segunda-feira, agosto 12

Recomeçar

Com Jesualdo pensei que tínhamos chegado definitivamente à conclusão que a um Sporting de parcos recursos económicos só lhe restava a aposta na formação. Temo que se tenha voltado atrás: chegaram inúmeros jogadores de qualidade duvidosa, recuperaram alguns manifestamente incapazes, empurraram os “miúdos” de qualidade inquestionável para o banco, para a B e, talvez, para fora.

Recomeça-se permanentemente no Sporting, talvez por ignorância do que se fez, talvez por vaidade.

segunda-feira, julho 8

Um mestre em apuros

Público

Premissas para revogar o irrevogável:
Paulo Portas, dois anos depois, tem a certeza que Passos Coelho é incompetente; Paulo Portas espera até ao limite do suportável pela demissão de Vitor Gaspar; Paulo Portas vê na nomeação da Maria Luis o perpetuar de uma apagada e vil tristeza; Paulo Portas sabe que a queda do governo representa a extinção do CDS/PP; sabe também que esta oportunidade é a última hipótese de chefiar um governo.

Jogada final de um mestre em apuros

sábado, junho 29

O poder nas ruas

Female tailors on strike.New York City, February, 1910 
                                                                                                                               
Não será por acaso que o direito à greve está consagrado em todas as constituições dos países ocidentais civilizados. Representa o último patamar a que recorrem todos aqueles que querem ser ouvidos e que reclamam atenção de quem os governa.
Desvalorizar, ridicularizar ou achar, como se tem ouvido cada vez mais, que os grevistas não passam de gentinha manipulada por sindicatos ou partidos sem escrúpulos é não só estúpido como abre naturalmente caminho a soluções bem menos civilizadas: os últimos tempos têm sido férteis, na Turquia e no Brasil, o povo saiu em manifestações de rua, espontâneas, inorgânicas, ameaçadoras, conquistando simpatias e promessas imediatas dos governantes. E o perigo vem verdadeiramente daí, do poder poder cair nas ruas - e todos sabemos o que isso significa.
Insisto: o direito à greve representou um enorme avanço civilizacional e desvalorizá-lo parece-me politicamente um erro grave e um desrespeito pelo passado que nos trouxe até aqui.

terça-feira, junho 18

My world was five blocks long.


Conan: I'm just imagining you coming from this completely other world and you're from Bayonne, North Carolina.
What about growing up there brought you to this world?
Was there anything about your childhood?
GEORGE R. R. MARTIN: It was imagination.
I come from a blue collar family.
My father was a long shoreman.
We lived in the projects on first street there which has a deep water channel in front of it, it's the connection between the bays and Staten Island across the way.
We didn't have much money.
We didn't even own a car.
My world was five blocks long.
We lived on administrative street, I went to school on first street.
I read books and watched television and film.
I would watch the big ships with all of the flags of different countries of the world and lights of Staten Island across the way where we never even went and wondering what exotic mysteries and wonders lurked on Staten Island.
Would I ever see them.
CONAN: That is your concept of what Staten Island is?
[Laughter]
CONAN: That's fantastic!
GEORGE R. R. MARTIN: I did finally get to Staten Island and I have to say it was kind of disappointing.
[Laughter]

sábado, junho 8

O Paulo e o Helder


Não sei se é deliberado, mas o Paulo vulgariza todas as suas equipas. Ele próprio, seleccionador nacional, discreto e avesso a convulsões, mantém um discurso previsível e redundante. O esforço e a entrega são as únicas estratégias para a equipa de todos nós. Ainda em nome do colectivo, esquece-se dos apelidos das estrelas, tornando-as tangíveis e humanas. Do Fábio ao João, do Rúben ao Cristiano. Se dúvidas houvesse, Paulo Bento coloca sempre o Postiga por sessenta e tal minutos e ficamos com a sensação que também nós, velhos e estropiados, poderemos um dia envergar a camisola das quinas. 

segunda-feira, maio 13

Tweet of the day - rouxinol


Tweet of the Day is a series of fascinating stories about our British birds inspired by their calls and songs.David Attenborough presents the extraordinary duet between cellist Beatrice Harrison and a nightingale recorded live as an outside broadcast and the first broadcast of any wild animal not in captivity.

http://www.bbc.co.uk/radio/player/b01sby02
http://www.elmundo.es/especiales/2008/05/ciencia/sonido_naturaleza/sonidos_17_05_2013.html
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/a9/XN_Luscinia_megarhynchos_012.ogg

quarta-feira, maio 1

Ponto de partida para os cortes

Daumier

A mais séria proposta de Reforma do Estado foi lançada, em jeito de desafio, por Paulo Pedroso na TVI24. Sumariamente: analise-se onde o Estado gasta mais do que a média europeia em percentagem do PIB  e corte-se aí. A formulação é tão simples que me parece um justo ponto de partida para qualquer reforma séria. Ou não?

quinta-feira, abril 25

Quando o aristocrático e decrépito Palace Hotel se encheu de pobres



 O João e o Di eram pretos. Conhecíamos outros em Vidago, mas, verdadeiramente, os sobrinhos do padre da paróquia nunca os considerámos como tal. Eram tão ou mais brancos quanto todos nós. Cresceram connosco. Não contavam.
De um dia para o outro, a descolonização encheu os hotéis termais de pretos, mesmo que alguns fossem brancos de pele pigmentada pelo calor das colónias. Mais do que pretos ou brancos, eram pobres. Mais do que pobres era gente sem nada, desgraçada. Via-se no olhar, nas mãos, na postura. 
 O aristocrático e decrépito Palace Hotel lotou com centenas de retornados sem família na metrópole. Famílias inteiras num quarto. Despejadas. Talvez tivessem ficado deslumbradas com a escadaria e aposentos do hotel real, mas não esperavam por um inverno daquela dimensão. Geada atrás de geada. Brancas. Cortantes. Corpos magros colavam-se às paredes dos cafés da vila, encolhidos, de frente para um sol incapaz de compensar a leveza das roupas coloridas. Desconheciam as lãs, as samarras, as botas. Quando as adquiriram, não conseguiram esconder nem o frio nem o desconforto nem o completo abandono.
Habituados à burguesia portuense que ocupava os hotéis nos três meses de verão, a pequena vila transmontana estranhou os novos habitantes. Preocupou-se com as consequências da ocupação. Lamentou. Ajudou no que pode. Alguns lucraram, porque há sempre quem lucre com a desgraça alheia. Também eu fui beneficiado.
O Sr. Arlindo, homem dedicado à terra e ao futebol juvenil, descobriu na miudagem recém-chegada o João e o Di. Tinham, evidentemente, a nossa idade, sabiam jogar à bola e, sobretudo, estampa de jogadores. O João era possante e de pontapé forte. O Di, de perna arqueada, hábil e rápido - um extremo à moda antiga. Nunca uma equipa do Vidago F. C. ficara tão perfeita: tínhamos dois pretos, tal como o Sporting e o Benfica. Se alguém guardou a fotografia dessa equipa reparou na harmonia da composição, no branco e preto do equipamento e dos rostos, sorrisos rasgados, dentes magníficos dos dois angolanos.
E todos os domingos de manhã a alegria e os abraços estavam à distância ínfima de um golo ou, na falta dele, nada nos aproximou mais que partilhar a tristeza das derrotas. Coisas de pretos e de brancos.

terça-feira, abril 2