segunda-feira, maio 11

Eu, Cláudio, de Robert Graves. Um regalo


Um romance histórico maravilhoso contado pelo futuro imperador Cláudio, desprezado pela gaguez e pela aparência. Do sábio Augusto e sua vilã mulher Lívia, ao sádico Tibério, até ao excessivo e louco Calígula.


" - Pelo amor que me tens, Cláudio, faz o que te pedem. Por amor do nosso filho. Eles matam-te, se te recusares. Já mataram Cesónia. Agarraram a filhinha pelos pés e fizeram-lhe saltar os miolos contra um muro.
- Tudo vai correr bem, senhor, logo que te acostumes - disse um soldado, sorrindo. - Não é assim tão desagradável a vida de um imperador.
Não protestei mais. Para quê lutar contra o destino? Carregaram-me pelo pátio de honra, cantando o hino ridículo composto para a subida ao poder de Calígula. Forçaram-me a pôr a coroa de folhas de carvalho feita de ouro. Para conservar o equilíbrio, tinha de me agarrar com toda a força aos ombros dos caporais. A coroa ficara-me em banda, sobre uma orelha. sentia-me perfeitamente ridículo. Assemelhava-me a um criminoso que levavam para a execução. As trombetas entoaram a Saudação Imperial."
...
"Eis-me, pois, imperador. Que tolice! Mas ao menos poderei impor que leiam os meus livros. Audições públicas perante uma numerosa assistência. E sem contar que são bons livros - trinta e cinco anos de assíduo trabalho. É de justiça, apenas."

quarta-feira, abril 29

Uma "Ikea"


Um contraste que não deixa dúvidas a ninguém. Parabéns aos designers da Ikea. 
Como reverter esta situação que se generalizou e desfigura as nossas casas? Uma ideia: porque não descer o IMI a quem tem bom gosto (não tem marquises).


sábado, abril 25

Cravos vermelhos



Há uns anos, a propósito do 25 de Abril, escrevi o editorial do jornal escolar.
“Para comemorar o 25 de Abril, pedi duas pequenas histórias aos meus colegas Jorge Santos e Turé Couto que viveram intensamente este período e o anterior. Vale a pena lê-las porque, para além do seu valor literário, os mais velhos recordarão com certeza esse tempo mesquinho e claustrofóbico. Para os mais novos, os nossos alunos, para quem esta data é sobretudo um feriado bastante oportuno, espero que vejam nestas histórias, puras histórias de ficção: ou seja, aos olhos de quem sempre viveu em democracia, pareçam inacreditáveis, irreais, de um tempo que acabou há muito. Será sinal que Abril se vai cumprindo. Não devemos, nesses inquéritos feitos na véspera do dia, estar muito preocupados se eles sabem ou não quem foi o Salgueiro Maia ou o Otelo. Não passamos nós com uma idêntica leveza pelo 5 de Outubro? Seremos menos republicanos por isso? Valorizemos antes, e diariamente, os ideais de Abril e da República – Liberdade, Igualdade e Fraternidade.”

sábado, abril 18

No comment



Seguindo a ideia do Euronews, há imagens, canções, como neste caso, que não necessitam de qualquer introdução, prescindem de qualquer comentário ou explicação.

quinta-feira, abril 2

Cinco dias em Florença



Cinco dias em Florença e os sinais foram por demais evidentes, arrisco generalizar: a prosperidade económica e cultural ao longo de tantos séculos nota-se a cada esquina desta magnífica cidade. Uma cidade pintada pelas cores do rio, de uma riqueza explícita que se manifesta nos palazzos renascentistas, na maneira como preservaram todo o edificado, como integraram o novo, como é tão óbvio para os florentinos que o luxo e a arte são eternos, como conservam os seus hábitos quotidianos. É fácil identificá-los. Distinguem-se pela elegância das roupas, pelos passeios de bicicleta no meio do formigueiro de turistas de telemóvel em riste, pela serenidade com que passeiam os cães ao final da tarde. Aceitam a avalanche diária com a altivez de quem sabe pertencer a uma cidade à escala do homem rico e culto.

sexta-feira, março 20

A cambalhota de Messi

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Para quem perde, a zombaria. Só as vitórias contam. Os louros são sobretudo para quem finaliza. Os jogadores sabem disso. Posam, sabendo que as câmaras os perseguem. O regozijo generaliza-se até à histeria se um túnel acontece. O de Messi foi fantástico, é verdade. E a cambalhota? A cambalhota no final do jogo contra o Manchester City (12:23). De uma eloquência perfeita - a desilusão estampada na relva.

quarta-feira, março 4

Felisbela, minha avó

Luis Barreira

De há um tempo para cá o meu irmão vasculha o passado. Mexe em gavetas, revolve baús, limpa o pó de álbuns fotográficos. Se bem o conheço, não procura recordações revivalistas, tão pouco se esconde, nesse emaranhado de coisas, de um presente complexo. Procura sim, como todos os artistas, tropeçar no que há de eterno nas suas memórias - no belo. Sempre achou que a beleza salvaria o mundo.
Enviou-me duas fotografias da avó Felisbela. Penso cada vez menos nela, apesar de no meu quarto ter uma fotografia em que ela, ainda jovem, ocupa o centro da família. De tão próximas, as fotografias que temos nas paredes das nossas casas acabam por diluir-se. Com esta não será assim.
Numa das fotografias que me enviou, a minha avó posa para o neto mais velho, meu irmão, sentada na ponta de um dos cadeirões da sala de jantar. Ereta, blusa de seda branca com triângulos pretos, olhar direto no primeiro terço da folha, perfil parcial, sorriso forçado, cabelo cuidado, mão esquerda em cima do joelho - o modelo, a professora Felisbela, seguindo as indicações do cânone do retrato clássico. Não fosse a minha avó ali naquele ambiente familiar e os meus olhos nada reteriam.
Mas a primeira que me enviou, esta que vos mostro, tenho a certeza que o comoveu tanto quanto me comoveu a mim. Senti uma saudade imensa. Fez -me lembrar o autorretrato de Rembrandt, de 1669, ano da sua morte. O mesmo rosto cansado, a serenidade estampada no olhar, a luz perfeita de tons suaves do final de tarde, o claro-escuro meigo reflexo da sua maneira de ser, a mesma dignidade, o olhar introspetivo que me emociona.

segunda-feira, fevereiro 23

Território de lugares-comuns


Como tantos outros também eu acabo sempre os livros, esteja a gostar ou não. O Mapa e o Território, de Michel Houellebecq, aclamado escritor francês, Prémio Concourt, não passou, pela vulgaridade e lugares-comuns, de uma enorme perda de tempo.

domingo, fevereiro 15

Oito episódios tão curtos


Oito episódios intensos que exigem do espectador uma atenção especial a todos os pormenores. Diálogos cuidados e densos e Woody Harrelsson e Matthew McConaughey em estado de graça. A investigação sobre os crimes numa região do Louisiana dá primazia ao desenrolar das complexas personalidades dos dois detetives. Neste sentido, a narrativa dá tantos saltos no tempo que oferece uma panorâmica ainda mais ampla da forma como evoluem as personagens. Que pena ser tão curta. E a banda sonora? Tão bela. Tão curta.

sexta-feira, fevereiro 6

A sério?, uma hora rindo, no S. Luiz


Também não arriscámos: sabíamos que os Dead Combo não desiludiriam; conheço e aprecio o trabalho gráfico de António Jorge Gonçalves; faltava confirmar se Nuno Artur Silva, o gajo do Eixo, guionista e novo homem da programação da RTP, seria capaz do desafio e nos retirar o ar sisudo da desconfiança. Conseguiu, foram muito bons.
 Agora, "A sério?", "a verdade é que logo se verá".

terça-feira, janeiro 20

E a noite roda, Alexandra Lucas Coelho



O eterno conflito israelo-palestiniano serve de fundo a um romance como tantos outros. Leio regularmente os textos de Alexandra Lucas Coelho no Público e não estranhei a prosa. Aliás, gosto desde há muito: concisa, atenta ao pormenor, surpreendente bela. Uma bela prenda de Natal.


"O nosso quarto tem uma cama de ferro que range e uma janela sobre o vale. Cestinho deixado pela Meritxell para a primeira manhã: queijo Garrotxa, compota de framboesa, pão escuro, tomates. Tu cortas os gomos, retiras as grainhas, claramente uma rotina. Fico a olhar as tuas mãos, toda a existência de gestos firmes anteriores a mim, e sinto uma dor absurda, como um membro amputado há séculos. Não vivi contigo o que já viveste, e isso é ao mesmo tempo irreversível e inaceitável."

segunda-feira, janeiro 12

Brilhante


"Ao retomar o seu autoexame, admitiu que havia sido um mau marido - duas vezes. Daisy, a primeira mulher, tinha-a ele tratado sordidamente. Madeleine, a segunda, tinha tentado arruiná-lo. Para o filho e para a filha era um pai carinhoso mas mau. Para os pais, tinha sido um filho ingrato. Para a pátria, um cidadão indiferente. Para os irmãos e irmãs, afetuoso mas distante. Com os amigos, egoísta. No amor, indolente. perante tudo o que era brilhante, mortiço. Em relação ao poder, passivo. E com a sua alma, evasivo."


"Queria dizer-lhe que salpicasse o soalho. Estava a levantar demasiado pó. Dentro de minutos gritar-lhe-ia: «Molhe o chão, senhora Tuttle. Há água no lava-loiça.» Mas ainda não. Nesse momento não tinha nenhuma mensagem para ninguém. Nada. Nem uma única palavra."
Saul Bellow, Herzog