domingo, janeiro 24

Purity, de Jonathan Franzen


Às primeiras páginas, temi o pior Franzen. Mas Pip e os outros personagens rapidamente emergem como pessoas complexas e desiguais, e colocam Purity na linha de Correcções e Liberdade. Bom, muito bom. Um longo prazer.

"... mas para Andrea era como se a Internet fosse principalmente governada pelo medo: o medo da impopularidade e da reprovação, o medo de falhar, o medo do desprezo ou do esquecimento."

sábado, setembro 19

Por Armamar


          Saídos da autoestrada, os últimos 15 quilómetros até Armamar não se esgotaram facilmente. Serpentear por socalcos de vinhedos e pomares numa paisagem estonteante, e por uma estrada que se degradava cada vez mais, fizeram com que duvidássemos do caminho para Armamar.
          Dobrado sobre a bengala, um homem gasto descia a rampa da casa.
          - Boa tarde, vamos bem para Armamar?
           Apoiou a mão nodosa na janela do carro aproximando o ouvido.
         - ARMAMAR, vamos bem? - repetimos.
         - Para Armamar? Os senhores não são de cá, pois não? Armamar é já aí, ao birar da curva, passam o biaduto e logo bêem … Olhem, benham beber um copo!

quarta-feira, setembro 2

Por Praga e Viena







Penso que é isto que procuramos numa cidade: uma estrutura arquitectónica, urbanística e paisagística inovadora, que distinga os povos e que preserve uma vivência colectiva única.
Foi isso que encontrei nestas duas capitais do centro europeu. Palmilhei Praga e Viena durante uma semana e verifiquei o que esperava: belas cidades de passado forte e rico. Mas a capital austríaca pareceu-me das mais perfeitas. Surpreendeu-me o requinte e monumentalidade dos edifícios, a quantidade e cuidado com os espaços verdes, a aposta nos diversos tipos de transportes (realce para as bicicletas e o espaço destinado aos peões) e, sobretudo, a maneira como os vienenses vivem descontraidamente a cidade.

terça-feira, agosto 4

Sebastião Salgado, de novo


Pràs bandas de Belém, na Cordoaria Nacional, último dia de Génesis, de Sebastião Salgado. A extensa fila ultrapassava a dos pasteis e a do Mosteiro. Cinquenta minutos de passos curtos, de muitas pausas embalando o corpo de uma perna para a outra. A conversa com as minhas raparigas fluiu amenamente. O linguajar que pairava pela sombra quente do Torreão Nascente da Cordoaria era dos mais diversos pontos do frágil planeta. Tal como as belas fotografias do brasileiro Sebastião Salgado. Era disso que tratava a exposição: de fragilidade e beleza.

segunda-feira, julho 27

O Homem Lento, J. M. Coetzee



Não gostei deste "O Homem Lento", de J. M. Coetzee, mas alguns dias após a sua leitura o fotógrafo Paul Rayment, personagem deste Coetzee, não pára de me incomodar.

"Fala de amor. Não pode ter a certeza, não tem óculos postos, mas dir-se-ia que um rubor vai subindo lentamente pelo pescoço de Marijana acima. Marijana diz que quer que ele se refreie, mas isso é um disparate, ela não pode querer mesmo dizer isso. Qual a mulher que não quereria uma torrente de palavras de amor derramada de vez em quando sobre ela, por mais questionável que seja a sua origem? Marijana está a corar, e pela simples razão de que também ela é lábil. E portanto? O que vem a seguir? Portanto, de facto tudo é coerente! Portanto, por detrás do caos da aparência funciona de facto uma lógica divina! Wayne vem do nada para lhe deixar a perna feita em papa, portanto meses depois ele cai no chuveiro, portanto esta cena torna-se possível: um homem de sessenta anos imobilizado mais ou menos rígido na cama, a tremer intermitentemente, a declamar filosofia à sua enfermeira, a declamar amor. E o sangue agita-se nela, reagindo!"                      
                                                                                                           

segunda-feira, julho 6

O horrível tornado belo. A Senda Estreita para o Norte Profundo, de Richard Flanagan


Excerto de uma entrevista a uma revista brasileira: “Uma das melhores coisas na cultura japonesa é a literatura e, nela, Matsuo Basho. Queria usar o que há de melhor na cultura japonesa para falar do que houve de mais baixo e que esteve naquela guerra imperial em que foram cometidos crimes hediondos. Quanto melhor eu usasse essa relação mais seriam as hipóteses de ter um bom livro, que não julgasse. Queria olhar para aqueles homens. Pensei que se pudesse ter um história de amor no centro de um livro sobre um prisioneiro de guerra que achou ter perdido o amor da sua vida teria o necessário para que a romance funcionasse”, conta Flanagan, explicando também o título, réplica de uma frase de Basho, o poeta que dois responsáveis pelo exército imperial japonês citam nos intervalos do horror que promovem. Basho, dizem eles no romance, é um dos exemplos do “dom supremo do Japão”, o dom de “retratar tão concisa e maravilhosamente a vida”. Na interpretação daqueles militares, no ano de 1943 esse dom materializa-se no “objectivo supremo”: a construção do caminho-de-ferro."

terça-feira, junho 23

Os rapazes de Rui Jorge


Há qualquer coisa estranha nos rapazes de Rui Jorge. Não fossem as camisolas das quinas e alguns rostos familiares e não seria fácil identificá-los. É certo que o toque na bola denuncia-os um pouco, aproxima-os da europa meridional, mas a confiança e a serenidade de jogadores e do corpo técnico afasta-os definitivamente para outras latitudes e para outros desportos - para o rugby, por exemplo. Não sei caracterizá-los de outra forma: é gente bem-educada. Sem altruísmo não pactuam com a simulação, com o embuste, não se enredam em simulações de faltas inexistentes, não se vislumbram tiques de fidalgos da bola. Não perdem tempo nas substituições nem na reposição da bola em jogo nem nos habituais e inconsequentes protestos com o árbitro.
Esta equipa de Rui Jorge parte de premissas de que são feitas as grandes equipas: divertem-se coletivamente com o que fazem, e jogam sabendo que a probabilidade de saírem vitoriosas aumenta com o tempo efetivo de jogo.

segunda-feira, junho 15

Ti Elias Mão-de-Ferro, personagem fabulosa da Terra Chã.



«Lá em cima, as mulheres gritaram, através das janelas, sem saber já se o faziam em proteção de uns ou de outros.
No momento em que espreitou pelo postigo, com a espingarda na mão, o rapaz percebeu que o pai se encontrava já em cima de um cavalo, com as mãos atadas atrás das costas e a corda à volta da cabeça, três dos homens de capuz segurando o animal e invectivando-o com insultos e ameaças. E, ao vê-lo, gritou, ergueu a arma, muito atabalhoado, e disparou numa direcção indefinida.
O cavalo foi o primeiro a reagir, erguendo as patas da frente e partindo a galope quinta acima. Os encapuzados desataram a correr, muito atarantados, como se disso dependessem as suas próprias vidas. Álvaro Augusto Silveira-Goulart, esse, ficou pendurado pelo pescoço, a sacudir-se num estertor, e depois apenas a balançar-se ao sabor do vento e da gravidade, já inerte, com um estranho sorriso na boca.
Elias puxou uma fumaça do seu cigarro grosseiro, agora já reduzido a uma ponta apenas. Bateu a cinza no cinzeiro.
- Um desses homens era João de Brito Carreiro, empregado da casa.
José Artur cruzou os braços, num tom de desafio.
- Outro era o Ti Elias.
O velho fitou-o de volta. Fez um gesto com a cabeça.
- E o outro era o teu avô José Guilherme.»
 Arquipélago, Joel Neto