quarta-feira, agosto 3

Ravelstein, de Saul Below



«Se não sair como um chilrear de um pássaro, não vale nada
Talvez o meu ouvido não estivesse preparado para este Saul Below, Ravelstein.


sábado, julho 23

Pornopopeia. Uma festa de safadezas e de bem escrever



«Seguinte: quando ouvi aquela segunda salva de palmas no portão, desapeei o HP da minha barriga e fui até à mureta da varanda, de onde enquadrei minha musatlântica num lindo plongê, ela carregando o que parecia uma cambuca de tamanho médio envolta num pano branco de algodão impecável de limpo. De cabeça baixa, jogava olhadinhas curtas pros lados, aflita. Veio com o mesmo shortinho de sábado, lavado e passado de novo. Aquela sabe tirar o máximo do mínimo. Ergueu o olhar rapidamente, me viu e teve um estremecimento. Achei que fosse chispar dali num risco horizontal de cartoon, e, antes que isso acontecesse de verdade, pulei de três em três os degraus de tijolo escorregadio e fui abrir o portãozinho para recepcionar a visita. Antes que eu pudesse abrir a boca, e sem dizer nada ela também, Josilene me passou a cambuca e arremeteu para dentro de casa, subindo a escada de dois em dois degraus. Segui atrás dela observando que, junto com shortinho hipersexy, a Jôsy tinha se lembrado de trazer o mesmo par de pernas acobreadas que eu tinha cobiçado durante uma tarde inteira lá nas Rocas, sem falar naquela bundinha fenomenal, ali, ao alcance da mão. Fiquei só assistindo àquele espetáculo glúteo, enquanto sentia nas mãos a mornidão da cumbuca bojuda que desprendia um forte perfume a coentro.»
Reinaldo Moraes, Pornopopeia, Quetzal

terça-feira, julho 12

Três ou quatro coisas sobre o Europeu


Este europeu representou um retrocesso no futebol espetáculo que tem vindo a ser seguido pelo futebol ao nível de clubes. Neste contexto de futebol de cariz pragmático, a equipa portuguesa é uma justa campeã. Fernando Santos é inteligente, perspicaz, ouve tudo e todos e isso reflectiu-se nas diversas alterações na composição da equipa ao longo do campeonato. Ainda assim, e a mim que ninguém me ouve, o treinador campeão não conseguiu contrariar a previsibilidade do jogo português com Ronaldo em campo nem conseguiu resistir à promoção meteórica e exclusivamente mediática da pop star Renato Sanches. 

terça-feira, junho 28

Bicicletas


Já tudo foi dito sobre Amesterdão: água, muita água; turistas, muitos; muitas flores; milhares de bicicletas. Mas foram as bicicletas - pardas, ferrugentas, qual erva daninha,  que me impressionaram mais. O binómio bicicleta/holandês parece fruto de um aperfeiçoamento “genético” ao longo dos tempos. Quase modelo único: discretas, roda alta, volante elevado puxado para trás, uma distância dos pés ao chão digna de uma confiança e equilíbrio naturais. A forma sisuda da bicicleta dilui-se e faz com que seja fácil distinguir os habitantes de amesterdão, permitindo  às belas holandesas uma postura vertical, costas bem direitas num movimento pendular das longas pernas, olhar altivo, e uma elegância e naturalidade desarmantes.  

sábado, junho 11

Morbidezza

Bronzino

«A palavra que significa melhor o seu corpo é: turgente. Açodada pelas minhas ficções salazes, tudo nela se torna curva e proeminência, sinuosa elevação, de têmpera branca. Essa é a consistência que o bom degustador deveria preferir para a sua companheira na hora do amor: terna abundância que parece a ponto de se derramar mas que se mantém firme, solta, elástica como a fruta madura e a massa recém-amassada, essa terna textura que os italianos chamam morbidezza, palavra que até aplicada ao pão soa a lasciva.»
Mário Vargas Llosa, Elogio da Madrasta

segunda-feira, abril 11

“Look at me”


O “Look at me” mais suplicante e delicioso que já ouvi. Entre o ciciar de palavras de circunstância, o nervosismo das mãos num corpo tenso, o olhar que procura algo em que se fixar, o tímido pedido de desculpa já com os primeiros acordes e, depois, a transformação repentina para o vozeirão seguro, convicto e apaixonado de Sarah Vaughan, fazem deste Misty, e em particular deste registo em Montreux, um apelo irresistível.


quarta-feira, abril 6

Vozes de Chernobyl, Svetlana Alexievich




"Lembra-se...? Dostoiévski descreveu... Como um homem chicoteava o cavalo nos olhos mansos. Homem louco! Não na garupa, mas nos olhos mansos..."


A Vitória do número



A estratégia de Rui Vitória explica-se facilmente: acredita que a quantidade de jogadores em disputa direta da bola é proporcional à possibilidade de a dominarem. Simples. Matemática pura e simples. O Professor rendeu-se a Pitágoras - tudo é número. Sem pudor e se necessário, defende com toda a equipa no último terço; atreve-se, atacando com um número semelhante à das equipas que defendem; disputa cada bola em qualquer espaço com maior número de homens. Apregoa, sem o semblante de um general romano, o mérito do coletivo, mas dificulta, com a estratégia eficaz que adotou, qualquer pretensão de individualismo e criatividade.
Para os amantes do ludopédio, e num espetáculo como o futebol tem que ser, é possível aproximar a arte de bem jogar à estratégia fria dos números?
Sim, é possível: vejam Jesus e seus apaniguados.

sexta-feira, março 25

Quando o futebol se deslocou para norte



Na década de 70, todos percebemos que havia mais do que o futebol brasileiro. Sim, até ali não havia mais nada. O futebol europeu resumia-se a um jogo esforçado, dedicado e estéril.
Aquelas camisolas brancas de tira larga vermelha do Ajax surpreenderam-nos. Todos nós, miúdos agarrados a uma bola desde que nascemos, arregalámos os olhos para perceber este comportamento coletivo contracultura, de movimentos largos, de movimentações sincronizadas e de uma criatividade dada a solistas de outra estirpe.

quarta-feira, março 16

Dividir, serrar e tirar. Um livro brutal. E belo.



"Todos aqueles anos em que estive ausente, os meus amigos viveram-nos numa completa euforia: a revolução realizara-se! O comunismo caiu! Todos estavam confiantes em que tudo se comporia, porque na Rússia havia muitas pessoas instruídas. Era um país rico. Mas o México também é um país rico... Não se compra a democracia com petróleo e gás, nem se pode importar, como as bananas ou os chocolates suíços. Nem se proclama por um decreto do Presidente... São necessárias pessoas livres, e não as havia. E continua a não haver. Na Europa há duzentos anos que cuidam da democracia como quem cuida da relva. Em casa, a minha mãe chorava: «Tu dizes que Estaline era mau, mas com eles nós vencemos. E tu queres trair a pátria.» Um velho amigo meu veio visitar-nos. Bebemos chá na cozinha: «O que vai acontecer? Nada de bom acontecerá, enquanto não fuzilarmos todos os comunas.» Mais sangue? Alguns dias depois entreguei os documentos para sair do país..."
O Fim do Homem Soviético, Svetlana Aleksievitch