É difícil descrever estes três dias em Londres. Fico-me apenas por sensações, observações condicionadas e, certamente, por generalizações precipitadas. Retive: do
arejado aeroporto de Heathrow ao claustrofóbico metro; a irreversibilidade de
uma enorme metrópole multiétnica e a beleza surpreendente de tantos, fruto de cruzamentos genéticos; os milhares de turistas chineses padronizados e a extravagância diferenciadora dos jovens londrinos; os bairros históricos com a sua vida tão peculiar, a contrastar com a gélida e
deselegante City de jovens de fato cinzento; o bulício caótico em larga escala e a certeza de um fim de tarde retemperador pelos pubs ou pelos parques; o enorme património histórico que lhes estrutura a civilidade; e no sábado terrorista, o regozijo com a vitória do Real de Ronaldo quebrado abruptamente pelo som dos helicópteros e das sirenes.
terça-feira, junho 6
segunda-feira, maio 22
Do Museu Nacional de Arte Antiga à Gulbenkian
Foi uma surpresa ver o Museu Nacional de Arte Antiga cheio, apesar de saber que se comemorava o dia internacional dos museus e a entrada ser gratuita. Os salões perderam o silêncio habitual; a noite esteve quente, a fazer inveja aos melhores dias de verão, e uma ligeiríssima brisa desprendeu preguiçosamente milhares de flores dos jacarandás num jardim repleto de gentes de várias paragens; os alunos do Chapitô fizeram o que puderam.
Sempre achei que era nesta direção que os museus deveriam seguir:
um lugar de oferta multifacetada onde o património material ocupa um lugar de
relevo.
Recordo-me, quando aluno
de escultura das Belas Artes, de uma proposta para um projeto de um parque infantil para a Fundação Calouste Gulbenkian. Pretendia atingir esses objetivos e, sobretudo, criar hábitos às crianças mais novas tornando esses espaços familiares. Todas as peças do parque infantil teriam como ponto de partida a escultura de Henry Moore da Fundação e seriam pensadas e moldadas de acordo com as necessidades lúdicas e o espírito dos mais
pequenos. Em vão, não passou no crivo de um mestre a quem eu esqueci o nome. Já nessa altura, o cheiro bafiento que se instalara continuava a
impregnar a cabeça de muitos zeladores de um património esconso.
quarta-feira, maio 17
"Salvador tem uma voz relaxada, afinada e extraordinariamente musical", Caetano Veloso
Também gosto muito da canção dos irmãos Sobral, mas não concordo com a ideia subjacente a toda esta gritaria que sobrevaloriza a vitória no Festival da Eurovisão, como se este concurso escrutinasse o que de melhor se faz ao nível da música popular. Não, este festival é e sempre foi muito fraco. Estávamos todos de acordo, não estávamos?
Bom, bom, como o inteligente Salvador reconheceu, foi o elogio do mestre Caetano Veloso. Aqui, entrevista ao DN.
Bom, bom, como o inteligente Salvador reconheceu, foi o elogio do mestre Caetano Veloso. Aqui, entrevista ao DN.
sábado, maio 6
MNE corta exame que chumbava mulheres
segunda-feira, maio 1
Cícero, por Robert Harris
«A sua (Molon) teoria da Oratória era simples: não andar demasiado, manter a cabeça erguida, não se afastar do tema, fazê-los chorar, fazê-los rir e, uma vez conquistada a simpatia deles, sentar-se calmamente. - Nada seca com mais rapidez do que uma lágrima - dizia. Esta teoria estava mais de acordo com a maneira de ser de Cícero.»
Robert Harris, Imperium
segunda-feira, abril 24
Os turcos de Erdogan
André CarrilhoRetirei do DN:
. Na Turquia - vitória conseguida pelo presidente Recep Tayyip Erdogan - 51,18% votaram sim e 48,82% não;
. Na Alemanha vivem cerca de três milhões de turcos, votaram cerca de 650 mil, tendo o sim ganho com 63,07%.
. Depois da Alemanha, a França é o país preferido da imigração turca, estimando-se que sejam mais de 800 mil - votaram cerca de 140 mil, tendo o sim ganho com 64,85%dos votos.
Este referendo, para lá das questões formais da passagem de um sistema parlamentar para um sistema presidencial, foi sobretudo um sinal de apoio ou não às políticas seguidas por Erdogan. Só para recordar: Erdogan nos últimos tempos prendeu milhares de turcos da oposição, incitou ao ódio contra os europeus, reduziu drasticamente os valores de uma Turquia liberal (liberdade de expressão, liberdade de imprensa, liberdade de divergência e separação de poderes).
E foram os emigrantes turcos na europa a dar um apoio inequívoco a toda a política de Erdogan, e contrária aos valores das democracias europeias. Inquietante.
segunda-feira, abril 17
segunda-feira, abril 10
Largo do Olmo
O Luis, meu irmão, disse-me que só notara que Vidago tinha muitas árvores quando
partiu para terras do sul. Acontece com frequência sentirmos falta das coisas, mas de árvores? Há,
evidentemente, árvores por aqui, enormes, centenárias, mas não na dimensão,
densidade e diversidade de Vidago. Sintra, onde se refugia para fotografar,
talvez ultrapasse Vidago na mancha arbórea. A Câmara de Sintra e diversos grupos de defesa do património sabem muito bem o tesouro
que têm. Mais do que usufruírem de uma natureza preservada e diversificada,
vendem-na. Confessa, sempre que se fala do assunto, a mágoa ao ter constatado a
destruição dos carvalhos que ligavam umbilicalmente Vidago ao Parque do Palace.
Cortaram o que unia dois universos tão distintos a troco da ideia de
“requalificar a avenida”, como se fosse possível requalificar cortando cerce e
sem critério o que é impossível substituir de uma só vez – árvores adultas. Não sei quem impingiu
esta ideia, mas tenho a certeza que não se lembraria de tal quem nasceu por lá.
Também eu fui educado pela terra. Na rua, claro, como era
comum naquele tempo. E em Vidago a nossa rua era, para nossa felicidade, muito
mais do que isso: um espaço infinito e um mundo de aventuras marcado sobretudo
pelos parques, pelo campo de golfe e pelas avenidas cobertas de sombra. Desde
muito novos aprendemos a identificar as árvores e a chamá-las pelos nomes, como
se faz com as pessoas.
Começo, deixando a memória vaguear pelos finais dos anos sessenta, por
onde só podia começar: pelo centro mais antigo da vila – o Largo do Olmo. Há
melhor mote? Dar o nome de uma árvore ao núcleo da pequena Vila. O olmo desapareceu,
como quase todos os olmos na europa, mas a vontade em centrar o futuro à volta
das árvores manteve-se. Apesar das tentativas vãs em repor a espécie, acabaram,
anos mais tarde, por substituí-lo por um carvalho-americano. Bela alternativa. Recordo-me,
a propósito dos olmos, muito comuns na altura, o esforço do meu pai e amigos
frequentadores do Café Capri em combater o fungo para salvar um velho e
frondoso olmo à frente do café. E quem não se lembra também do gigantesco eucalipto
à frente do Grande Hotel a fazer lembrar o zimbório de uma catedral; ou do belo acer da meia-laranja, que continua a equilibrar o espaço do elegante posto de
turismo; quem se esquece das três acácias da farmácia; do buxo que ultrapassava o muro alto do quintal do Sr.
Costa; dos contrastes lustrosos em pleno inverno das japoneiras escondidas
pelos muros do Dr. Canavarro; ou das amoreiras à frente da escola do Professor
Fraga que tingiam de açúcar a sua sombra e anunciavam o final do ano escolar;
ou dos enormes plátanos, olmos, pinheiros que acompanhavam a estrada nacional até
ao apeadeiro Salus, até Oura, até Loivos e até ao fim de tudo; e a magnífica
cobertura ogivada de plátanos da avenida que ligava a Estação de Caminho-de-ferro
ao Palace, muito antes das soluções do arquiteto Santiago Calatrava para a gare do oriente em Lisboa; ou do biombo
de árvores pujantes que aconchegava e dignificava a ruína do Hotel do Golfe; e
os amieiros, freixos e salgueiros que apertavam e davam vida ao rio oura; e os
carvalhos americanos que se generalizaram por toda a vila e tudo uniam. (Como
ficava bem na heráldica de Vidago um simples carvalho-americano) E depois o campo
de golfe, meu deus! O relvado, as mil e uma espécies – do vulgar pinheiro à invulgar
sequoia, dos choupos às magnólias, das cuprésseas às tílias - e a paleta de
cores que proporcionam e marcam a passagem do tempo.
Não sei de quem é a ideia, mas faço-a também minha de
tanto a usar: “O ser vivo mais antigo de uma cidade que se preze deve sempre ser
uma árvore. A longevidade, beleza e estado dessa árvore diz-nos quase tudo
sobre essa cidade.”
domingo, abril 2
"Eu nasci milionário"
Mesmo para quem nada leu de John le Carré, como é o meu caso, vale bem a pena ler estas histórias da sua vida. Quanto mais não seja pelo Filho do Pai do Autor, um dos últimos capítulos:
«Demorei muito tempo a conseguir escrever sobre Ronnie, vigarista, fantasista, preso ocasional e meu pai.
(...) Aonde quer que Ronnie fosse, o imprevisível ia com ele. Estamos na mó de cima ou na de baixo? Podemos encher o depósito a fiado na estação de serviço da zona? Ele fugiu do país ou estacionará orgulhosamente o Bentley no caminho para casa esta noite? Ou esconde-lo-á no quintal, apagando as luzes da casa, verificando as portas e as janelas e falando em murmúrios ao telefone, se ele ainda não tiver sido desligado? Ou estará a desfrutar da segurança e do conforto de uma das suas esposas alternativas?
(...) Tensão? toda a vida de Ronnie foi passada a andar sobre a camada mais fina e escorregadia que se possa imaginar. (...) Encantava e persuadia com as suas fantasias, via-se um menino de ouro de Deus e deu cabo da vida de muitas pessoas.
Graham Green diz-nos que a infância é o saldo credor do escritor. Por essa medida, pelo menos, eu nasci milionário.»
O Túnel de Pombos, John Le Carré
domingo, março 12
domingo, março 5
O meu tio Zeca
Semana sim semana não, percorríamos 48 quilómetros para
visitar a família na aldeia de Constantim. O meu pai nasceu lá, mas toda a sua
infância e juventude passara-as por terras da raia à volta das saias da maestra Felisbela, minha avó. Por morte
prematura de um pai de outras terras, ficou exclusivo da família materna, gente
abastada - os Faceiras, e da aldeia que o mimou e tratou por Luizinho. Já a
minha mãe era a filha mais nova de uma família da terra que partiu para o Brasil
à procura de fortuna. Quando regressaram do Rio de Janeiro, logo após o
nascimento de minha mãe, trocaram os dinheiros poupados por casas e pelas
melhores terras da aldeia. Eram cinco os filhos: a Justina, a mais velha e por
quem a minha mãe tinha uma adoração especial, o João, dono da venda e do café da
terra, o Toninho, com táxi em Vila Real, o Zeca e a Lurdes, minha mãe, a mais
bela e formosa da terra, nascida em tempos de abundância familiar. Todos eles
casaram. Todos eles tiveram muitos filhos, o ti Zeca não.
As tardes de domingo eram passadas na casa e na venda do meu
tio João. Homem discreto e afável. A azáfama da venda e do café, o ritmo das
primas que subiam e desciam com tarefas bem definidas e a atenção afetuosa que
nos dedicavam tornavam estas tardes diferentes. Toda a aldeia rodava à volta da
venda do meu tio, que prestava todos os serviços. Aos domingos, os homens
ocupavam literalmente parte da estrada nacional à frente do café e por lá
gozavam a única tarde de ócio de que dispunham. Foi nesse percurso, já rapaz e
acompanhando minha mãe, que nos cruzámos com o tio Zeca. Abraço caloroso e
familiar entre os dois e hesitação e estupefação minha perante o desconhecido. Cumprimentei-o
perplexo e, enquanto conversavam, reparei nas feições familiares daquele rosto.
Um rosto que não me era completamente estranho. Desde aí, vi-o algumas vezes
mais. Sempre discreto, camuflado pelos homens da terra no café do seu irmão
João. Por vezes, apanhava-o a perscrutar-nos com um olhar de quem
procura pormenores do seu desenho genético nos rostos dos filhos da sua irmã
Lurdes; mais de uma vez, vi-o a pedir a bênção ao pai, David, meu avô; uma ou
outra vez, a cumprir o ritual na igreja onde era sacristão, diluído na exuberante talha
dourada do altar, absorto de tudo o resto e sempre com o mesmo semblante. Encontrei-o
também numa fotografia em casa do meu avô que tantas vezes vira e que não me
despertara a mínima curiosidade. E lá estava o ti Zeca ainda menino, vestido
como um adulto, quase imperceptível, apagado pelos irmãos mais velhos e pela frescura das
irmãs. Como conseguia este dom da invisibilidade? Quem era este homem tímido que
ouvia muito e falava tão pouco, que no meio da gente da terra se mostrava longe das conversas,
que demonstrava uma serenidade e uma bonomia constantes e que aparentava dar-se
bem com a solidão?
A minha mãe dizia que era uma jóia de rapaz e que sempre
fora assim - metido em si, ensimesmado. E era este ser assim que o afastava dos outros. Herdou o seu
quinhão na altura das partilhas e com ele governara-se. O seu
universo era a mulher, os campos, a igreja. Bastavam-lhe.Talvez tenha escolhido a obediência,
o silêncio e a humildade e se tenha afastado deliberadamente dos prazeres
mundanos. Este afastamento da família alargada resguardavam-no evidentemente das tensões
e das questiúnculas naturais de quem está próximo, dos favores, da
obrigatoriedade da retribuição, da formalidade da boa educação. Mas também o
afastava da cumplicidade, do carinho e do sentimento de pertença.
Talvez fosse deliberada a sua escolha de uma liberdade mais plena. Talvez, pelo seu feitio, tivesse sido empurrado naturalmente para ela. Provavelmente, esta maneira de ser livre é, quase sempre, estar só.
Talvez fosse deliberada a sua escolha de uma liberdade mais plena. Talvez, pelo seu feitio, tivesse sido empurrado naturalmente para ela. Provavelmente, esta maneira de ser livre é, quase sempre, estar só.
sexta-feira, março 3
ITMOI, pela Companhia Nacional de Bailado
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