo.
Quanto às questões técnico-tácticas, se pudesse aconselhá-lo, caro Domingos Paciência, e por muito que custe a todos nós, leões, recomendava-lhe que fosse corajoso e estudasse o que faz Jesus, não Mourinho nem Villas Boas. Sem ironia.

Na Casa Grande de Romarigães, II




Joana, segundo o painel existente na galeria dos retratos da Casa Grande, não era formosa, mas extremamente sedutora. As mulheres porém não precisam de ser bonitas para serem amadas até à idolatria. Era mediana de corpo, enxuta de carnes, dentes muito brancos e regulares, olhos pretos de que não se via o fundo, e um sorriso brando, destes que, sem jamais se descomporem, variam de suavidade como os felinos que reflectem nas pupilas os cambiantes da luz. Da cinta era fina e, no andar, um tudo-nada flexuoso, punha um dengue tão involuntário que se quedava em requebro natural, promissor de temperamento. Pertencia em suma à classe das mulheres que, a começar pelo corpo e a acabar pela alma, se tornam amantes perfeitas. Lianças com elas jamais se rompem. Quem as ama, ama-as até à morte. Quando desaparecem, deixam inextinguível braseiro. É que deram com a sua carne a beber o filtro que não perdoa, onde se concentram meiguice e enliçamento animal, princípios sumos da voluptuosidade criadora.
In A Casa Grande de Romarigães de Aquilino Ribeiro

segunda-feira, agosto 22

Junto do Lima, claro e fresco rio





A Casa Grande em poucas semanas estava expurgada de dívidas e hipotecas; recuperadas as terras, que, embora anexas ao morgadio, não faziam parte do vínculo. Ao mesmo tempo renovou os soalhos do solar; ergueu os muros caídos ou desmantelados; captou águas extraviadas; fez, em demais, nas duas Portelas, a aquisição de uns rossios encravados nos da Casa. Uma década decorrida, Luís de Azevedo, para empregar a palavra dum rendeiro, fizera da Casa Grande um brinquinho. Podia, ao mesmo tempo, subir por oiro para a cama. Para cúmulo, sua mulher D. Silvana saíra meiga e macia como o veludo.
Aquilino Ribeiro, A Casa Grande de Romarigães

terça-feira, agosto 16

Cinco dias em Ponte de Lima

Entre o Moledo e Ponte de Lima procurarei (eu) nos próximos dias os espaços e ritmos de António Sousa Homem. A música criteriosamente seleccionada (elas) terá como base os grupos que actuarão em Paredes de Coura, à excepção deste cd que inclui esta belíssima música.

quinta-feira, agosto 11

"Por que não aproveitaríamos a oportunidade de ficar com artigos caríssimos à borla?"


Os criminosos são operários, estudantes, homens, mulheres e até crianças. No Público.

Talvez não faça muito sentido o post anterior.                        

Reestruturar

Público

Dinâmica de grupo, imbecilidade, sentimento de impunidade de uma juventude suburbana “ociosa”, dependente e com muito pouco a perder, explicam quase tudo.
No entanto, preocupa-me ouvir diariamente que melhorar a performance das empresas, aumentar os lucros, reestruturar (palavra tão em voga), sejam sempre sinónimos de despedir.

segunda-feira, agosto 8

À beira-mar, Rentes de Carvalho


Já no século IV a. C., Platão constatara que mais cedo ou mais tarde todos temos que nos vestir. Rentes de Carvalho com a sua perspicácia e ironia habituais confirma-o na praia.

À beira-mar
Nunca fui de beira-mar ou praias, não só pelo marulhar constante, a inquietude das ondas, a brisa e a areia, mas pelo espectáculo da humanidade desnuda.
É grande o respeito que me merece o semelhante, e desde há muito considero o vestuário um dos atributos que mais têm contribuído para a harmonia da sociedade e a paz dos olhares. Daí que a praia se me afigure a versão moderna de uma Cour des Miracles medieval. Os corpos que não ferem os olhos ou os alegram, são gota de água no Oceano Pacífico da exposição praticamente nua de adiposidades, fealdades e porcalhice, de modo que uma passagem pela praia – as minhas só por razões de ofício – tem consequências graves para o sossego da alma, o sono da noite e o respeito que devo ao próximo.
Enquanto tenho de estar e presenciar, incomoda-me a passividade daquela massa que, espichada ao sol, involuntariamente provoca a imaginação de horrendas cópulas, hábitos vis, atitudes indecentes, satisfações alvares, peidos e arrotos.
Dêem-me a rua e a roupa.


Rentes de Carvalho, aqui

quarta-feira, agosto 3

A Carrinha do Paulo

Renault 4L, 50 anos



Tinha um aspecto pálido e uma estrutura estranha; dava uma impressão de deformidade sem, contudo, apresentar uma malformação definida; comportou-se com um misto desconcertante de timidez e ousadia, e exprimia-se com um bater rouco de motor esforçado que não se traduzia em velocidade. Todos estes pormenores depunham em seu desfavor, mas durante alguns anos representou para um grupo de amigos um espaço de liberdade e de sonhos.

terça-feira, agosto 2

Aumentos de 15%

Paul Wang

A explosão em Oslo na passada semana chocou-nos a todos. Na tentativa de contextualizar o desastre, um jornalista salientou, como sempre o fazem quando de escandinavos se trata, o civismo, o interesse pela coisa pública, o respeito pelo ambiente deste "país modelo". E deu um exemplo que a todos tocou: os governantes usam  no dia-a-dia os transportes públicos nas suas deslocações para os ministérios. Mais a sul, os nossos vizinhos decidiram, tendo em conta o aumento do preço do petróleo, reduzir o limite máximo de velocidade e baixar os preços dos transportes públicos.
Onde vão buscar as ideias os nossos governantes?

segunda-feira, agosto 1

Cartas de Vidago, A Caixa





Chaves, 30 de Julho de 2011
Caro amigo António!
            Ao abrigo da nossa já antiga relação de cordialidade e cooperação endereço-te mais uma carta que tu podes, como sabes, dar a conhecer se lhe vires algum interesse editorial. Desta vez tinha até vontade de lhe dar forma manuscrita, ao estilo do antigo papel de carta, mas as novas e vantajosas tecnologias penetraram de tal forma nos nossos hábitos que já não se conseguem contornar. Qualquer desajeitado pode fazer maravilhas com elas.
            Tem-te a ti como destinatário, mas tem como narratário um universo indiferenciado de leitores que tenham capacidade de literacia suficiente para a interpretar.
            A sequência dos teus mais recentes posts de Amós Oz e a confraternização da Heineken, fizeram-me lembrar uma conhecida alegoria da antiguidade clássica e que eu tenho vontade de adaptar para ilustrar e dar mais consistência a esses posts. Então aí vai:
            Tudo funcionava harmoniosamente naquela ilha. Todos contribuíam com o seu trabalho e com as suas atitudes para que a harmonia não fosse abalada pelo menor deslize. O segredo para tudo isso estava guardado numa caixa que jazia na recôndita e inviolável câmara de um templo imemorial. Essa caixa guardava todos os defeitos e maleitas da humanidade. Lá estava a mentira, a cobiça, a desonestidade, a arrogância, a xenofobia, a petulância, a avareza, a inveja, a ganância, o snobismo provinciano, a falsa modéstia e tantos outros de uma lista lamentavelmente extensa. Essa ilha era o nosso mundo. A curiosidade dos homens foi mais forte do que a inviolabilidade do segredo e, quando a caixa se abriu, avidamente se libertaram agoirentas, venenosas, malévolas, maquiavélicas, destruidoras, penetrantes, traiçoeiras, contagiosas, todas aquelas maleitas sociais. Em forma de pomba branca as mais hipócritas, em forma de abutre as mais frontais, todas se apoderaram da estabilidade daquela ilha. Foi a partir daí que começaram a aparecer os usurários, os pobres, os ricos, os invejosos, os hipócritas, os vigaristas, os ditadores, os diabos, os deuses, os padres, os moralistas… e os políticos. De então para cá, forças antagónicas protagonizadas por estas figuras têm-se digladiado num emaranhado aparentemente insolúvel.

O bom gosto, o bom senso, a harmonia, a cooperação, a tolerância, a solidariedade, a cordialidade são valores que têm sido ciclicamente renovados e aniquilados por estas lutas ao longo da história. Parece-me que estamos actualmente na fase da sua aniquilação. Agora, a caixa está inviolavelmente fechada à espera que apareça uma força social e humana suficientemente poderosa para encerrar as falsas pombas e os abutres agoirentos e assim regenerar aqueles valores.  
Proponho um caloroso e prolongado brinde a esse momento. Não precisa de ser com flute de D. Pérignon ou Möet Chandon; pode ser com uma garrafa de Heineken… ou Sagres.
Um brinde com abraço sincero e cordial
José M. Carvalho