quarta-feira, abril 6

A Vitória do número



A estratégia de Rui Vitória explica-se facilmente: acredita que a quantidade de jogadores em disputa direta da bola é proporcional à possibilidade de a dominarem. Simples. Matemática pura e simples. O Professor rendeu-se a Pitágoras - tudo é número. Sem pudor e se necessário, defende com toda a equipa no último terço; atreve-se, atacando com um número semelhante à das equipas que defendem; disputa cada bola em qualquer espaço com maior número de homens. Apregoa, sem o semblante de um general romano, o mérito do coletivo, mas dificulta, com a estratégia eficaz que adotou, qualquer pretensão de individualismo e criatividade.
Para os amantes do ludopédio, e num espetáculo como o futebol tem que ser, é possível aproximar a arte de bem jogar à estratégia fria dos números?
Sim, é possível: vejam Jesus e seus apaniguados.

sexta-feira, março 25

Quando o futebol se deslocou para norte



Na década de 70, todos percebemos que havia mais do que o futebol brasileiro. Sim, até ali não havia mais nada. O futebol europeu resumia-se a um jogo esforçado, dedicado e estéril.
Aquelas camisolas brancas de tira larga vermelha do Ajax surpreenderam-nos. Todos nós, miúdos agarrados a uma bola desde que nascemos, arregalámos os olhos para perceber este comportamento coletivo contracultura, de movimentos largos, de movimentações sincronizadas e de uma criatividade dada a solistas de outra estirpe.

quarta-feira, março 16

Dividir, serrar e tirar. Um livro brutal. E belo.



"Todos aqueles anos em que estive ausente, os meus amigos viveram-nos numa completa euforia: a revolução realizara-se! O comunismo caiu! Todos estavam confiantes em que tudo se comporia, porque na Rússia havia muitas pessoas instruídas. Era um país rico. Mas o México também é um país rico... Não se compra a democracia com petróleo e gás, nem se pode importar, como as bananas ou os chocolates suíços. Nem se proclama por um decreto do Presidente... São necessárias pessoas livres, e não as havia. E continua a não haver. Na Europa há duzentos anos que cuidam da democracia como quem cuida da relva. Em casa, a minha mãe chorava: «Tu dizes que Estaline era mau, mas com eles nós vencemos. E tu queres trair a pátria.» Um velho amigo meu veio visitar-nos. Bebemos chá na cozinha: «O que vai acontecer? Nada de bom acontecerá, enquanto não fuzilarmos todos os comunas.» Mais sangue? Alguns dias depois entreguei os documentos para sair do país..."
O Fim do Homem Soviético, Svetlana Aleksievitch 

domingo, janeiro 24

Purity, de Jonathan Franzen


Às primeiras páginas, temi o pior Franzen. Mas Pip e os outros personagens rapidamente emergem como pessoas complexas e desiguais, e colocam Purity na linha de Correcções e Liberdade. Bom, muito bom. Um longo prazer.

"... mas para Andrea era como se a Internet fosse principalmente governada pelo medo: o medo da impopularidade e da reprovação, o medo de falhar, o medo do desprezo ou do esquecimento."

sábado, setembro 19

Por Armamar


          Saídos da autoestrada, os últimos 15 quilómetros até Armamar não se esgotaram facilmente. Serpentear por socalcos de vinhedos e pomares numa paisagem estonteante, e por uma estrada que se degradava cada vez mais, fizeram com que duvidássemos do caminho para Armamar.
          Dobrado sobre a bengala, um homem gasto descia a rampa da casa.
          - Boa tarde, vamos bem para Armamar?
           Apoiou a mão nodosa na janela do carro aproximando o ouvido.
         - ARMAMAR, vamos bem? - repetimos.
         - Para Armamar? Os senhores não são de cá, pois não? Armamar é já aí, ao birar da curva, passam o biaduto e logo bêem … Olhem, benham beber um copo!

quarta-feira, setembro 2

Por Praga e Viena







Penso que é isto que procuramos numa cidade: uma estrutura arquitectónica, urbanística e paisagística inovadora, que distinga os povos e que preserve uma vivência colectiva única.
Foi isso que encontrei nestas duas capitais do centro europeu. Palmilhei Praga e Viena durante uma semana e verifiquei o que esperava: belas cidades de passado forte e rico. Mas a capital austríaca pareceu-me das mais perfeitas. Surpreendeu-me o requinte e monumentalidade dos edifícios, a quantidade e cuidado com os espaços verdes, a aposta nos diversos tipos de transportes (realce para as bicicletas e o espaço destinado aos peões) e, sobretudo, a maneira como os vienenses vivem descontraidamente a cidade.

terça-feira, agosto 4

Sebastião Salgado, de novo


Pràs bandas de Belém, na Cordoaria Nacional, último dia de Génesis, de Sebastião Salgado. A extensa fila ultrapassava a dos pasteis e a do Mosteiro. Cinquenta minutos de passos curtos, de muitas pausas embalando o corpo de uma perna para a outra. A conversa com as minhas raparigas fluiu amenamente. O linguajar que pairava pela sombra quente do Torreão Nascente da Cordoaria era dos mais diversos pontos do frágil planeta. Tal como as belas fotografias do brasileiro Sebastião Salgado. Era disso que tratava a exposição: de fragilidade e beleza.

segunda-feira, julho 27

O Homem Lento, J. M. Coetzee



Não gostei deste "O Homem Lento", de J. M. Coetzee, mas alguns dias após a sua leitura o fotógrafo Paul Rayment, personagem deste Coetzee, não pára de me incomodar.

"Fala de amor. Não pode ter a certeza, não tem óculos postos, mas dir-se-ia que um rubor vai subindo lentamente pelo pescoço de Marijana acima. Marijana diz que quer que ele se refreie, mas isso é um disparate, ela não pode querer mesmo dizer isso. Qual a mulher que não quereria uma torrente de palavras de amor derramada de vez em quando sobre ela, por mais questionável que seja a sua origem? Marijana está a corar, e pela simples razão de que também ela é lábil. E portanto? O que vem a seguir? Portanto, de facto tudo é coerente! Portanto, por detrás do caos da aparência funciona de facto uma lógica divina! Wayne vem do nada para lhe deixar a perna feita em papa, portanto meses depois ele cai no chuveiro, portanto esta cena torna-se possível: um homem de sessenta anos imobilizado mais ou menos rígido na cama, a tremer intermitentemente, a declamar filosofia à sua enfermeira, a declamar amor. E o sangue agita-se nela, reagindo!"