terça-feira, junho 24

Irresistível


… “Talvez tenha feito isso ou talvez não; alguma coisa fez, isso é certo – mas quem é capaz de distinguir o que é do que não é quando confrontado com semelhante mestra da falsidade? As cenas patéticas que ela improvisava! A pura hipérbole de tudo o que imaginava! O poder de autossugestão dos embustes que urdia! A convicção com que desenhava aquelas caricaturas!
Não vale a pena fingir que não contribuí para lhe alimentar o talento. Aquela que a princípio não terá passado de uma mentalidade mendaz e provinciana, tentada pela possibilidade de caçar uma boa presa, transformou-se, não pela fraqueza mas pela força da minha resistência, numa coisa maravilhosa e demencial, numa imaginação lunática e inebriante que – pondo de parte tudo o resto – reduzia ao ridículo absoluto as minhas convencionais conceções universitárias de verosimilhança na ficção e todas aquelas elegantes fórmulas jamesianas que tinha interiorizado sobre proporção, vias indiretas e tato. Levou tempo e custou sangue, e a verdade é que só quando comecei a escrever O Complexo de Portnoy consegui deitar cá para fora alguma coisa que se parecesse com o talento para a ousadia estonteante que ela tinha. Não há dúvida de que ela foi o meu pior inimigo de sempre mas, tenho de reconhecer, foi também o mais espantoso de todos os meus professores de escrita criativa, especialista por excelência em estética de ficção extremista.
Leitor, casei-me com ela.”    Philip Roth, Os Factos

No Público, aqui e aqui

quarta-feira, junho 18

Um longo passeio pelos greens (4)


O som dos spikes metálicos dos sapatos no granito das escadas íngremes do Pavilhão marcava a inquietude e a ansiedade de um tee time cada vez mais próximo. Mas tudo começara no dia anterior. Na limpeza meticulosa dos ferros Wilson que a prima da américa oferecera, na escolha da bola ainda embrulhada em celofane e reservada para a ocasião, na verificação da quantidade e do tamanho dos tees, no esticar e dobrar da luva encarquilhada, no toque no quarto de dólar americano que marcaria a bola nos greens. O polo azul Fred Perry e as calças de cor clara, já vincados pela mãe para lá das recomendações, e o brilho puxado nos sapatos fechavam, com o grau de discrição que a timidez exigia, mas também com o cuidado subtil de não passar despercebida, uma composição elegante.
E depois a noite longa, demasiado longa, de olhos apertados, a volta delineada nas voltas da cama, pancada a pancada, de uma regularidade e perfeição impossíveis, e o tempo que nunca mais passava, irrequieto e enervante, que o atirava para o relógio vezes sem conta. E quando o cansaço parecia vencer, a manhã precipitava-se. O alvoroço perturbava o silêncio de domingo e a surpresa disfarçada da mãe recordava-lhe as horas que ainda faltavam para o torneio, “Não é só à tarde?” Sim, era.
O Pavilhão, não sei porque lhe chamávamos assim, era uma antiga fonte de águas termais adaptada a clubhouse do campo de Golfe de Vidago. Entre o pavilhão e o tee do buraco 1 passava a avenida que ligava a fonte termal nº2 à fonte Salus, na extremidade do parque. Esta longa e longilínea avenida, apertada por plátanos, de saibro meticulosamente varrido, limitava, à direita, todo o percurso do primeiro buraco e servia de verdadeiro teste aos nervos de qualquer jogador. Mas era no perímetro do primeiro tee, em frente ao Pavilhão, que o espetáculo decorria. Tarde de domingo, bancos de madeira vermelhos vivos reservados desde cedo pela gente da terra que por ali ficava. Conhecedora dos meandros deste jogo elitista contrastava com a perplexidade dos aquistas que por ali passavam e que, surpreendidos pela estranha coreografia no relvado imaculado, paravam por breves momentos. A azáfama de jogadores e as correrias dos caddies até ao parque de estacionamento na disputa dos golfistas mais generosos rematavam o ambiente de festa. O afã que precedia as saídas das diversas formações de jogadores repetia-se, e o burburinho só diminuía pelo avançar do jogador chamado pela voz do starter e pelos primeiros movimentos de ensaio que precediam a posição definitiva.
Mas quando a nossa vez se aproxima já pouco se ouve e pouco se vê. A barriga aperta ainda mais, o tempo escoa-se. Quando avançamos para as marcas de saída, aqueles dez ou onze passos, aparentemente resolutos, deixam-nos sós num palco verde constrangedor. E então, orquestrados pelo código de um jogo que exige silêncio quando alguém se posiciona, toda aquela gente para e todos se centram em nós. É sempre nesta altura que alguém tosse, alguém se aproxima ainda, alguém diz uma palavra mais, alguém continua a andar no saibro da avenida para a fonte, e é nesse momento que a voz se faz ouvir de novo sobre as outras distraídas e exige que tudo pare. E é essa voz que perturba ainda mais, e todos param e sabemos que todos, sem exceção, se viraram para nós e esperam. E é nessa altura que se ouve o bater do coração e queremos sair dali. E tudo se precipita de uma forma mecânica: bola em cima do tee, três ou quatro passos atrás, movimentos de alongamento do corpo com swings ritmados num crescendo de vigor, memorização de um ponto para o alinhamento, regresso à posição definitiva, aproximação do ferro 2, ligeira correção da altura da bola, verificação da posição dos pés e mãos, olhar rápido para o objectivo, rosto apertado, olhos fixos na bola. O movimento de backswing, que devia ser mais lento e amplo, acelera para lá das rotinas que o treino parecia ter consolidado e desmorona a elegância necessária ao movimento. A correção instintiva do movimento transforma o final do voo da bola, vergonhosamente curta para um adolescente, numa curva para a direita roçando os plátanos da avenida. O embaraço espelha-se imediatamente no rosto após o som da pancada e alastra à gente mais velha da terra que não precisa de se levantar.
Mas é de lá que vem o toque no ombro ou a frase reconfortante, “Força, Ni!”.

sábado, junho 7

Não me lembro

Blue Jasmine

“Dormi tão bem,  … é disto que eu preciso, ter horas para dormir.  E tu? Conseguiste descansar? Olha, tens que me contar o finzinho do filme, estava desconcertada (piscar de olho) e agora que estava a pensar se ela tinha casado com ele … não me lembro … Bem, vou arranjar-me. Beijo.”   

sábado, maio 24

Um longo passeio pelos greens (3)


Durante duas semanas, numa pequena vila transmontana, o “golf”, esse desporto tão elitista e desconhecido para o comum cidadão português, relegava o futebol de Eusébio e Yazalde para um plano secundário. Em Setembro, os Torneios de Golf de Vidago representavam o culminar de uma preparação que se tinha iniciado aos primeiros dias primaveris. Eram quinze dias ininterruptos de golfe, num campo meticulosamente preparado e que aos primeiros sinais de Outono se transformava num local encantatório. Quinze dias de confronto com adversários vindos de longe. Quinze dias de ajuste e nivelamento sociais. Quinze dias que transformavam a pequena vila num pequeno mundo cosmopolita, de etiqueta, de silêncios, de exclamações. Quinze dias em que as conversas no Café se enchiam de anglicismos, de números, de decepções, de espantos, de regozijos, de promessas. Quinze dias que se esgotavam rapidamente e atiravam abruptamente o golfe para uma letargia potenciadora.

terça-feira, maio 13

Chá de Menta com Mel


Na Wikipédia: as mentas são plantas herbáceas vivazes. Em suas propriedades medicinais, é usada como anti-séptico, aromática, digestivo, estomáquica e expectorante. 

domingo, maio 11

Talvez o ato de egoísmo mais iluminado alguma vez registado


Otto Dix

Na tumultuosa Ucrânia, algo que a classe política europeia parece desconhecer:
“Os homens do dinheiro norte-americanos discutiram então de forma exaustiva um novo sistema financeiro internacional para o capitalismo e criaram o Plano Marshal, talvez o ato de egoísmo mais iluminado alguma vez registado. Se os europeus tivessem dinheiro no bolso, consideraram os norte-americanos, podiam comprar comida aos EUA, importar dos EUA maquinaria para reconstruir a sua indústria e – o mais importante – evitar o voto nos comunistas; por isso os EUA limitaram-se a dar-lhes 13,5 mil milhões de dólares, um vinte avos de toda a sua produção em 1948.”  Ian Morris, O Domínio do Ocidente, p.532.

domingo, abril 27

Vasco Graça Moura, Auto-retrato com a musa


1.
vejo-me ao espelho: a cara
severa dos sessenta,
alguns cabelos brancos,
os óculos por vezes
já mais embaciados.
sobrancelhas espessas,
nariz nem muito ou pouco,
sinal na face esquerda,
golpe breve no queixo
(andanças da gilette).
ia a passar fumando
mais uma cigarrilha
medindo em tempo e cinza
coisas atrás de mim.
que coisas? tantas coisas,
palavras e objectos,
sentimentos, paisagens.
também pessoas, claro,
e desfocagens, tudo
o que assim se mistura
e se entrevê no espelho,
tingindo as suas águas
de um dúbio maneirismo
a que hoje cedo. e fico
feito de tinta e feio.
2.
quem amo o que é que pode
fazer deste retrato?
nem sabê-lo de cor,
nem tê-lo encaixilhado,
nem guardá-lo num livro,
nem rasgá-lo ou queimá-lo,
mas pode pôr-se ao lado
e ter prazer ou pena
por nos achar parecidos
ou não achar. quem amo
não fica desenhado,
fica dentro de mim
e é quando mais me apago
e deixo de me ver
e apenas me confundo,
amador transformado
na própria coisa amada
por muito imaginar.
assim nem john ashberry,
nem o parmigianino,
nem espelho convexo,
nem mesmo auto-retrato.
só uma sombra que é
na sombra de quem amo
provavelmente a minha.
3.
quem amo tem cabelos
castanhos e castanhos
os olhos, o nariz
direito, a boca doce.
em mais ninguém conheço
tal porte do pescoço
nem tão esguias mãos
com aro de safira,
nem tanta luz tão húmida
que sai do seu olhar,
nem riso tão contente,
contido e comovente,
nem tão discretos gestos,
nem corpo tão macio.
quem amo tem feições
de uma beleza grave
e música na alma.
flutua nas volutas
de um madrigal antigo
em ondas de ternura.
é quando eu sinto a musa
pousando no meu ombro
sua cabeça. assim
me enredo horas a fio
e fico a magicar.

segunda-feira, abril 21

Um longo passeio pelos greens (2)




Mas é com o campo que o verdadeiro desafio se faz, qualquer jogador de golfe sabe isso.
Experimentem jogar em Vidago, no outono - a verdadeira essência da natureza, de uma natureza que se apresenta como emanação de um deus. Mas não se deixem iludir: toda aquela beleza, aparentemente espontânea, não passa de um logro. Por debaixo de toda aquela harmonia está o dedo perverso de um deus qualquer medieval - exigente, inclemente, quase sempre devastador, raras vezes acolhedor. Quem o desenhou fê-lo para nos seduzir e depois, creio cada vez mais, para nos corromper e para nos vexar.

Coloquemo-nos de um ponto de vista exterior, nos olhos do criador. Desçamos o monte íngreme de terra pobre e agreste, feito de fragas e penedos de granito, coberto de giesta, urze, rosmaninho, estevas, tojos, pinheiros, carrascos e cedros, e quando o monte descansa a paleta de cores altera-se radicalmente, incendeia-se: os verdes sem estação da montanha dão lugar a um vale de paleta rica em tons flamejantes açucarados.    E a escala de tudo aquilo! Se quisermos registar na nossa memória todo esplendor de cor, de texturas e luz, a altura e robustez dos plátanos e dos cedros, os áceres, os belíssimos tons amarelos dos castanheiros-da-índia, os amarelos, laranjas, vermelhos e castanhos dos frondosos carvalhos-americanos, os bordos nas terras ricas com o seu luminoso amarelo-ouro com notas avermelhadas, os longilíneos e trémulos choupos-negros com o seu amarelo-ocre, os freixos, amieiros e salgueiros que ladeiam o ribeiro que percorre todo o vale, a perfeição das tílias, a desmesura da sequoia-vermelha - que viverá por mil anos, o chão juncado de folhas que apertam o relvado, reduziremos o homem a uma infinita e insignificante pequenez.
E como se tudo isso não bastasse, o que nos toca mais no meio daquilo tudo é o silêncio. O silêncio absoluto. E a dimensão do absoluto mede-se paradoxalmente pela nitidez dos trinados dos rouxinóis, pelo canto limpo e repetido dos tordos, pelo restolhar dos melros nas folhas secas. E é esse silêncio que nos comove, e é esse silêncio que nos coloca num lugar indeterminado, num vazio inquietante difícil de detalhar e de compreender.

Perante esta explosão simultânea de violência e de tranquilidade, o que fazem os jogadores de golfe?
Cegos, perseguem uma bola.