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domingo, maio 6

De Vidago a Lisboa. Sotto in sù.

41°38¢37²N    7°35¢17²O

41°10¢36² N    7°45¢02²O

40°57¢15² N   7°53¢29²O

40°21¢53² N   8°09¢36²O

40°11¢38² N   8°29¢13²O

39°29¢00² N   8°38¢14²O

39°03¢12² N   8°56¢34²O

38°47¢07² N   9°07¢10²O

38°41¢03² N   9°10¢33²O


terça-feira, março 20

Choupos, áceres, castanheiros-da-índia ...

Ana Filipa

Sou de uma pequena vila onde uma falha geológica faz brotar águas minerais gaseificadas, que uma empresa se lembrou de vender em pequenas garrafas verdes. Eram homens de bom gosto, diga-se. Construíram um magnífico hotel, o Palace, e rodearam-no por milhares e milhares de árvores das mais variadas espécies e das mais variadas latitudes. Tudo isto começou há muitos anos. Agora, plátanos vigorosos misturam-se com todas as espécies de cuprésseas, choupos, áceres, castanheiros-da-índia, amieiros, carvalhos-americanos, uma sequóia gigante - que viverá por mil anos; copas de tílias de uma perfeição incrível pontuam uma paisagem que no Outono atinge a perfeição. Não exagero se disser que os de Vidago conhecem as árvores uma a uma. O meu pai também.
Gosto de quem gosta de árvores. Uma boa escola trata bem delas. É uma atitude altruísta e nobre esta de plantar e de ensinar, porque os seus frutos, se os houver, só aparecerão muito tempo depois e fundamentalmente para os outros.
Entrei pelo portão de baixo e percebi que ia gostar da Fernão Mendes Pinto. A um frondoso pinheiro-manso e a duas oliveiras já adultas, que marcam um dos limites da escola, sucedem-se cedros, nespereiras, árvores de incenso e do frio, ameixeiras-silvestres de um vermelho intenso, figueiras, olaias e tantas outras, todas elas jovens e viçosas. Por toda a escola, o cuidado mantém-se: um belo e discreto cipreste marca o terceiro pavilhão; um cedro e um pinheiro pujantes aconchegam a biblioteca; palmeiras e uma bananeira dão um toque meridional; tílias recentes, e ainda tão frágeis, unirão com a sua sombra os vários blocos; variadíssimas espécies suavizam e embelezam os limites da escola.
Terão entre os treze e os dezoito anos. São das mais variadas espécies, de origens diversas, com formas e graus de desenvolvimento diferentes. Para tratar delas um batalhão de silvicultores, botânicos, jardineiros e especialistas da nossa flora. Uns, poucos, não gostam daquilo que fazem e acham que as espécies já não são o que eram, que as ferramentas não são as mais adequadas, que o tempo se alterou irremediavelmente. Os outros, uma larga maioria, são estudiosos, preocupados, generosos, partilham conhecimentos e experiências, estão atentos na observação de cada uma. Perante o sucesso, um inefável bem-estar apodera-se deles, face ao insucesso, agem com mais determinação, mexem na terra, revolvem-na, analisam-na, combatem os fungos e as ervas daninhas, compensam-na com fertilizantes de acordo com as necessidades da cada espécie, são meticulosos nas regas para as não asfixiar com excesso de água ou definhá-las com a falta dela. Dentro deste grupo, uns há, que as estacam, que as dirigem na direção que acham certa, podam-nas de acordo com seu gosto, moldam-nas conforme a educação que tiveram, preferem certo tipo de árvores – as mais dóceis. Outros gostam da diversidade, preferem deixá-las crescer livremente preocupando-se exclusivamente com criação das melhores condições para que esse desenvolvimento se faça e se potencie as capacidades de cada uma.


quinta-feira, fevereiro 2

Guimarães




Quando o calendário do campeonato de futebol da 1ª divisão determinava o Guimarães-Sporting, dois pequenos leões começavam a contar os domingos que faltavam para o jogo que representava a oportunidade mais próxima de verem uma equipa que só conheciam dos relatos da rádio.
Os avisos repetidos vezes sem conta colocavam a viagem a par das grandes aventuras. A saída ainda de madrugada permitia várias paragens num percurso tortuoso que começava no Café Capri, local de encontro e “centro cultural de Vidago”, propriedade do Manel “Capri” - homem aberto, dinâmico, multifacetado -, e terminava, aproximadamente, cento e trinta quilómetros depois, no centro de Guimarães. A sinuosidade que acompanhava todo o percurso intensificava-se atingindo o grau máximo na terrível e mítica serra do Marão. Os noviços leões de olhos bem fixos na estrada, por recomendação dos mais experientes, tentavam adiar sem sucesso os avassaladores e fétidos enjoos. Os ares frescos da montanha restituíam alguma cor à pequenada e arrefeciam o exausto motor do automóvel do Senhor Pinheiro. O Magalhães, como lhe chamava meu pai, era homem seco de carnes, de cabelo puxado a brilhantina, de fingida arrogância que se transformava num afável cavalheiro ao volante do seu Opel Record preto.
“Estamos quase”, dizia.
E depois Guimarães. Guimarães representava para mim o princípio da civilização: o imponente Castelo e a estátua de D. Afonso Henriques dos livros de História, o rebuliço no largo do Toural, os jardins coloridos de desenho primoroso e bem cuidados. Nesta peregrinação anual, os velhos leões não se poupavam a um requintado manjar no restaurante Jordão. A acompanhar o café, as aguardentes e os cigarros, as conversas eram naturalmente pautadas pela fluência e inteligência do Felisberto, o francês, com quem o meu pai tanto gostava de falar. Vejo-o de gabardine clara e jornal debaixo do braço, madeixa caída sobre óculos estreitos esverdeados e permanentemente envolto numa nuvem de fumo de cheiro inconfundível a cigarros gauloise. Era o único emigrante que trazia amigos em vez de fortuna.
Na entrada do estádio, de bancadas a toda à volta, as mãos dos mais pequenos apertavam-se à dos pais e só se soltavam quando as equipas alinhadas se apresentavam nos seus equipamentos imaculados e botas bem engraxadas: o Carvalho, todo vestido de preto e leão ao peito, impressionava-me, tal como a elegância do Alexandre Baptista, as pernas arqueadas do Zé Carlos, a robustez do maestro Peres; do outro lado, retenho o branco total do equipamento do Vitória e a impressão de estarmos perante uma equipa do mesmo nível. Sem pestanejar, acompanhávamos o jogo com as exclamações naturais de quem se sente protegido e seguíamos atentos, tão habituados estávamos, a agitação dos relatos radiofónicos dos transístores à nossa volta.
Ao regresso, com as conversas em surdina dos mais velhos, encostado ao ombro do meu pai, o cansaço vencia-me e o percurso tornava-se mais linear e mais rápido. 

sábado, dezembro 24

Um branco puríssimo, imaculado.



No alto do Reigás o meu pai engatava a terceira, não fosse o gelo fazer das suas. No volkswagen azul levávamos o coração e as mãos a ferver de tanto brincar na neve. Descíamos cuidadosamente o monte. À terceira curva, de onde avistaríamos Vidago, lá no fundo, via-se um imenso e denso nevoeiro que tudo aplanava. Era quase sempre assim: geada atrás de geada e um frio de rachar que o nevoeiro perpetuava por dias sem fim. Mas neve, em Vidago, a tão desejada neve, essa, cercava-nos à distância do desejo.
Na semana do Natal, trocávamos as brincadeiras de rua pela escolha criteriosa do pinheiro e do musgo, pela colocação das figuras de barro no presépio de novo refeito, pelo borralho da braseira onde se torrava pão, pelo cheiro dos fritos que nos avisava da proximidade da madrugada das prendas no sapatinho.
Recordo-me que o dia de consoada era longo, muito longo. O repasto, excepcionalmente mais tarde, começava com o depenicar de uns macios bolos de bacalhau. Depois, entravam fumegantes postas de bacalhau cozido com batatas farinhentas do barroso e couve troncha passada pelo azeite e alho, que eram substituídas pela pequenada pelo polvo, também ele cozido. No fim, os doces – rabanadas de leite e água, jirimuns lambidos em suave calda de açúcar perfumada com pau de canela, línguas de abade, leite-creme bem marcado pelo ferro, pratos de aletria decorados com a mestria da minha mãe - enchiam de novo uma mesa ainda composta.
Íamos para cama muito cedo na tentativa de acelerar um relógio que naquele dia teimava em atrasar-se. Depois o sonho começava ainda com os olhos bem abertos e terminava abruptamente com um safanão do meu irmão. O Pai Natal era sempre muito generoso – arranjava sempre o fim mais desejado para os nossos sonhos.
Durante a missa de Natal, contávamos aos amigos as prendas recebidas e marcávamos encontro para a única matiné do ano. Bem, naquele Natal de 67, depois de um almoço tradicional – o divinal Cabrito Assado no Forno – entrámos para o Cine-Vidago do senhor Germano, para ver mais um filme do Cantinflas. Eram só miúdos e a algazarra só parou ao acender das luzes coloridas que indicavam o início da projecção. As gargalhadas sucederam-se de princípio a fim e quando saímos… bem, quando saímos, fomos encontrar um incrível manto de neve de um branco puríssimo, imaculado, acabado de cair, que nos fez os miúdos mais felizes do mundo!

quarta-feira, outubro 5

Jazz no Douro


           Por esta época, desde há oito anos, nas cepas do Douro, os cachos são substituídos por notas musicais que são transportadas para as salas de espetáculos de várias cidades transmontanas. Aqui, os enólogos da música combinam-nas harmoniosamente, fazem-nas fermentar e logo a seguir engarrafam-nas com rótulos de marca swing, blues, folk, country e jazz, inebriando os fãs destas castas. Esta espirituosa bebida que se toma pelo ouvido faz logo surtir os seus efeitos evidenciados no abanar da cabeça e no acompanhamento feito inadvertidamente pelo corpo.

            No fim, sabe bem complementar este estado de espírito com a combinação de aromas e paladares nascidos da cepa, num gesto de apelação à sintonia entre o vinho e a música, entre o Douro e o Jazz.

            Um brinde aos músicos e aos vinicultores.

Até jazz
J Carvalho

           

quarta-feira, setembro 28

O Primeiro de Janeiro








A minha avó lia o jornal no dia seguinte. Desde que se reformara ficava pelas páginas dos crimes e roubos que, convenhamos, não perdiam a actualidade de um dia para o outro. Assim, em minha casa sempre me lembro de dois jornais que identificava imediatamente pela frescura do papel e pelo local do poiso. Um chegava impreterivelmente às sete e dez, hora a que o meu pai regressava para jantar, o outro, já descomposto por outros olhares, no quarto da minha avó Felisbela que, pelos seus óculos de professora e num contínuo sibilar de atrocidades, passava parte da sua tarde horrorizada com os tempos que corriam. Eram tempos do Primeiro de Janeiro, que se diferenciava pela independência em relação aos governos de então, do rival Comércio do Porto, mais popular e alinhado, e do paroquial JN, ainda sem expressão nacional. Anos sessenta.

Quanto a mim, ainda miúdo, virava as páginas do jornal à procura de algo que os mais velhos pareciam encontrar, numa cadência rápida que só o futebol conseguia contrariar. No Verão, claro, analisava minuciosamente as classificações da Volta a Portugal em Bicicleta e na penúltima página, ao lado das palavras cruzadas e das sete diferenças, sempre tão óbvias, as tiras do Mandrakee e do Fantasma. Ao domingo, intrigava-me a tira de três quadradinhos do Príncipe Valente que já ia na casa dos milhares e nunca consegui perceber quem seguiria tal história e quando teria começado.

A ideia do jornal como caixinha de surpresas vem daí e ainda se mantém. Abro-o com a curiosidade de quem desembrulha algo, com a expectativa de encontrar não sei bem o quê que me fixe a atenção distraída. E encontro. Nos diversos jornais online que consulto há, cada vez mais, quem escreva muito bem, quem ilustre ou fotografe com grande sensibilidade, quem faça publicidade com grande criatividade. Neste ritual diário que começa pelas capas dos jornais, tropeço sempre no mau gosto da primeira página de um “jornal” que usa o nome de O Primeiro de Janeiro.

quarta-feira, agosto 3

A Carrinha do Paulo

Renault 4L, 50 anos



Tinha um aspecto pálido e uma estrutura estranha; dava uma impressão de deformidade sem, contudo, apresentar uma malformação definida; comportou-se com um misto desconcertante de timidez e ousadia, e exprimia-se com um bater rouco de motor esforçado que não se traduzia em velocidade. Todos estes pormenores depunham em seu desfavor, mas durante alguns anos representou para um grupo de amigos um espaço de liberdade e de sonhos.

segunda-feira, agosto 1

Cartas de Vidago, A Caixa






Chaves, 30 de Julho de 2011
Caro amigo António!
            Ao abrigo da nossa já antiga relação de cordialidade e cooperação endereço-te mais uma carta que tu podes, como sabes, dar a conhecer se lhe vires algum interesse editorial. Desta vez tinha até vontade de lhe dar forma manuscrita, ao estilo do antigo papel de carta, mas as novas e vantajosas tecnologias penetraram de tal forma nos nossos hábitos que já não se conseguem contornar. Qualquer desajeitado pode fazer maravilhas com elas.
            Tem-te a ti como destinatário, mas tem como narratário um universo indiferenciado de leitores que tenham capacidade de literacia suficiente para a interpretar.
            A sequência dos teus mais recentes posts de Amós Oz e a confraternização da Heineken, fizeram-me lembrar uma conhecida alegoria da antiguidade clássica e que eu tenho vontade de adaptar para ilustrar e dar mais consistência a esses posts. Então aí vai:
            Tudo funcionava harmoniosamente naquela ilha. Todos contribuíam com o seu trabalho e com as suas atitudes para que a harmonia não fosse abalada pelo menor deslize. O segredo para tudo isso estava guardado numa caixa que jazia na recôndita e inviolável câmara de um templo imemorial. Essa caixa guardava todos os defeitos e maleitas da humanidade. Lá estava a mentira, a cobiça, a desonestidade, a arrogância, a xenofobia, a petulância, a avareza, a inveja, a ganância, o snobismo provinciano, a falsa modéstia e tantos outros de uma lista lamentavelmente extensa. Essa ilha era o nosso mundo. A curiosidade dos homens foi mais forte do que a inviolabilidade do segredo e, quando a caixa se abriu, avidamente se libertaram agoirentas, venenosas, malévolas, maquiavélicas, destruidoras, penetrantes, traiçoeiras, contagiosas, todas aquelas maleitas sociais. Em forma de pomba branca as mais hipócritas, em forma de abutre as mais frontais, todas se apoderaram da estabilidade daquela ilha. Foi a partir daí que começaram a aparecer os usurários, os pobres, os ricos, os invejosos, os hipócritas, os vigaristas, os ditadores, os diabos, os deuses, os padres, os moralistas… e os políticos. De então para cá, forças antagónicas protagonizadas por estas figuras têm-se digladiado num emaranhado aparentemente insolúvel.

O bom gosto, o bom senso, a harmonia, a cooperação, a tolerância, a solidariedade, a cordialidade são valores que têm sido ciclicamente renovados e aniquilados por estas lutas ao longo da história. Parece-me que estamos actualmente na fase da sua aniquilação. Agora, a caixa está inviolavelmente fechada à espera que apareça uma força social e humana suficientemente poderosa para encerrar as falsas pombas e os abutres agoirentos e assim regenerar aqueles valores.  
Proponho um caloroso e prolongado brinde a esse momento. Não precisa de ser com flute de D. Pérignon ou Möet Chandon; pode ser com uma garrafa de Heineken… ou Sagres.
Um brinde com abraço sincero e cordial
José M. Carvalho

segunda-feira, julho 25

Cartas de Vidago, Europe, aide moi! Europe, help me! Europa, helf mich!

 





Num texto de opinião publicado há alguns anos constatava eu que “… a mão que apertámos à Europa estava oleosa e escorregadia…” e a seguir vaticinava “…em breve, ela [a Europa] estará longe e indiferente às nossas lamentações, mas perto e intransigente para as suas exigências. Com efeito, o desenrolar dos acontecimentos confirmou a constatação e o vaticínio. A necessidade de ajuda continuou, mas não rumo a uma posição sólida e sustentável que nos permitisse retribuí-la. O desfecho desta constante dependência poderia ter sido trágico se não fosse uma nova oportunidade concedida pela estrutura em que estamos inseridos e que deverá ser utilizada não só para nos salvar mais uma vez do naufrágio como também para manter aquela estrutura intacta. Saibamos por isso aproveitá-la para não andarmos constantemente de mão estendida como um elo fraco sempre na iminência de se despegar.

Depois de muitas golfadas de oxigénio injectadas ao longo de mais que uma década, chegámos ao início do século XXI com o oxigénio gasto, mas continuámos numa frágil jangada porque não segurámos a mão da Europa com firmeza para seguirmos no sólido paquete que nos levasse a bom porto. Durante os últimos dez anos, a jangada balançava por cima de uma tempestade camuflada e prestes a eclodir. O paquete seguia de perto, transmitindo alguma segurança, mas parecia demasiado distante para o socorro no caso de a tempestade rebentar. Esta deu finalmente os seus sinais, agravados por alguns torpedos de marca “rating” que quase viraram a ‘balsa’ e até provocaram alguns danos no navio.




Depois de tão ameaçadora ofensiva, a tripulação reagiu finalmente numa atitude que se impunha há mais tempo e se vislumbra protectora não só para os iminentes náufragos como para todo o casco que necessita de urgente reparação. Resta a todos os passageiros e tripulantes, sem excepção, seguirem estritamente todas as regras para que no paquete haja um lugar seguro para todos e que se mantenha sólido e resistente a ameaças, sejam elas naturais ou fabricadas.




José M. Carvalho

















terça-feira, julho 19

Cartas de Vidago, Crise versus rating

El País


É preciso ficarmos endividados e entalados numa crise sem fim à vista para percebermos que há umas todas-poderosas instituições que sentenciam acerca da nossa pobreza apontando com o seu dedo penalizador: não emprestes mais dinheiro àquele, corres o risco de ficar sem ele. Já todos sabemos pela experiência e pela História que há sempre quem se queira aproveitar da miséria alheia. Seja pela usura, seja pelo aproveitamento das carências das vítimas, esse oportunismo pode assumir várias formas. O que me parece estar em causa no presente, confirmada por várias análises, é a descredibilização intencional para daí alguém tirar dividendos. Somos pobres e desprotegidos, mas ainda nos querem fazer mais pobres, para ficarmos ainda mais desprotegidos e assim termos que um dia pagar a protecção bem cara, com iminente perigo para as liberdades e direitos individuais. É a exploração do homem pelo homem na sua essência mais vil e primitiva, envolvida por uma capa moderna e sofisticada cheia de gráficos, números, percentagens e anglicismos contundentes. Tudo evolui, mas há mecanismos que se mantêm inalterados desde que há mais de dez mil anos, o homem descobriu que se for mais forte se sente na legitimidade de aniquilar o mais fraco.


Portugal é um país com uma língua falada por mais de duzentos milhões de pessoas; tem potencial humano que teve papel fundamental na reconstrução do caos deixado pela segunda guerra mundial; nos últimos vinte anos renasceu de um enorme atraso estrutural; tem o direito de se reclamar um dos pioneiros de um mundo global com mais de quinhentos anos; ajudou a descobrir e a edificar o maior e mais poderoso país do mundo; teve a capacidade de absorver mais de um milhão de retornados das ex-colónias; orgulha-se de ter uma diáspora que tem dado provas de responsabilidade, perseverança e capacidade de trabalho; forma técnicos e quadro superiores com lugares de destaque em todo o mundo. Apenas enunciando algumas qualidades. Um país com estas características é considerado “lixo”. Com que bases nos colocam num patamar tão fedorento? Que legitimidade têm estas instituições que mandam tapar o nariz aos que nos querem visitar? Porque só existem três, e todas sedeadas no mesmo país? O poder tem-se concentrado de tal forma que basta um estalar de dedos para arruinar uma grande empresa, uma região ou um país. É caso para inferir: está legitimada a bomba atómica da economia? Os alvos estão indefesos e as vítimas estão inocentes. Cuidado! Aprenda-se com a História e encontrem-se outras soluções. Relembro que o recurso à letal bomba foi aplicado porque se tratava de um país agressor com intenções de domínio planetário. E nós, somos um país agressor? Por que nos querem fazer mal? Porque estamos integrados num conjunto que poderá ser agressor? A Europa, no seu conjunto, tem-se afigurado muito mais como uma aliança reguladora do que agressora, por isso não vejo razões para tanta hostilidade. Portugal, apesar de todas as potencialidades, apenas tem um enorme problema que nunca mais consegue resolver: consegue muito melhor desempenho laboral fora do país do que dentro das suas fronteiras. Problema justificado pelos fracos recursos nacionais comparados com os de outros países. Mesmo assim poderiam explorar-se muito melhor. E foi aqui que desperdiçámos a soberana oportunidade de criar também uma estrutura produtiva competitiva e sustentável. Podemos pelo menos contar com uma boa recuperação estrutural que em muito contribuiu para o nosso endividamento. Agora que não se pode regressar ao passado, resta-nos rentabilizar essas estruturas privilegiando a produção em detrimento do pavoneio exibicionista alimentado pelo consumismo descontrolado. Será que ainda vamos a tempo? Não basta cortar na despesa e aumentar as receitas sempre com a contribuição dos mesmos sacrificados. Para o pagamento da dívida e a criação de condições de sustentabilidade têm que ser convocados todos os agentes para que seja feita uma distribuição equitativa de responsabilidades e a proporcional atribuição das tarefas a desempenhar tendo em vista nobres desígnios de afirmação, dignidade e soberania.


José M. Carvalho

domingo, julho 17

Cartas de Vidago, Geração Vinil




Eis a designação dada à noite de 9 de Julho última, para um programa com jantar e “dancing all night long” no Casino de Chaves.Do Vinil ao ipod, a espera não foi longa, mas é suficiente para ter muitas saudades das longas e animadas sessões de bailes de garagem, soirées dançantes, tardes de discoteca e noites ébrias de boémia, sempre ao som da eternizada música do vinil dos anos 70 e 80.Saudades atenuadas nesta noite em que o Casino de Chaves tirou alguns anos e quilos do peso cinquentão de muitos presentes. A sessão começou com os deliciosos “milhos com fumeiro” como couvert às 9 da noite e terminou com alguns litros de água às 3 horas da manhã. O resto da ementa poderia ter recorrido mais à variedade transmontana, e assim o Chef de cozinha teria evitado o excesso de carne de porco e de sal. Retirando esta pequena contrariedade, tudo foi perfeito para ajudar ao rejuvenescimento dos “cotas” que voltaram a ser “teenagers” durante algumas horas. Foram momentos em que até as carecas se recobriram de cabelos, o grisalho recoloriu-se, as rugas alisaram-se, os discos das vértebras foram todos ao sítio, as bengalas foram todas postas de lado, o corpo agilizou-se e tolerou um copinho a mais e o espírito agradeceu.
Espera-se que a aliança entre as músicas e os seus fãs continue em mais sessões idênticas, que perdure e ajude à intemporalidade de uma época que marcou indelevelmente várias gerações. (assim seja, àmen)





José Manuel Carvalho

quinta-feira, julho 14

Cartas de Vidago - Quando for grande não quero ser…

Quando for grande não quero ser como ninguém desta gente com quem agora lido e no entanto me faz crescer. São eles que vão fazer de mim o que eu não quero ser. Ainda não sei o que quero ser, mas sei que não quero ser como eles. Eles tratam-me bem, dão-me prendas, fazem-me festas e são simpáticos comigo. Ensinam-me coisas sem se aperceberem e eu aprendo-as sem querer umas e por querer outras. Mas mesmo assim não quero ser o que eles são. Gente de bem, gente de mal. Uns polidos e engravatados, outros decrépitos e nauseabundos. Todos bem-intencionados mas todos com algo que eu não quero ser: defeitos do ser humano que uns têm sem querer, que outros gostam de evidenciar e que eu gostaria de eliminar.
Quando for grande quero ser eu.
José M. Carvalho

sábado, junho 4

Cartas de Vidago, Reencontros


A juventude é a fase da vida em que as vivências são mais intensas e as relações pessoais sofrem uma grande diversidade de níveis com altos e baixos, ensaios e experiências que se resolvem ou complicam de um instante para o outro. É quando se fazem as amizades que tanto se podem perpetuar como não passarem de efémeras relações que as circunstâncias propiciam. Umas ficam presas a confidências proibidas, outras a tropelias e aventuras desreguladas próprias da idade, outras ainda a ideias, princípios ou temperamentos próximos e unificadores. É o estádio em que as evidências do crescimento físico e psíquico mais evoluem, se transformam e se comparam, podendo constituir marcas indeléveis do crescimento e contribuir para a auto-estima do futuro adulto.
Foi esta panóplia de sensações e vivências que trouxe cerca de quatro dezenas de antigos colegas do então Liceu Nacional de Chaves, agora Escola Secundária Fernão de Magalhães, a reunirem-se à volta de um almoço comemorativo num restaurante dos arredores da cidade de Chaves. Quase todos frequentavam esta escola no quinto ano do antigo ensino liceal, no ano de 1974 com a histórica marca do Dia 25 de Abril. A partir deste ano, estes adolescentes começaram a divergir, devido a opções, rumos ou ritmos de vida inconciliáveis com a manutenção de um relacionamento regular. Uns conseguiram alimentar esse relacionamento, alguns cruzavam-se casual ou esporadicamente, outros deixaram de se ver na época em que a cor e a densidade dos cabelos podiam justificar a moda de então, e só se reencontraram mais de trinta anos depois já com a cobertura capilar rarefeita ou descolorida, mas ainda com as costas direitas e sem apêndices locomotores, aptos para fazer uma reconstituição das malandrices acrobáticas dos tempos passados.
Entre abraços, beijinhos e olhares apeladores da memória, os antigos estudantes foram-se entrosando e relembrando situações que os ligasse num episódio qualquer. Abeiraram-se das iguarias e tomaram o seu lugar no repasto. Depois das conversas apanharem o fio, desfilaram as narrativas dos inesquecíveis episódios académicos em que costumavam ser protagonistas alguns professores e alunos mais perspicazes ou mais rebeldes. Foi um verdadeiro reviver de tempos que não entraram no esquecimento. Tempos de uma geração de jovens que não podiam contar com as facilidades actuais como são as novas tecnologias ou a boleia diária até à entrada da escola. Em compensação, tiveram a oportunidade de brincar na rua, de se organizarem com autonomia para se entrosarem nos seus passatempos sem a necessidade da constante vigilância dos familiares. Cresceram sem serem constantemente mimados com a última geração de um gadget qualquer; sentiram as dificuldades e muitos tiveram que as vencer à sua custa sem apoios ou ajudas. E, por ironia, são eles que agora se vêem quase obrigados a proporcionar aos seus filhos as condições que nunca tiveram. São vicissitudes da evolução a que o ser humano tem a grande capacidade de se adaptar, resolvendo ressentimentos originados por aquelas situações mais difíceis.
Aquele grupo de cinquentões e cinquentonas com estas características comuns, e muitos outros que a diáspora não permitiu que ali estivessem, têm justificado o módico investimento que o país fez com eles. A época não era de vacas gordas e o ensino tinha que ser ao mesmo tempo massivo, eficaz e barato. Daí os métodos pedagógicos não serem muito sofisticados e alguns dos seus aplicadores não terem outro remédio senão cingir-se a instrumentos persuasores requeridos pela obrigatoriedade de ensinar depressa e bem ou improvisados a partir de qualquer caule lenhoso. As histórias e episódios à volta destes métodos passaram a fazer parte do património literário popular e não há conversa sobre a educação daqueles tempos que não inclua pitorescas, sórdidas ou ridicularizantes situações passadas nas salas de aula. Apesar de tudo, esta geração nunca foi apelidada de geração rasca, nem geração à rasca, pois teve a desenvoltura suficiente para se desenrascar, numa época em que a conjuntura conseguia absorver mais postos de trabalho. Alguns da geração actual mostram querer desenrascar-se, mas vieram encontrar quase tudo feito, num ritmo alucinante, pelas gerações anteriores. Estes e todos nós poderemos ficar à rasca dentro de mais alguns anos, só porque alguém está a instituir o rejuvenescimento por decreto, isto é, de repente todos nós temos que ficar mais novos por força da lei. Isso até daria muito jeito, mas era se acontecesse na realidade e não apenas nos decretos e diplomas que nos obrigarão a ser novos até aos setenta anos ou mais. Se os legisladores e decisores conseguirem transformar a natureza por decreto, estes convívios comemorativos poderão até fazer-se de 35 em 35 anos. Caso contrário, e é com isso que temos que contar, é melhor organizá-los com mais frequência, vislumbrando já, que no dia seguinte teremos que ter a algália preparada para meter na pasta ou no equipamento que levamos para o trabalho.
José Manuel Carvalho

segunda-feira, maio 16

Cartas de Vidago, VADE RETRO SATANA

Fotografia da C.M. Montalegre

A região de Montalegre e Barroso aparenta um aspecto agreste e inóspito. A parte real desta aparência afugentou muitos autóctones e exigiu aos que por lá ficaram grande esforço e criatividade para poderem sobreviver em tão adversas condições. Estas terras, em vez de terem sido abençoadas por Deus, parece terem sido amaldiçoadas pelo Diabo. No entanto, todas as sextas-feiras coincidentes com o dia treze, o Diabo que tão mal quis a estas terras acaba por ser o que lhes dá a vida e a razão de existir, num quiproquó em que o feitiço se vira contra o feiticeiro. E aquela terra aparentemente repulsiva cobre-se de corpos e almas a fazê-la prosperar. A passada sexta-feira, dia 13 de Maio, foi mais um desses dias, desta vez a concorrer com o Dia de Nossa Senhora Fátima e das aparições. Controvérsias e coincidências que poderão ter deixado alguns peregrinos hesitantes.
Maldições, diabos, diabretes, teias, morcegos, mochos, caldeirões, bruxas, olharapos e um sem fim de adereços agoirentos, associados a sons, cheiros, cores, sombras e penumbras são os ingredientes para a criação de um ambiente em que o misticismo, a festa, a diversão e o espectáculo se aliam para proporcionar uma envolvência original a que milhares de visitantes não têm resistido, aumentando de ano para ano. Restaurantes e alojamentos ficam lotados com meses de antecedência e, nos dias já há muito marcados pelo calendário, todos os caminhos vão dar a Montalegre numa peregrinação que já vai cheirando a promessa: “na próxima cá estarei”. Não é preciso vir a pé ou de joelhos porque o Diabo não contempla esses sacrifícios, embora os aprecie. E tanto os aprecia que já tem lançado o feitiço não só em Barroso como por todo o país e a nível global, obrigando-nos brevemente a andar a pé, de joelhos, de rastos e a pedir. Este Diabo tem andado por aí disfarçado de Santo fazendo alianças traiçoeiras com a Humanidade. E esta, por inépcia ou por conveniência tem-se deixado comprar e hipnotizar a poder de chorudas ofertas e presentes envenenados. Temo que contra este já seja tarde demais para fazer festas e esconjuros. É urgente proferir a fórmula “VADE RETRO” a este Satanás e agir em conformidade.

José M. A. Carvalho

terça-feira, maio 3

Árvores de Vidago

"Devemos ser como as árvores – ter raízes na terra mas do alto das copas olhar o mundo à volta."
                                                                                                    Georges Santayana


segunda-feira, abril 25

Mil anos

Na primeira aula e para justificar este meu ar gasto, costumo perguntar aos alunos se imaginam há quanto tempo estou na escola. Perante o encolher de ombros tento responder com alguma naturalidade: não sei se é neste ou no próximo ano que faço mil. Alguns riem, outros, cruéis, acreditam. É verdade, entrei aos 4/5 anos pela mão da Senhora Professora Felisbela, minha avó, e ainda não saí. Não exagero se disser que, desde muito pequeno, tudo o que se relaciona com Escola - o ensino, professores, alunos, exames, ministros da educação - é o tema da conversa que pauta regularmente as refeições de minha casa.
Em manhãs primaveris seguia a minha avó até à escola em Vila Verde de Oura, perto de Vidago. Levava a pequena ardósia, um caderno e meia dúzia de lápis de cor onde me refugiava dos primeiros olhares dos alunos. Não ia sempre porque só atrapalhava e a professora reprovava a excessiva liberdade do neto.
Recordo com particular acuidade as bofetadas que a minha avó dava ao Augusto. Mesmo para os seus catorze anos, o Augusto era grande e forte, o dobro dela, dócil, gentil, mas incapaz de fazer a quarta classe. Desesperava-a pela falta de memória e pela incapacidade de resolver o que quer que fosse. “Augusto baixa-te…” O rapaz, submisso, vergado pela vergonha, aproximava-se, e zás… Não usava a régua, mas paralisava os quarenta e tal alunos de roupas remendadas das quatro classes com o olhar por cima dos óculos ou, em último caso, com a ameaça de “Vou dizer ao teu pai.
Quando os dias se tornavam maiores e o exame da 4ª classe se aproximava, arrastava-os para a varanda da nossa casa e prolongava até à noite as aulas, os raspanetes e os puxões de orelhas. Tempos difíceis aqueles!
O que recordo da escola dos anos sessenta é o ambiente tenso, o medo que nos roía as entranhas, os velhos mapas de um Portugal imenso, os rostos de Salazar e Américo Tomás que ladeavam a cruz de Cristo, a ladainha das tabuadas, os sublinhados vermelhos dos erros ortográficos. E o Ilídio, o herói da classe, que ultrapassava todos os limites e levava tantas reguadas quantos os erros dados, sem verter uma lágrima! Recordo, ainda, alguns anos mais tarde, o emigrante Augusto dobrar-se novamente perante a minha avó, agora para agradecer todo o empenho e interesse demonstrados. “Queria o nosso bem, ah!” – e não se enganava.

Já na minha adolescência, e com o 25 de Abril, a educação foi finalmente considerada como factor diferenciador e decisivo do regime democrático. A escola, tal como o país, transformou-se numa festa e aberta a todos. Democratizou-se, humanizou-se e levou para o seu seio toda a diversidade e os problemas de uma sociedade pobre e analfabeta. Até aí, a escola pública servia para simplesmente ensinar a ler, a escrever e a contar, e, para uns quantos, muito poucos, um meio de chegar à faculdade.

Se o espaço escolar se tornou num local aprazível, já a sala de aula, na sua essência, não se alterou significativamente, não podia (embora alguns “iluminados reformadores” nos pedissem que também a sala de aula fosse uma festa), nem pode ser diferente, porque para os jovens que todos os dias têm de ultrapassar dificuldades, de se confrontar com eles próprios e com os outros, aprender é entrar em contacto com as coisas que não se conhecem e o que se desconhece faz medo. E é por isso que a relação entre alunos e professores na sala de aula se mantém naturalmente tensa. Mas nem por isso os nossos alunos, tal como o Augusto, deixam de reconhecer a importância que cada um de nós tem para as suas vidas, pela atenção e generosidade dispensadas. Já não tiram o chapéu nem se dobram, mas sorriem, com um sorriso que nós conhecemos tão bem e nos enche a alma.

sexta-feira, abril 8

Cartas de Vidago, Para cá do mar

Entre dois ambientes e formas de gozar as sempre ambicionadas férias, mini férias, fins-de-semana e outras escapadelas, a generalidade da população continua a seguir a tendência iniciada pouco depois da segunda metade do século vinte: a troca do campo, do termalismo e do turismo de montanha, pela maresia, o marulhar, o sol, o mar, a areia, o bronze e os biquínis… A magia e o inebriamento deste ambiente foram mais fortes e arredaram os veraneantes do interior para o litoral, num desequilíbrio vertiginoso. O fluxo de tráfego inverteu-se e todos os caminhos e placas apontaram para o oeste e o sul atraindo os turistas numa corrida desenfreada de carros e carrinhas com malas e tejadilhos a abarrotar. Nesta direcção seguiram também as betoneiras para adensar a floresta de betão que entretanto medrou exponencialmente. Em seu detrimento, durante as últimas quatro décadas, milhares de camas de hotéis e pensões do interior ficaram vazias, enferrujadas ou carunchosas. Os seus salões, outrora palcos de animadas festas e atracções variadas, encheram-se de teias e largam pedaços de estuque, deixando vislumbrar uma impossível recuperação. À medida que os anos passam, mais se acentua a falta de esperança de ver aquelas decrépitas ruínas ressurgirem do inexorável abandono. O escombro parece ser o destino mais certo. Numa verdadeira apologia à ressuscitação, o homem verga-se perante a conjugação do belo natural e do arquitectónico e chega a tempo de restaurar o esplendor do Vidago Palace Hotel e a sua envolvência, evitando que também seja dizimado pela lei do abandono. Salva-se assim do escombro um irredutível recanto cuja beleza resiste e sempre consegue fragilizar a insensibilidade, impondo-se aos autores do paralelepípedo à beira mar plantado. Imponência, requinte, luxo são parcas palavras para caracterizar o resultado desta obra que se colou com fidelidade à sua origem do início do século XX e contrasta com o espaço completamente novo do SPA de linhas arquitectónicas actuais. Aqui, o cheiro a maresia é substituído por um “cocktail” de aromas feito com os ingredientes silvestres das variedades de árvores e arbustos, que não só perfumam o ar como conferem à paisagem a aprazível cor verde da ramagem e da relva tratada com esmero. A Primavera salpica-a com a ponta do pincel multicolor. No Verão, com temperaturas menos suportáveis, sabe bem o refúgio debaixo da frondosa folhagem. E o Outono, com a sua palete de tonalidades gradativas, pinta-a como nenhum outro artista, deliciando a vista ao espectador. O Inverno, não é por ser o mais frio, nebuloso e sombrio que desfeia o panorama. Ele tem também a sua beleza. A neblina do fim das curtas tardes começa a ofuscar os ramos agora despidos criando um clima de um certo misticismo. A temperatura desce, os ombros aconchegam a gola do casaco ao pescoço e chega o momento de sentir o reconfortante crepitar das achas que alimentam o fogo da lareira convidando ao relaxamento, à reflexão ou à amena cavaqueira, com o olhar posto na variância das chamas. Nesta região, longe do mar, não se ouve o marulhar das ondas mas sim o murmúrio das folhas quando são agitadas pela brisa. Também se ouve o silêncio das montanhas que ajuda ao restabelecimento depois de meses de balbúrdia citadina. Em vez de se sulcar a vasta imensidão de água com as quilhas das mais variadas embarcações de recreio, pode-se sulcar picadas montanhosas e florestais com os cascos do cavalo ou com os pneus do todo-o-terreno. Pode-se estimular a adrenalina voando na asa delta, no pára-pente ou no cabo de aço, imitando o planar das grandes rapaces ou o voo picado do falcão. Pode sentir-se a agradável sensação de ver a bola de golfe a rasgar o ar depois de uma tacada desferida com todo o rigor que a modalidade exige e vê-la pouco depois a entrar no buraco, inebriando-se com o sabor triunfal de ter conquistado uma pancada ao “par” do campo. Os apetecíveis courts de ténis fazem também parte deste rol, para quem gosta de ouvir o som recheado do impacto da bola na raquete. E, depois de toda esta azáfama recreativa e de lazer, só falta mesmo o reconfortante Sanus Per Aqua com os relaxantes banhos, jactos e jacuzzi. Para os saudosistas da época áurea do termalismo, não há melhor escolha. Para ajudar a limpar as mazelas do inferno citadino, tem aqui o paraíso um sério concorrente, com a vantagem de se poder usufruir dele em vida. Psicólogos, psiquiatras e outros terapeutas da mente e do espírito, poderão contar com mais um conteúdo para as suas receitas. Amantes da calma, do repouso e da meditação têm aqui o seu espaço recomendado. Amantes do coração encontram aqui os recantos ideais para uma recheada dedicação e envolvimento. Os adoradores do sol, do mar e da areia fazem bem em dar descanso à sua pele e experimentar outras formas de revigorar os seus corpos. A recuperação deste espaço turístico pode despoletar a restauração e reactivação de outros, contribuindo para o despertar de uma letargia já longa. Cabe aos organizadores, promotores, divulgadores turísticos e às próprias direcções dos estabelecimentos hoteleiros a criação e concertação de atractivos e ofertas adaptadas aos recheios das mais variadas bolsas e aos interesses dos visitantes no sentido de rentabilizar os investimentos feitos e de dinamizar o turismo e a economia regional.
José Manuel Carvalho (j-carvalho@sapo.pt)

terça-feira, fevereiro 15

Five of the best European golf resorts

Vidago Palace

"The original nine-hole course was designed by Mackenzie Ross in 1936 and profits from a forest of mature trees. These holes have been remodelled by course designer Cameron & Powell to create six longer holes, and 12 new holes added. The variety of challenges, cheeky deep bunkers and a mid-fairway pigeon coop amongst them, will keep the interest of all levels of golfer, with the back tees giving a course length of more than 6,300 metres."
Condé Nast Traveller

quinta-feira, novembro 4

Vidago




Fotos de Luis Barreira

Os dias anteriores tinham sido de chuva copiosa, mas àquela hora e aos primeiros rasgos de Sol o contacto com o campo foi arrebatador. Eu sabia, aliás, quem conhece Vidago sabe o que o Outono desencadeia naquela terra e em particular no campo de golfe do Palace Hotel – incendeia-os. As fortes sensações provocadas pelos amarelos, vermelhos e verdes (cores que Goethe associava ao calor e à felicidade) esmagam-nos, comovem-nos. E depois o silêncio, a dimensão de tudo que nos envolve. Sim, a escala faz toda a diferença. Resignamo-nos.
Conseguiria eu renunciar a este estado de hipnose, de deslumbramento? Como poderia jogar golfe?

quinta-feira, outubro 7

Vidago Palace Hotel

No JN: "Igual por fora, muito diferente por dentro. O Vidago Palace Hotel reabre, hoje, após uma profunda remodelação que lhe garantiu mais uma estrela (cinco) e o tornou membro do clube dos melhores hotéis do mundo. José Sócrates presidirá à inauguração.

Mármore de Veneza, tapeçaria do tradicional ponto de Beiriz, folha de ouro verdadeiro, tintas da conceituada Farrow & Ball…As obras de restauro do Vidago Palace Hotel, que hoje irão ser inauguradas pelo primeiro-ministro, José Sócrates, quiseram devolver a "dignidade" e a "ambição" que o rei D. Carlos queria que o edifício tivesse para então receber os membros de casas reais europeias. Por outras palavras: que o Vidago Palace Hotel fosse um "edifício do mundo", explica Rosário Pinto dos Santos, directora de vendas e marketing da G.L.A HOTELS, a multinacional que a Unicer escolheu para gerir o majestoso hotel.

Mais de cem anos depois, essa universalidade que o monarca ambicionava parece cumprir-se. O Vidago Palace Hotel foi recentemente admitido como membro permanente da Smal Leading Hotels of the World, uma marca que representa os melhores hotéis do mundo, num total de 500 unidades de luxo, espalhadas por 70 países."