segunda-feira, abril 11

“Look at me”


O “Look at me” mais suplicante e delicioso que já ouvi. Entre o ciciar de palavras de circunstância, o nervosismo das mãos num corpo tenso, o olhar que procura algo em que se fixar, o tímido pedido de desculpa já com os primeiros acordes e, depois, a transformação repentina para o vozeirão seguro, convicto e apaixonado de Sarah Vaughan, fazem deste Misty, e em particular deste registo em Montreux, um apelo irresistível.


quarta-feira, abril 6

Vozes de Chernobyl, Svetlana Alexievich




"Lembra-se...? Dostoiévski descreveu... Como um homem chicoteava o cavalo nos olhos mansos. Homem louco! Não na garupa, mas nos olhos mansos..."


A Vitória do número



A estratégia de Rui Vitória explica-se facilmente: acredita que a quantidade de jogadores em disputa direta da bola é proporcional à possibilidade de a dominarem. Simples. Matemática pura e simples. O Professor rendeu-se a Pitágoras - tudo é número. Sem pudor e se necessário, defende com toda a equipa no último terço; atreve-se, atacando com um número semelhante à das equipas que defendem; disputa cada bola em qualquer espaço com maior número de homens. Apregoa, sem o semblante de um general romano, o mérito do coletivo, mas dificulta, com a estratégia eficaz que adotou, qualquer pretensão de individualismo e criatividade.
Para os amantes do ludopédio, e num espetáculo como o futebol tem que ser, é possível aproximar a arte de bem jogar à estratégia fria dos números?
Sim, é possível: vejam Jesus e seus apaniguados.

sexta-feira, março 25

Quando o futebol se deslocou para norte



Na década de 70, todos percebemos que havia mais do que o futebol brasileiro. Sim, até ali não havia mais nada. O futebol europeu resumia-se a um jogo esforçado, dedicado e estéril.
Aquelas camisolas brancas de tira larga vermelha do Ajax surpreenderam-nos. Todos nós, miúdos agarrados a uma bola desde que nascemos, arregalámos os olhos para perceber este comportamento coletivo contracultura, de movimentos largos, de movimentações sincronizadas e de uma criatividade dada a solistas de outra estirpe.

quarta-feira, março 16

Dividir, serrar e tirar. Um livro brutal. E belo.



"Todos aqueles anos em que estive ausente, os meus amigos viveram-nos numa completa euforia: a revolução realizara-se! O comunismo caiu! Todos estavam confiantes em que tudo se comporia, porque na Rússia havia muitas pessoas instruídas. Era um país rico. Mas o México também é um país rico... Não se compra a democracia com petróleo e gás, nem se pode importar, como as bananas ou os chocolates suíços. Nem se proclama por um decreto do Presidente... São necessárias pessoas livres, e não as havia. E continua a não haver. Na Europa há duzentos anos que cuidam da democracia como quem cuida da relva. Em casa, a minha mãe chorava: «Tu dizes que Estaline era mau, mas com eles nós vencemos. E tu queres trair a pátria.» Um velho amigo meu veio visitar-nos. Bebemos chá na cozinha: «O que vai acontecer? Nada de bom acontecerá, enquanto não fuzilarmos todos os comunas.» Mais sangue? Alguns dias depois entreguei os documentos para sair do país..."
O Fim do Homem Soviético, Svetlana Aleksievitch 

domingo, janeiro 24

Purity, de Jonathan Franzen


Às primeiras páginas, temi o pior Franzen. Mas Pip e os outros personagens rapidamente emergem como pessoas complexas e desiguais, e colocam Purity na linha de Correcções e Liberdade. Bom, muito bom. Um longo prazer.

"... mas para Andrea era como se a Internet fosse principalmente governada pelo medo: o medo da impopularidade e da reprovação, o medo de falhar, o medo do desprezo ou do esquecimento."

sábado, setembro 19

Por Armamar


          Saídos da autoestrada, os últimos 15 quilómetros até Armamar não se esgotaram facilmente. Serpentear por socalcos de vinhedos e pomares numa paisagem estonteante, e por uma estrada que se degradava cada vez mais, fizeram com que duvidássemos do caminho para Armamar.
          Dobrado sobre a bengala, um homem gasto descia a rampa da casa.
          - Boa tarde, vamos bem para Armamar?
           Apoiou a mão nodosa na janela do carro aproximando o ouvido.
         - ARMAMAR, vamos bem? - repetimos.
         - Para Armamar? Os senhores não são de cá, pois não? Armamar é já aí, ao birar da curva, passam o biaduto e logo bêem … Olhem, benham beber um copo!

quarta-feira, setembro 2

Por Praga e Viena







Penso que é isto que procuramos numa cidade: uma estrutura arquitectónica, urbanística e paisagística inovadora, que distinga os povos e que preserve uma vivência colectiva única.
Foi isso que encontrei nestas duas capitais do centro europeu. Palmilhei Praga e Viena durante uma semana e verifiquei o que esperava: belas cidades de passado forte e rico. Mas a capital austríaca pareceu-me das mais perfeitas. Surpreendeu-me o requinte e monumentalidade dos edifícios, a quantidade e cuidado com os espaços verdes, a aposta nos diversos tipos de transportes (realce para as bicicletas e o espaço destinado aos peões) e, sobretudo, a maneira como os vienenses vivem descontraidamente a cidade.