domingo, janeiro 7
segunda-feira, dezembro 18
segunda-feira, novembro 20
domingo, novembro 5
Nelson Rodrigues, por Ruy Castro
Biografia aclamada por críticos e leitores. Uma referência para todos os biógrafos. Pontuações máximas. Uma grande expectativa que não saiu gorada. Já li algumas biografias, mas nunca alguma que se assemelhasse.
«Ninguém é exatamente velho aos 49 anos, mas Nelson
aparentava muito mais. Era lento de gestos, pesado, sedentário. Sua fala era
uma espécie de mugido arrastado, a ponto de pensarem que vivia bêbado – ele,
que nunca pusera uma gota de álcool na boca. Quando se empolgava, a voz ganhava
outra tonalidade e as sílabas quase se atropelavam, mas isso era raro, porque Nelson
parecia carregar uma tristeza perene. Quando se sentava para escrever, os
ombros caíam e ele, que não era baixo, encolhia. A visão dos suspensórios
também não ajudava. O que pareciam traços de beleza na juventude tinham sido
devastados pelos abalos da saúde e pelo seu estilo de vida – o rosto magro e
bem desenhado lembrava agora um buldogue. E Nelson era publicamente doente.
Todos sabiam que era que era tuberculoso e ele próprio encarregava-se de
promover sua úlcera como se ela fosse Maria Callas. Era cardíaco, precisava de
se cuidar. Tinha uma enxaqueca permanente, comum a toda a sua família. E sofria
também de hemorróidas.
Quando Lúcia revelou a história a suas amigas no Country e
nos lugares sofisticados que frequentavam, elas não acreditaram. Como podia
interessar-se por um homem tão mais velho, feio, doente, relaxado, certamente
cheio de manias e, para piorar, casado – por mais inteligente e fascinante que
fosse? O choque dos amigos de Nelson não foi menor.»
O Anjo Pornográfico, Ruy Castro
segunda-feira, outubro 16
A lição de Tiago Oliveira, engenheiro florestal
Na RTP3, entre as sete e as sete e vinte, vi e revi a
entrevista do engenheiro florestal, Tiago Oliveira. Num tom agastado, cansado
provavelmente de repetir ano após ano as mesmas coisas, advoga a única via
possível: adequar metodologias internacionais de prevenção e combate aos
incêndios, tratar da vegetação durante todo o ano, vigiar os espaços, educar a
população.
domingo, outubro 8
“La verdad nos haría libres, pero preferimos la mentira porque nos hará independientes”, F. Savater
Mais uma facadinha num Projecto Europeu tão fragilizado nos
últimos anos. Numa Europa que se pretendia sem muros e sem bandeiras, aparecem agora
estes movimentos, o Brexit e a Catalão, absolutamente anacrónicos e incompreensíveis.
Nesta questão catalã, alinho pela análise de Fernando Savater, no El País.
quarta-feira, agosto 9
quinta-feira, agosto 3
Entrevista com Souto Moura, no DN
Coloco-a aqui para ser mais fácil encontrá-la.
"Se ficar feio não se resolveu o problema. O que é feio não funciona. Um avião feio cai. Um barco feio não flutua. O bonito funciona sempre. A construção responde a umas funções. Se for agradável, se as pessoas se sentirem bem, se fornecer emoções, tem essa mais-valia: deixa de ser construção e passa a ser arquitetura."
quarta-feira, julho 19
Café Capri
Paulo, Mendes, Júlio Brás, Luis, Cardoso, Zé Luis
Eu, Barroso, Manel Capri, Tó, Júlio
Gosto muito desta fotografia. É de pequena dimensão, doze
por oito, e de uma definição surpreendente. Quarenta anos depois e os vários tons de cinzento ainda se
mantêm. O Café Capri com o equipamento alternativo do Vidago Futebol Clube.
O Capri era muito
mais do que um café. Três espaços bem definidos: o espaço central de muito bom gosto com uma estética dos anos sessenta; uma sala adjacente virada para o quintal da Dona Anita, ocupada por um bilhar livre, que lhe dava um tom diferenciador; e à frente, contígua à estrada nacional 2, a esplanada. E era a esplanada que
pelas noites longas e abafadas de verão tornava O Capri tão agradável. Um lugar de permanência quotidiana, um lugar de
passagem, um lugar de reencontros anuais. Era um local aberto e cosmopolita que
espelhava o temperamento dos proprietários: da Dona Cilinha recordo a enorme
tolerância de professora e a sua energia inesgotável, do Sr. Manuel, Manel
Capri, a juventude permanente, a imaginação sem freio e a vontade de fazer. Mas
o traço que melhor os caracterizava era o de gostarem de pessoas. E foi neste ambiente
que saiu esta equipa feita em cima do joelho para uma única partida para confraternizar
não sei o quê.
Tenho-a de novo à frente. Uma vez mais, percorro cada rosto um a um: reparem no Mendes (Jorge) de braços cruzados e olhar altivo, o primeiro defesa central moderno que vi. O tempo no jogo sobrava-lhe tal a clarividência que imprimia. Quem jogasse à sua frente rapidamente percebia que a bola sairia domesticada do seu brilhante jogo de cabeça. Também o Júlio Brás estava habituado a competir, nota-se na segurança com que nos olha. Era um exímio jogador de golfe, várias vezes campeão do clube. Arrastava atrás de si, em matchplays históricos contra jogadores de outros clubes, dezenas de pessoas pelo relvado do Campo de Golfe de Vidago. Metódico, persistente, com uma técnica apuradíssima, usava os mesmos princípios na sua função de ponta de lança – eficácia com o menor esforço. O Zé Luis e o Mário Barroso também eram handicaps baixos. Não me lembro de jogarem futebol, mas recordo claramente a tenacidade, a voz clara e assertiva do primeiro e a enorme gentileza do Barroso. Eu e o meu grande amigo Tó éramos os mais novos deste grupo. O Tó jogou a defesa direito tanto neste jogo como nos juniores do Vidago. Nunca foi outra coisa senão isso – direito, direto, justo. Ao lado dele, o Júlio. O Júlio, vejam bem, tinha uma Honda CB 200 vermelha naquele tempo de motorizadas. Tal como a mota, toda a sua anatomia estava preparada para a velocidade e para os recordes. Corria, saltava, lançava como ninguém. «Júlio, porque não vais ao Sporting?» Sorria com uma indiferença juvenil, como se o tempo não corresse também. Quanto ao guarda-redes, era óbvia a escolha: a baliza só podia estar ocupada por quem tinha estampa e, de todos os que frequentavam o Café Capri, o Paulo Veiga era o único que preenchia todos os requisitos: altura, voluntarismo e uma confiança transbordante. O meu irmão jogou à bola desde miúdo e jogava muito bem, mas dá-me ideia que sempre preferiu a autenticidade dos grandes jogos que só a infância permite. E, por fim, o Mário Cardoso. Tenho a certeza de que quem subia a ermida até ao pelado João Oliveira ia para ver a performance do Mário Cardoso. Valdano, jogador argentino do Real Madrid e em tempos colunista do El País, disse que o «futebol é engano: aparenta uma coisa para acabar fazendo outra». O Mário era o futebol. Criava futebol. Reparem na ansiedade que lhe trespassa o rosto como um ator antes de entrar em cena. Com o Mário em palco os adeptos vidaguenses, para lá de aplaudir e gritar, faziam uma coisa nunca vista: riam à gargalhada solta! O futebol do Cardoso era assim mesmo: teatral, tecnicamente perfeito, absolutamente desconcertante.
Tenho-a de novo à frente. Uma vez mais, percorro cada rosto um a um: reparem no Mendes (Jorge) de braços cruzados e olhar altivo, o primeiro defesa central moderno que vi. O tempo no jogo sobrava-lhe tal a clarividência que imprimia. Quem jogasse à sua frente rapidamente percebia que a bola sairia domesticada do seu brilhante jogo de cabeça. Também o Júlio Brás estava habituado a competir, nota-se na segurança com que nos olha. Era um exímio jogador de golfe, várias vezes campeão do clube. Arrastava atrás de si, em matchplays históricos contra jogadores de outros clubes, dezenas de pessoas pelo relvado do Campo de Golfe de Vidago. Metódico, persistente, com uma técnica apuradíssima, usava os mesmos princípios na sua função de ponta de lança – eficácia com o menor esforço. O Zé Luis e o Mário Barroso também eram handicaps baixos. Não me lembro de jogarem futebol, mas recordo claramente a tenacidade, a voz clara e assertiva do primeiro e a enorme gentileza do Barroso. Eu e o meu grande amigo Tó éramos os mais novos deste grupo. O Tó jogou a defesa direito tanto neste jogo como nos juniores do Vidago. Nunca foi outra coisa senão isso – direito, direto, justo. Ao lado dele, o Júlio. O Júlio, vejam bem, tinha uma Honda CB 200 vermelha naquele tempo de motorizadas. Tal como a mota, toda a sua anatomia estava preparada para a velocidade e para os recordes. Corria, saltava, lançava como ninguém. «Júlio, porque não vais ao Sporting?» Sorria com uma indiferença juvenil, como se o tempo não corresse também. Quanto ao guarda-redes, era óbvia a escolha: a baliza só podia estar ocupada por quem tinha estampa e, de todos os que frequentavam o Café Capri, o Paulo Veiga era o único que preenchia todos os requisitos: altura, voluntarismo e uma confiança transbordante. O meu irmão jogou à bola desde miúdo e jogava muito bem, mas dá-me ideia que sempre preferiu a autenticidade dos grandes jogos que só a infância permite. E, por fim, o Mário Cardoso. Tenho a certeza de que quem subia a ermida até ao pelado João Oliveira ia para ver a performance do Mário Cardoso. Valdano, jogador argentino do Real Madrid e em tempos colunista do El País, disse que o «futebol é engano: aparenta uma coisa para acabar fazendo outra». O Mário era o futebol. Criava futebol. Reparem na ansiedade que lhe trespassa o rosto como um ator antes de entrar em cena. Com o Mário em palco os adeptos vidaguenses, para lá de aplaudir e gritar, faziam uma coisa nunca vista: riam à gargalhada solta! O futebol do Cardoso era assim mesmo: teatral, tecnicamente perfeito, absolutamente desconcertante.
Ficava-nos bem o preto do Café Capri.
terça-feira, julho 11
Sílvia Pérez Cruz e Cástor Pérez - Veinte años
¿Qué te importa que te ame
Si tú no me quieres ya?
El amor que ya ha pasado
No se debe recordar
Fui la ilusión de tu vida
Un día lejano ya
Hoy represento al pasado
No me puedo conformar
Hoy represento al pasado
No me puedo conformar
Si las cosas que uno quiere
Se pudieran alcanzar
Tú me quisieras lo mismo
Que veinte años atrás
Con qué tristeza miramos
Un amor que se nos va
Es un pedazo del alma
Que se arranca sin piedad
Es un pedazo del alma
Que se arranca sin piedad
sábado, julho 8
Tancos, ao contrário de tantos…
... sinto-me agora mais seguro. Mais seguro por saber que o General Rovisco
Duarte continuará como chefe do Estado-Maior do Exército. Assumiu sem tibiezas uma
responsabilidade evidente, agiu com rapidez no apuramento das responsabilidades
operacionais, foi parco em palavras como o momento exigia.
segunda-feira, junho 19
Três bolinhos de bacalhau
Março, 1900
"E um dia, ao saber Camilo cético,
Camilo com noites de sombrio desespero, palpando a coronha do revólver, não foi
de propósito procura-lo para lhe pregar Deus?
Era numa dessas tardes de Seide,
de que o grande escritor fala nos Serões.
A natureza chorava revolvida: a acácia de Jorge batia-lhe devagarinho nos
vidros. Quem é que o chama? Atormentado de dores, ouve vozes, vê fantasmas, e
sai do horror com blasfémias e sarcasmos. Junqueiro encontra-o mergulhado na
dolorosa tinta do crepúsculo, com a pala com que escrevia sobre os olhos,
absorto, calado, desesperado, o rosto marcado de dedadas, «esboçado numa argila
cor de mel», segundo o retrato de Ricardo Jorge. Eu tinha-lhe medo… O poeta
tenta arranca-lo ao negrume, que o envolve: desenrola teorias, explicações,
argumentos; ataca-o a fundo, persuade-o talvez… Já o julga abalado e
convertido, quando dessa figura, só osso e dor, saem enfim estas palavras
irónicas:
- …Sim, sim, Junqueiro você
convencia-me se eu não tivesse ainda no estômago, desde o almoço, três bolinhos
de bacalhau, que me estão aqui como três Voltaires."
Raúl Brandão, Memórias, Quetzal
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