domingo, março 12
domingo, março 5
O meu tio Zeca
Semana sim semana não, percorríamos 48 quilómetros para
visitar a família na aldeia de Constantim. O meu pai nasceu lá, mas toda a sua
infância e juventude passara-as por terras da raia à volta das saias da maestra Felisbela, minha avó. Por morte
prematura de um pai de outras terras, ficou exclusivo da família materna, gente
abastada - os Faceiras, e da aldeia que o mimou e tratou por Luizinho. Já a
minha mãe era a filha mais nova de uma família da terra que partiu para o Brasil
à procura de fortuna. Quando regressaram do Rio de Janeiro, logo após o
nascimento de minha mãe, trocaram os dinheiros poupados por casas e pelas
melhores terras da aldeia. Eram cinco os filhos: a Justina, a mais velha e por
quem a minha mãe tinha uma adoração especial, o João, dono da venda e do café da
terra, o Toninho, com táxi em Vila Real, o Zeca e a Lurdes, minha mãe, a mais
bela e formosa da terra, nascida em tempos de abundância familiar. Todos eles
casaram. Todos eles tiveram muitos filhos, o ti Zeca não.
As tardes de domingo eram passadas na casa e na venda do meu
tio João. Homem discreto e afável. A azáfama da venda e do café, o ritmo das
primas que subiam e desciam com tarefas bem definidas e a atenção afetuosa que
nos dedicavam tornavam estas tardes diferentes. Toda a aldeia rodava à volta da
venda do meu tio, que prestava todos os serviços. Aos domingos, os homens
ocupavam literalmente parte da estrada nacional à frente do café e por lá
gozavam a única tarde de ócio de que dispunham. Foi nesse percurso, já rapaz e
acompanhando minha mãe, que nos cruzámos com o tio Zeca. Abraço caloroso e
familiar entre os dois e hesitação e estupefação minha perante o desconhecido. Cumprimentei-o
perplexo e, enquanto conversavam, reparei nas feições familiares daquele rosto.
Um rosto que não me era completamente estranho. Desde aí, vi-o algumas vezes
mais. Sempre discreto, camuflado pelos homens da terra no café do seu irmão
João. Por vezes, apanhava-o a perscrutar-nos com um olhar de quem
procura pormenores do seu desenho genético nos rostos dos filhos da sua irmã
Lurdes; mais de uma vez, vi-o a pedir a bênção ao pai, David, meu avô; uma ou
outra vez, a cumprir o ritual na igreja onde era sacristão, diluído na exuberante talha
dourada do altar, absorto de tudo o resto e sempre com o mesmo semblante. Encontrei-o
também numa fotografia em casa do meu avô que tantas vezes vira e que não me
despertara a mínima curiosidade. E lá estava o ti Zeca ainda menino, vestido
como um adulto, quase imperceptível, apagado pelos irmãos mais velhos e pela frescura das
irmãs. Como conseguia este dom da invisibilidade? Quem era este homem tímido que
ouvia muito e falava tão pouco, que no meio da gente da terra se mostrava longe das conversas,
que demonstrava uma serenidade e uma bonomia constantes e que aparentava dar-se
bem com a solidão?
A minha mãe dizia que era uma jóia de rapaz e que sempre
fora assim - metido em si, ensimesmado. E era este ser assim que o afastava dos outros. Herdou o seu
quinhão na altura das partilhas e com ele governara-se. O seu
universo era a mulher, os campos, a igreja. Bastavam-lhe.Talvez tenha escolhido a obediência,
o silêncio e a humildade e se tenha afastado deliberadamente dos prazeres
mundanos. Este afastamento da família alargada resguardavam-no evidentemente das tensões
e das questiúnculas naturais de quem está próximo, dos favores, da
obrigatoriedade da retribuição, da formalidade da boa educação. Mas também o
afastava da cumplicidade, do carinho e do sentimento de pertença.
Talvez fosse deliberada a sua escolha de uma liberdade mais plena. Talvez, pelo seu feitio, tivesse sido empurrado naturalmente para ela. Provavelmente, esta maneira de ser livre é, quase sempre, estar só.
Talvez fosse deliberada a sua escolha de uma liberdade mais plena. Talvez, pelo seu feitio, tivesse sido empurrado naturalmente para ela. Provavelmente, esta maneira de ser livre é, quase sempre, estar só.
sexta-feira, março 3
ITMOI, pela Companhia Nacional de Bailado
domingo, fevereiro 5
Did Cristh laugh?
A leitura deste excerto do último livro do Ricardo Araújo Pereira, A doença, o sofrimento e a morte entram num bar, remeteu-me imediatamente para o momento chave do filme de Jean-Jacques Annaud, "O Nome da Rosa", a partir da obra de Umberto Eco: o memorável diálogo entre o franciscano William Baskerville e o bibliotecário Jorge sobre o poder maléfico do riso e da sua capacidade em subverter o medo. Como bem sabemos, sem medo não há reverência.
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quinta-feira, janeiro 26
A Gorda, Isabela Figueiredo
Depois do surpreendente Caderno de Memórias Coloniais, Isabel Figueiredo publica este romance cru, de tons duros, entre os escuros e os claros, impiedoso e pujante.
« Sacolejando-me, procuro o lugar da ignição, vem coisa imaterial ao redor de mim, vem, e há um instante em que agarro essa névoa por um braço, perna, um farrapo, a agarro toda, a puxo com força, a seguro, tenho-a, prendo-a, e, mantendo-a, deixo-a rebentar no momento em que cruza inteira o tamanho do meu corpo, não sei em que direcção, vai, não sei quem sou, não pertenço a lugar algum, sexo e cérebro são uma esfera de luz-prata na qual nos suspendemos por segundos, não mais, cegos, só dor luminosa no lugar do nada…»
sexta-feira, janeiro 20
O que correu mal em Obama?
Também vou ter saudades de Obama. Saudades do humanismo e da tolerância. Saudades da modernidade e da elegância dos actos. Do seu sorriso largo. Saudade dos discursos espontâneos
e informais, das diferenças de timbre da sua voz, das alterações sistemáticas
de ritmo, das pausas prolongadas que nos permitiam refletir. A oratória como uma ciência das emoções. Também um mestre na gestão da imagem. Ninguém geriu tão bem a linguagem
corporal, os locais por onde andou ou por onde passeou, até mesmo a subtil e eficaz exploração dos espaços familiares e dos gestos mais íntimos. Se era difícil superar Bill Clinton, Barack Obama
conseguiu-o largamente.
Se do ponto de vista europeu e pelos dados revelados pelos
vários indicadores, a governação foi, apesar da maior crise económica mundial depois de 1929 e ao invés da Europa, um sucesso, há algo que não consigo compreender, porque contraria a história da tomada do poder dos partidários do populismo:
o que correu mal nestes anos de Obama para que o povo americano votasse numa mudança
tão radical e entregasse o mais alto cargo da nação ao sinistro Donald Trump?sexta-feira, janeiro 13
Plata o Plomo
A não perder a série da Netflix e acompanhar com a leitura do livro de Gabriel Garcia Márquez, Notícia de um Sequestro.
«Com a fortuna e a clandestinidade, Escobar ficou dono da situação e converteu-se numa lenda que dominava tudo a partir da sombra. Os seus comunicados de estilo exemplar e cautelas perfeitas chegaram a parecer-se tanto com a verdade que se confundiam com ela. No alto do seu esplendor ergueram-se altares com o seu retrato e puseram candelabros nas comunas de Medellin. Chegou a julgar-se que fazia milagres. Nenhum colombiano em toda a história tinha tido ou exercido um talento como o dele para condicionar a opinião pública. Nenhum outro teve maior poder de corrupção. A condição mais inquietante e devastadora da sua personalidade era que carecia completamente da indulgência para distinguir entre o bem e o mal.»
Notícia de um Sequestro, de Gabriel Garcia Marquez.
«A realidade saiu-lhe ao encontro quando viu abandonado à beira da estrada o cadáver de uma adolescente de uns quinze anos, com boa roupa de cores festivas e uma maquilhagem escabrosa.
- Está ali uma rapariga morta.
- Sim - disse o motorista sem olhar. - São as bonecas que andam nas festas com os amigos de Dom Pablo.»
Notícia de um Sequestro, de Gabriel Garcia Marquez.
segunda-feira, janeiro 2
No Porto para ver o velho e nobre casario ganhar vida ...
quinta-feira, dezembro 29
Homens Bons, de Arturo Pérez-Reverte
« Indica-lhe um lugar da biblioteca perante o qual don Hermógenes já se deteve, extasiado. Ali na luz plúmbea que penetra pela janela, destacam-se as lombadas douradas de vinte e oito volumes de grande formato, encadernados em pele castanho-clara: Encyclopédie, pode ler-se nos rótulos vermelhos e verdes.
- Posso abrir um?
- Por favor.
Com reverente unção, como se fosse um sacerdote que leva nas mãos o Santíssimo Sacramento, o bibliotecário põe os óculos, retira o primeiro volume da estante, coloca-o em cima da mesa do gabinete e abre-o cuidadosamente.
- Discours préliminaire des éditeurs - lê, quase emocionado, - L`Encyclopédie que nous présentons au Public, est, como son titre l`annonce, l`ouvrage d`une société de gens de Lettres...»
quarta-feira, dezembro 28
segunda-feira, novembro 14
domingo, outubro 30
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