terça-feira, julho 22

Morrem Mais de Mágoa, Saul Bellow



"Mas por que viajaria ele tanto? Florestas indianas, montanhas chinesas, selvas brasileiras, a Antárctida. Confessava que a sua irrequietude tinha uma causa erótica, mas nunca conseguiu apresentar a forma de interpretá-la. Havia desejos contraditórios em jogo. Numa idade em que se tem o Eros de um lado e Thanatos do outro disputando campos, é muito natural que se faça as malas e se parta  para um aeroporto, em vez de se ficar à espera de ver o resultado. Vale mais andar-se em movimento? A correr para se manter a libido activa? Isto nunca lembraria a um garanhão."

domingo, julho 13

Terra, Olga Roriz

S. Paiva, Público

Diz António Lobo Antunes que um dos sinais mais fiáveis para avaliarmos se uma peça de teatro é ou não é boa manifesta-se pelo doer do rabo na cadeira. Depois do brilhante Orfeu e Euridice, Olga  Roriz apresentou a sua última criação, Terra, no CCB, e a dificuldade em arranjar uma boa posição durante a longa perfomance foi desesperante. Mais do que a magia do bailado, porque é disso que os bailados se fazem - de magia e comunicação, centramo-nos exclusivamente na capacidade física dos bailarinos, autênticos atletas de alta competição, e ficamos admirados com a tremenda exigência física a que são submetidos. Dança pela dança parece muito pouco para um leigo como eu. Muito pouco.

quarta-feira, julho 9

82. Quando a derrota verdadeiramente doeu.


A última selecção brasileira que não precisava de rezas nem mezinhas nem milagres. Simular uma falta era dar tempo ao adversário e um pontapé para o ar uma opção vergonhosa.

sexta-feira, julho 4

Técnica


Se técnica se define como eficácia com o menor esforço, aliás a própria definição é um primor de síntese e de eficácia compreensiva, os alemães possuem, desde há muitos anos, o futebol em que a técnica individual (não no sentido circense e comummente classificada como tal) melhor se expressa e, como não podia deixar de ser, ao serviço da equipa e das vitórias. Manifesta-se pela qualidade da recepção, do passe e do remate, pelo predomínio da objectividade, da linha recta e pela elevada quantidade de jogadores envolvidos nas acções - a matemática assim o exige.
Mas não é com este modelo minimalista de jogo que se fazem os espectáculos. Os grandes espectáculos de futebol fazem-se com a emoção da linha curva, do drible, do Olé, do rodriguinho, do erro, da simulação, do individualismo, das estrelas narcisistas, em suma: da teatralidade.

terça-feira, junho 24

Irresistível


… “Talvez tenha feito isso ou talvez não; alguma coisa fez, isso é certo – mas quem é capaz de distinguir o que é do que não é quando confrontado com semelhante mestra da falsidade? As cenas patéticas que ela improvisava! A pura hipérbole de tudo o que imaginava! O poder de autossugestão dos embustes que urdia! A convicção com que desenhava aquelas caricaturas!
Não vale a pena fingir que não contribuí para lhe alimentar o talento. Aquela que a princípio não terá passado de uma mentalidade mendaz e provinciana, tentada pela possibilidade de caçar uma boa presa, transformou-se, não pela fraqueza mas pela força da minha resistência, numa coisa maravilhosa e demencial, numa imaginação lunática e inebriante que – pondo de parte tudo o resto – reduzia ao ridículo absoluto as minhas convencionais conceções universitárias de verosimilhança na ficção e todas aquelas elegantes fórmulas jamesianas que tinha interiorizado sobre proporção, vias indiretas e tato. Levou tempo e custou sangue, e a verdade é que só quando comecei a escrever O Complexo de Portnoy consegui deitar cá para fora alguma coisa que se parecesse com o talento para a ousadia estonteante que ela tinha. Não há dúvida de que ela foi o meu pior inimigo de sempre mas, tenho de reconhecer, foi também o mais espantoso de todos os meus professores de escrita criativa, especialista por excelência em estética de ficção extremista.
Leitor, casei-me com ela.”    Philip Roth, Os Factos

No Público, aqui e aqui

quarta-feira, junho 18

Um longo passeio pelos greens (4)


O som dos spikes metálicos dos sapatos no granito das escadas íngremes do Pavilhão marcava a inquietude e a ansiedade de um tee time cada vez mais próximo. Mas tudo começara no dia anterior. Na limpeza meticulosa dos ferros Wilson que a prima da américa oferecera, na escolha da bola ainda embrulhada em celofane e reservada para a ocasião, na verificação da quantidade e do tamanho dos tees, no esticar e dobrar da luva encarquilhada, no toque no quarto de dólar americano que marcaria a bola nos greens. O polo azul Fred Perry e as calças de cor clara, já vincados pela mãe para lá das recomendações, e o brilho puxado nos sapatos fechavam, com o grau de discrição que a timidez exigia, mas também com o cuidado subtil de não passar despercebida, uma composição elegante.
E depois a noite longa, demasiado longa, de olhos apertados, a volta delineada nas voltas da cama, pancada a pancada, de uma regularidade e perfeição impossíveis, e o tempo que nunca mais passava, irrequieto e enervante, que o atirava para o relógio vezes sem conta. E quando o cansaço parecia vencer, a manhã precipitava-se. O alvoroço perturbava o silêncio de domingo e a surpresa disfarçada da mãe recordava-lhe as horas que ainda faltavam para o torneio, “Não é só à tarde?” Sim, era.
O Pavilhão, não sei porque lhe chamávamos assim, era uma antiga fonte de águas termais adaptada a clubhouse do campo de Golfe de Vidago. Entre o pavilhão e o tee do buraco 1 passava a avenida que ligava a fonte termal nº2 à fonte Salus, na extremidade do parque. Esta longa e longilínea avenida, apertada por plátanos, de saibro meticulosamente varrido, limitava, à direita, todo o percurso do primeiro buraco e servia de verdadeiro teste aos nervos de qualquer jogador. Mas era no perímetro do primeiro tee, em frente ao Pavilhão, que o espetáculo decorria. Tarde de domingo, bancos de madeira vermelhos vivos reservados desde cedo pela gente da terra que por ali ficava. Conhecedora dos meandros deste jogo elitista contrastava com a perplexidade dos aquistas que por ali passavam e que, surpreendidos pela estranha coreografia no relvado imaculado, paravam por breves momentos. A azáfama de jogadores e as correrias dos caddies até ao parque de estacionamento na disputa dos golfistas mais generosos rematavam o ambiente de festa. O afã que precedia as saídas das diversas formações de jogadores repetia-se, e o burburinho só diminuía pelo avançar do jogador chamado pela voz do starter e pelos primeiros movimentos de ensaio que precediam a posição definitiva.
Mas quando a nossa vez se aproxima já pouco se ouve e pouco se vê. A barriga aperta ainda mais, o tempo escoa-se. Quando avançamos para as marcas de saída, aqueles dez ou onze passos, aparentemente resolutos, deixam-nos sós num palco verde constrangedor. E então, orquestrados pelo código de um jogo que exige silêncio quando alguém se posiciona, toda aquela gente para e todos se centram em nós. É sempre nesta altura que alguém tosse, alguém se aproxima ainda, alguém diz uma palavra mais, alguém continua a andar no saibro da avenida para a fonte, e é nesse momento que a voz se faz ouvir de novo sobre as outras distraídas e exige que tudo pare. E é essa voz que perturba ainda mais, e todos param e sabemos que todos, sem exceção, se viraram para nós e esperam. E é nessa altura que se ouve o bater do coração e queremos sair dali. E tudo se precipita de uma forma mecânica: bola em cima do tee, três ou quatro passos atrás, movimentos de alongamento do corpo com swings ritmados num crescendo de vigor, memorização de um ponto para o alinhamento, regresso à posição definitiva, aproximação do ferro 2, ligeira correção da altura da bola, verificação da posição dos pés e mãos, olhar rápido para o objectivo, rosto apertado, olhos fixos na bola. O movimento de backswing, que devia ser mais lento e amplo, acelera para lá das rotinas que o treino parecia ter consolidado e desmorona a elegância necessária ao movimento. A correção instintiva do movimento transforma o final do voo da bola, vergonhosamente curta para um adolescente, numa curva para a direita roçando os plátanos da avenida. O embaraço espelha-se imediatamente no rosto após o som da pancada e alastra à gente mais velha da terra que não precisa de se levantar.
Mas é de lá que vem o toque no ombro ou a frase reconfortante, “Força, Ni!”.

sábado, junho 7

Não me lembro

Blue Jasmine

“Dormi tão bem,  … é disto que eu preciso, ter horas para dormir.  E tu? Conseguiste descansar? Olha, tens que me contar o finzinho do filme, estava desconcertada (piscar de olho) e agora que estava a pensar se ela tinha casado com ele … não me lembro … Bem, vou arranjar-me. Beijo.”   

sábado, maio 24

Um longo passeio pelos greens (3)


Durante duas semanas, numa pequena vila transmontana, o “golf”, esse desporto tão elitista e desconhecido para o comum cidadão português, relegava o futebol de Eusébio e Yazalde para um plano secundário. Em Setembro, os Torneios de Golf de Vidago representavam o culminar de uma preparação que se tinha iniciado aos primeiros dias primaveris. Eram quinze dias ininterruptos de golfe, num campo meticulosamente preparado e que aos primeiros sinais de Outono se transformava num local encantatório. Quinze dias de confronto com adversários vindos de longe. Quinze dias de ajuste e nivelamento sociais. Quinze dias que transformavam a pequena vila num pequeno mundo cosmopolita, de etiqueta, de silêncios, de exclamações. Quinze dias em que as conversas no Café se enchiam de anglicismos, de números, de decepções, de espantos, de regozijos, de promessas. Quinze dias que se esgotavam rapidamente e atiravam abruptamente o golfe para uma letargia potenciadora.