Já tudo foi dito sobre Amesterdão: água, muita água;
turistas, muitos; muitas flores; milhares de bicicletas. Mas foram as bicicletas - pardas, ferrugentas, qual erva daninha, que me impressionaram mais. O binómio bicicleta/holandês parece fruto de um aperfeiçoamento “genético” ao longo dos tempos. Quase modelo único: discretas, roda alta, volante elevado puxado para trás, uma distância dos pés ao chão digna de uma confiança e equilíbrio naturais. A forma sisuda da bicicleta dilui-se e faz com que seja fácil distinguir os habitantes de amesterdão, permitindo às belas holandesas uma postura vertical, costas bem direitas num movimento pendular das longas pernas, olhar altivo, e uma elegância e naturalidade desarmantes.
terça-feira, junho 28
sábado, junho 11
Morbidezza
«A palavra que significa melhor o seu corpo é: turgente. Açodada pelas minhas ficções salazes, tudo nela se torna curva e proeminência, sinuosa elevação, de têmpera branca. Essa é a consistência que o bom degustador deveria preferir para a sua companheira na hora do amor: terna abundância que parece a ponto de se derramar mas que se mantém firme, solta, elástica como a fruta madura e a massa recém-amassada, essa terna textura que os italianos chamam morbidezza, palavra que até aplicada ao pão soa a lasciva.»
Mário Vargas Llosa, Elogio da Madrasta
quinta-feira, abril 28
segunda-feira, abril 11
“Look at me”
O “Look at me” mais suplicante e delicioso que já ouvi. Entre
o ciciar de palavras de circunstância, o nervosismo das mãos num corpo tenso,
o olhar que procura algo em que se fixar, o tímido pedido de desculpa já com os primeiros acordes e, depois, a transformação repentina para o
vozeirão seguro, convicto e apaixonado de Sarah Vaughan, fazem deste Misty, e em
particular deste registo em Montreux, um apelo irresistível.
quarta-feira, abril 6
Vozes de Chernobyl, Svetlana Alexievich
"Lembra-se...? Dostoiévski descreveu... Como um homem chicoteava o cavalo nos olhos mansos. Homem louco! Não na garupa, mas nos olhos mansos..."
A Vitória do número
A estratégia de Rui Vitória explica-se facilmente: acredita
que a quantidade de jogadores em disputa direta da bola é proporcional à possibilidade
de a dominarem. Simples. Matemática pura e simples. O Professor rendeu-se a
Pitágoras - tudo é número. Sem pudor e se necessário, defende com toda a equipa no último
terço; atreve-se, atacando com um número semelhante à das equipas que defendem;
disputa cada bola em qualquer espaço com maior número de homens. Apregoa, sem
o semblante de um general romano, o mérito do coletivo, mas dificulta, com a
estratégia eficaz que adotou, qualquer pretensão de individualismo e
criatividade.
Para os amantes do ludopédio, e num espetáculo como o
futebol tem que ser, é possível aproximar a arte de bem jogar à estratégia fria
dos números?
Sim, é possível: vejam
Jesus e seus apaniguados.
sexta-feira, março 25
Quando o futebol se deslocou para norte
Na década de 70, todos percebemos que havia mais do
que o futebol brasileiro. Sim, até ali não havia mais nada. O futebol europeu resumia-se a um jogo esforçado, dedicado e estéril.
Aquelas camisolas brancas de tira larga vermelha do Ajax surpreenderam-nos. Todos nós, miúdos agarrados a uma bola desde que nascemos, arregalámos os olhos para perceber este comportamento coletivo contracultura, de movimentos largos, de movimentações sincronizadas e de uma criatividade dada a solistas de outra estirpe.
Aquelas camisolas brancas de tira larga vermelha do Ajax surpreenderam-nos. Todos nós, miúdos agarrados a uma bola desde que nascemos, arregalámos os olhos para perceber este comportamento coletivo contracultura, de movimentos largos, de movimentações sincronizadas e de uma criatividade dada a solistas de outra estirpe.
quarta-feira, março 16
Dividir, serrar e tirar. Um livro brutal. E belo.
O Fim do Homem Soviético, Svetlana Aleksievitch
domingo, janeiro 24
Purity, de Jonathan Franzen
"... mas para Andrea era como se a Internet fosse principalmente governada pelo medo: o medo da impopularidade e da reprovação, o medo de falhar, o medo do desprezo ou do esquecimento."
quarta-feira, novembro 4
sábado, setembro 19
Por Armamar
Saídos da autoestrada, os últimos 15 quilómetros até Armamar não se esgotaram facilmente. Serpentear por socalcos de vinhedos e pomares numa paisagem estonteante, e por uma estrada que se degradava cada vez mais, fizeram com que duvidássemos do caminho para Armamar.
Dobrado sobre a bengala, um homem gasto descia a rampa da casa.
- Boa tarde, vamos bem para Armamar?
Apoiou a mão nodosa na janela do carro aproximando o ouvido.
- ARMAMAR, vamos bem? - repetimos.
- Para Armamar? Os senhores não são de cá, pois não? Armamar é já aí, ao birar da curva, passam o biaduto e logo bêem … Olhem, benham beber um copo!
quarta-feira, setembro 9
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