quinta-feira, abril 25

Quando o aristocrático e decrépito Palace Hotel se encheu de pobres



 O João e o Di eram pretos. Conhecíamos outros em Vidago, mas, verdadeiramente, os sobrinhos do padre da paróquia nunca os considerámos como tal. Eram tão ou mais brancos quanto todos nós. Cresceram connosco. Não contavam.
De um dia para o outro, a descolonização encheu os hotéis termais de pretos, mesmo que alguns fossem brancos de pele pigmentada pelo calor das colónias. Mais do que pretos ou brancos, eram pobres. Mais do que pobres era gente sem nada, desgraçada. Via-se no olhar, nas mãos, na postura. 
 O aristocrático e decrépito Palace Hotel lotou com centenas de retornados sem família na metrópole. Famílias inteiras num quarto. Despejadas. Talvez tivessem ficado deslumbradas com a escadaria e aposentos do hotel real, mas não esperavam por um inverno daquela dimensão. Geada atrás de geada. Brancas. Cortantes. Corpos magros colavam-se às paredes dos cafés da vila, encolhidos, de frente para um sol incapaz de compensar a leveza das roupas coloridas. Desconheciam as lãs, as samarras, as botas. Quando as adquiriram, não conseguiram esconder nem o frio nem o desconforto nem o completo abandono.
Habituados à burguesia portuense que ocupava os hotéis nos três meses de verão, a pequena vila transmontana estranhou os novos habitantes. Preocupou-se com as consequências da ocupação. Lamentou. Ajudou no que pode. Alguns lucraram, porque há sempre quem lucre com a desgraça alheia. Também eu fui beneficiado.
O Sr. Arlindo, homem dedicado à terra e ao futebol juvenil, descobriu na miudagem recém-chegada o João e o Di. Tinham, evidentemente, a nossa idade, sabiam jogar à bola e, sobretudo, estampa de jogadores. O João era possante e de pontapé forte. O Di, de perna arqueada, hábil e rápido - um estremo à moda antiga. Nunca uma equipa do Vidago F. C. ficara tão perfeita: tínhamos dois pretos, tal como o Sporting e o Benfica. Se alguém guardou a fotografia dessa equipa reparou na harmonia da composição, no branco e preto do equipamento e dos rostos, sorrisos rasgados, dentes magníficos dos dois angolanos.
E todos os domingos de manhã a alegria e os abraços estavam à distância ínfima de um golo ou, na falta dele, nada nos aproximou mais que partilhar a tristeza das derrotas. Coisas de pretos e de brancos.

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