segunda-feira, fevereiro 23

Território de lugares-comuns


Como tantos outros também eu acabo sempre os livros, esteja a gostar ou não. O Mapa e o Território, de Michel Houellebecq, aclamado escritor francês, Prémio Concourt, não passou, pela vulgaridade e lugares-comuns, de uma enorme perda de tempo.

domingo, fevereiro 15

Oito episódios tão curtos


Oito episódios intensos que exigem do espectador uma atenção especial a todos os pormenores. Diálogos cuidados e densos e Woody Harrelsson e Matthew McConaughey em estado de graça. A investigação sobre os crimes numa região do Louisiana dá primazia ao desenrolar das complexas personalidades dos dois detetives. Neste sentido, a narrativa dá tantos saltos no tempo que oferece uma panorâmica ainda mais ampla da forma como evoluem as personagens. Que pena ser tão curta. E a banda sonora? Tão bela. Tão curta.

sexta-feira, fevereiro 6

A sério?, uma hora rindo, no S. Luiz


Também não arriscámos: sabíamos que os Dead Combo não desiludiriam; conheço e aprecio o trabalho gráfico de António Jorge Gonçalves; faltava confirmar se Nuno Artur Silva, o gajo do Eixo, guionista e novo homem da programação da RTP, seria capaz do desafio e nos retirar o ar sisudo da desconfiança. Conseguiu, foram muito bons.
 Agora, "A sério?", "a verdade é que logo se verá".

terça-feira, janeiro 20

E a noite roda, Alexandra Lucas Coelho



O eterno conflito israelo-palestiniano serve de fundo a um romance como tantos outros. Leio regularmente os textos de Alexandra Lucas Coelho no Público e não estranhei a prosa. Aliás, gosto desde há muito: concisa, atenta ao pormenor, surpreendente bela. Uma bela prenda de Natal.


"O nosso quarto tem uma cama de ferro que range e uma janela sobre o vale. Cestinho deixado pela Meritxell para a primeira manhã: queijo Garrotxa, compota de framboesa, pão escuro, tomates. Tu cortas os gomos, retiras as grainhas, claramente uma rotina. Fico a olhar as tuas mãos, toda a existência de gestos firmes anteriores a mim, e sinto uma dor absurda, como um membro amputado há séculos. Não vivi contigo o que já viveste, e isso é ao mesmo tempo irreversível e inaceitável."

segunda-feira, janeiro 12

Brilhante


"Ao retomar o seu autoexame, admitiu que havia sido um mau marido - duas vezes. Daisy, a primeira mulher, tinha-a ele tratado sordidamente. Madeleine, a segunda, tinha tentado arruiná-lo. Para o filho e para a filha era um pai carinhoso mas mau. Para os pais, tinha sido um filho ingrato. Para a pátria, um cidadão indiferente. Para os irmãos e irmãs, afetuoso mas distante. Com os amigos, egoísta. No amor, indolente. perante tudo o que era brilhante, mortiço. Em relação ao poder, passivo. E com a sua alma, evasivo."


"Queria dizer-lhe que salpicasse o soalho. Estava a levantar demasiado pó. Dentro de minutos gritar-lhe-ia: «Molhe o chão, senhora Tuttle. Há água no lava-loiça.» Mas ainda não. Nesse momento não tinha nenhuma mensagem para ninguém. Nada. Nem uma única palavra."
Saul Bellow, Herzog

sexta-feira, janeiro 9

Charlie Hebdo


Actos chocantes como estes servem também para reafirmar com mais clareza ainda que o projecto europeu é o modelo civilizacional que mais valoriza o ser humano. Sorte a nossa. Devemo-la aos valores saídos da revolução francesa e devemo-la sobretudo a milhões de pessoas que lutaram e morreram por esses valores, desde a antiguidade clássica. É bom ouvir Je suis Charlie.
Preocupa-me, no entanto, constatar que os nossos líderes europeus se esqueçam sistematicamente deles quando abordam questões económicas, enaltecendo e copiando modelos económicos que desvalorizam o trabalho, que não garantem os direitos mais elementares da vida humana e que, inevitavelmente, são incompatíveis com os valores democráticos de que nos orgulhamos.

domingo, outubro 26

O Legado de Humboldt, Saul Bellow


"Ninguém se torna interessante com a loucura, a excentricidade ou outras coisas do género, mas em virtude do poder de cancelar a distração, a atividade e o ruído do mundo e porque se mostra capaz de ouvir a essência das coisas."

Saul Bellow chega livro após livro à essência das coisas.

quinta-feira, agosto 28

Para Martin Amis, o grande romance da literatura americana. É verdade, não vale a pena procurar mais.


"O corpo de Stella, com o cheiro morno de mulher, estava coberto de água, começando a partir de uma linha tranquila acima dos seios. ... Sentei-me com o roupão pendurado no ombro e senti-me extremamente em paz. ... Eu sentia-me instalado e descontraído, o meu peito livre e os meus dedos abertos e confortáveis. E é aí que está a coisa. É preciso um momento como este para percebermos como o nosso coração anda angustiado e, além disso, todo aquele tempo em que pensávamos estar a vaguear ociosamente, estava a ser realizado um trabalho duríssimo. Sem nos apercebermos, estávamos a esforçar-nos duramente, cavando e escavando, abrindo minas e túneis, levantando, empurrando e carregando pedras, trabalhando, trabalhando, trabalhando, trabalhando, arfando, transportando, içando. E nada disto pode ser visto do lado de fora. É tudo feito internamente. Isto acontece porque nos sentimos impotentes e incapazes de obter justiça ou resposta, e, então, dentro de nós, trabalhamos, guerreamos e combatemos, ajustamos contas, recordamos insultos, brigamos, reagimos, negamos, palramos, denunciamos, triunfamos, enganamos, superamos, vingamo-nos, choramos, persistimos, absolvemos, morremos, ressuscitamos. E fazemos isto tudo sozinhos! Onde é que está toda a gente? Dentro do nosso peito e da nossa pele, o elenco inteiro."

Saul Bellow, As Aventuras de Augie March, Quetzal