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terça-feira, janeiro 20

E a noite roda, Alexandra Lucas Coelho



O eterno conflito israelo-palestiniano serve de fundo a um romance como tantos outros. Leio regularmente os textos de Alexandra Lucas Coelho no Público e não estranhei a prosa. Aliás, gosto desde há muito: concisa, atenta ao pormenor, surpreendente bela. Uma bela prenda de Natal.


"O nosso quarto tem uma cama de ferro que range e uma janela sobre o vale. Cestinho deixado pela Meritxell para a primeira manhã: queijo Garrotxa, compota de framboesa, pão escuro, tomates. Tu cortas os gomos, retiras as grainhas, claramente uma rotina. Fico a olhar as tuas mãos, toda a existência de gestos firmes anteriores a mim, e sinto uma dor absurda, como um membro amputado há séculos. Não vivi contigo o que já viveste, e isso é ao mesmo tempo irreversível e inaceitável."

segunda-feira, janeiro 12

Brilhante


"Ao retomar o seu autoexame, admitiu que havia sido um mau marido - duas vezes. Daisy, a primeira mulher, tinha-a ele tratado sordidamente. Madeleine, a segunda, tinha tentado arruiná-lo. Para o filho e para a filha era um pai carinhoso mas mau. Para os pais, tinha sido um filho ingrato. Para a pátria, um cidadão indiferente. Para os irmãos e irmãs, afetuoso mas distante. Com os amigos, egoísta. No amor, indolente. perante tudo o que era brilhante, mortiço. Em relação ao poder, passivo. E com a sua alma, evasivo."


"Queria dizer-lhe que salpicasse o soalho. Estava a levantar demasiado pó. Dentro de minutos gritar-lhe-ia: «Molhe o chão, senhora Tuttle. Há água no lava-loiça.» Mas ainda não. Nesse momento não tinha nenhuma mensagem para ninguém. Nada. Nem uma única palavra."
Saul Bellow, Herzog

domingo, outubro 26

O Legado de Humboldt, Saul Bellow


"Ninguém se torna interessante com a loucura, a excentricidade ou outras coisas do género, mas em virtude do poder de cancelar a distração, a atividade e o ruído do mundo e porque se mostra capaz de ouvir a essência das coisas."

Saul Bellow chega livro após livro à essência das coisas.

quinta-feira, agosto 28

Para Martin Amis, o grande romance da literatura americana. É verdade, não vale a pena procurar mais.


"O corpo de Stella, com o cheiro morno de mulher, estava coberto de água, começando a partir de uma linha tranquila acima dos seios. ... Sentei-me com o roupão pendurado no ombro e senti-me extremamente em paz. ... Eu sentia-me instalado e descontraído, o meu peito livre e os meus dedos abertos e confortáveis. E é aí que está a coisa. É preciso um momento como este para percebermos como o nosso coração anda angustiado e, além disso, todo aquele tempo em que pensávamos estar a vaguear ociosamente, estava a ser realizado um trabalho duríssimo. Sem nos apercebermos, estávamos a esforçar-nos duramente, cavando e escavando, abrindo minas e túneis, levantando, empurrando e carregando pedras, trabalhando, trabalhando, trabalhando, trabalhando, arfando, transportando, içando. E nada disto pode ser visto do lado de fora. É tudo feito internamente. Isto acontece porque nos sentimos impotentes e incapazes de obter justiça ou resposta, e, então, dentro de nós, trabalhamos, guerreamos e combatemos, ajustamos contas, recordamos insultos, brigamos, reagimos, negamos, palramos, denunciamos, triunfamos, enganamos, superamos, vingamo-nos, choramos, persistimos, absolvemos, morremos, ressuscitamos. E fazemos isto tudo sozinhos! Onde é que está toda a gente? Dentro do nosso peito e da nossa pele, o elenco inteiro."

Saul Bellow, As Aventuras de Augie March, Quetzal

terça-feira, julho 22

Morrem Mais de Mágoa, Saul Bellow



"Mas por que viajaria ele tanto? Florestas indianas, montanhas chinesas, selvas brasileiras, a Antárctida. Confessava que a sua irrequietude tinha uma causa erótica, mas nunca conseguiu apresentar a forma de interpretá-la. Havia desejos contraditórios em jogo. Numa idade em que se tem o Eros de um lado e Thanatos do outro disputando campos, é muito natural que se faça as malas e se parta  para um aeroporto, em vez de se ficar à espera de ver o resultado. Vale mais andar-se em movimento? A correr para se manter a libido activa? Isto nunca lembraria a um garanhão."

terça-feira, junho 24

Irresistível


… “Talvez tenha feito isso ou talvez não; alguma coisa fez, isso é certo – mas quem é capaz de distinguir o que é do que não é quando confrontado com semelhante mestra da falsidade? As cenas patéticas que ela improvisava! A pura hipérbole de tudo o que imaginava! O poder de autossugestão dos embustes que urdia! A convicção com que desenhava aquelas caricaturas!
Não vale a pena fingir que não contribuí para lhe alimentar o talento. Aquela que a princípio não terá passado de uma mentalidade mendaz e provinciana, tentada pela possibilidade de caçar uma boa presa, transformou-se, não pela fraqueza mas pela força da minha resistência, numa coisa maravilhosa e demencial, numa imaginação lunática e inebriante que – pondo de parte tudo o resto – reduzia ao ridículo absoluto as minhas convencionais conceções universitárias de verosimilhança na ficção e todas aquelas elegantes fórmulas jamesianas que tinha interiorizado sobre proporção, vias indiretas e tato. Levou tempo e custou sangue, e a verdade é que só quando comecei a escrever O Complexo de Portnoy consegui deitar cá para fora alguma coisa que se parecesse com o talento para a ousadia estonteante que ela tinha. Não há dúvida de que ela foi o meu pior inimigo de sempre mas, tenho de reconhecer, foi também o mais espantoso de todos os meus professores de escrita criativa, especialista por excelência em estética de ficção extremista.
Leitor, casei-me com ela.”    Philip Roth, Os Factos

No Público, aqui e aqui

domingo, abril 27

Vasco Graça Moura, Auto-retrato com a musa


1.
vejo-me ao espelho: a cara
severa dos sessenta,
alguns cabelos brancos,
os óculos por vezes
já mais embaciados.
sobrancelhas espessas,
nariz nem muito ou pouco,
sinal na face esquerda,
golpe breve no queixo
(andanças da gilette).
ia a passar fumando
mais uma cigarrilha
medindo em tempo e cinza
coisas atrás de mim.
que coisas? tantas coisas,
palavras e objectos,
sentimentos, paisagens.
também pessoas, claro,
e desfocagens, tudo
o que assim se mistura
e se entrevê no espelho,
tingindo as suas águas
de um dúbio maneirismo
a que hoje cedo. e fico
feito de tinta e feio.
2.
quem amo o que é que pode
fazer deste retrato?
nem sabê-lo de cor,
nem tê-lo encaixilhado,
nem guardá-lo num livro,
nem rasgá-lo ou queimá-lo,
mas pode pôr-se ao lado
e ter prazer ou pena
por nos achar parecidos
ou não achar. quem amo
não fica desenhado,
fica dentro de mim
e é quando mais me apago
e deixo de me ver
e apenas me confundo,
amador transformado
na própria coisa amada
por muito imaginar.
assim nem john ashberry,
nem o parmigianino,
nem espelho convexo,
nem mesmo auto-retrato.
só uma sombra que é
na sombra de quem amo
provavelmente a minha.
3.
quem amo tem cabelos
castanhos e castanhos
os olhos, o nariz
direito, a boca doce.
em mais ninguém conheço
tal porte do pescoço
nem tão esguias mãos
com aro de safira,
nem tanta luz tão húmida
que sai do seu olhar,
nem riso tão contente,
contido e comovente,
nem tão discretos gestos,
nem corpo tão macio.
quem amo tem feições
de uma beleza grave
e música na alma.
flutua nas volutas
de um madrigal antigo
em ondas de ternura.
é quando eu sinto a musa
pousando no meu ombro
sua cabeça. assim
me enredo horas a fio
e fico a magicar.

quinta-feira, janeiro 2

O Herói Discreto, Mário Vargas Llosa


Não será uma obra-prima, não deslumbra, mas deu-me um imenso prazer ler o último livro de Vargas Llosa. Sabor a novela sul-americana, bem escrito como um prémio nobel sabe, personagens simples, relações complexas. Só para vos aguçar o apetite: Felícito Yanaqué tem uma amante muito mais nova – Mabelita, de uma beleza exuberante; para deserdar os filhos, Ismael, um octogenário rico, casa com a empregada escandalosamente jovem. Tudo isto ligado pelo casal de outros romances de Vargas Llosa - Lucrécia e Rigoberto, mestres da volúpia.



segunda-feira, novembro 25

O Caminhante Solitário, W. G. Sebald



Sobre a obra de Robert Walser: “…Como havemos de compreender um autor que tantas sombras ameaçadoras acossaram, e que no entanto derrama a cada página a mais cativante luz? Um autor que cultivava o humor por puro desespero, que escreveu quase sempre a mesma coisa sem nunca se repetir, que chegava a não entender o seu próprio pensamento agudizado até ao mais ínfimo pormenor, que sem tirar os pés da terra andava sempre perdido na atmosfera, cuja prosa tem a propriedade de se dissolver na leitura de tal modo que umas horas depois já quase não nos lembramos dos personagens, dos acontecimentos e das coisas de que tratava?”

Sebald transcrevendo Walser: “As minhas costas estão a ficar corcundas pois fico durante horas dobrado sobre uma palavra que tem que percorrer o longo caminho entre o cérebro e o papel”

terça-feira, outubro 1

Austerlitz, de Sebald



" ... ao lançar o primeiro olhar à folha na manhã seguinte, encontraria os piores erros, incongruências e dislates. Muito ou pouco que tivesse escrito parecia sempre, a uma leitura posterior, tão destituído de fundamentos que tinha que o destruir sem demora e começar de novo. Em breve se me tornou desagradável dar sequer o primeiro passo. Como um equilibrista que deixa de saber como se põe um pé à frente do outro no arame..."

" Adele envolta em peças de lã castanho-esverdeada com milhões de gotículas de água agarradas à vaporosa orla franjada, a formar uma espécie de resplendor prateado em seu redor. Na dobra do braço direito trazia um grande ramo de crisântemos cor de ferrugem e quando atravessámos o pátio lado a lado sem uma palavra e parámos à entrada, ela ergueu a mão livre e compôs o cabelo da minha testa, como se soubesse que por esse único gesto seria sempre lembrada."

domingo, setembro 22

Livros de um verão trôpego


 O primeiro, a evitar; o segundo, a confirmação de um grande livro; e o último deste verão trôpego, a grande revelação - prosa fluida, de uma elegância e beleza surpreendentes.

terça-feira, março 19

Faz hoje 80 anos

Philip Roth por Joe Ciardello

A América comemora. Das 30 personalidades das letras americanas ouvidas, 77% acham que Philip Roth é o melhor escritor vivo americano. Eu não sei se é, porque só conheço bem a obra dele, mas votaria também nele pelo prazer que me tem proporcionado livro após livro.

De Engano, (D.Quixote), o último publicado em portugal:
"Para ti, o ideal é quando essas mulheres com emoção não conseguem sequer contar a sua história, antes lutam por conhecer a sua história. É nisso que tu encontras o erotismo. E o exotismo. Cada mulher uma foda, cada foda uma Xerasade. Não foram capazes de ter acesso à sua verdadeira história, e há no facto de a contarem uma espécie de compulsão para completar a vida... e isso tem muito de phatos. Claro que é excitante; o simples fluir do som que elas produzem, a intimidade da conversa, para ti são excitantes. O excitante não está necessariamente nas histórias em si, mas na necessidade que elas têm de as produzir . A matéria bruta, inarticulada, o que está simplesmente latente, é a realidade, nisso tens razão. a vida antes de sobrevir a narrativa é a vida. Elas tentam preencher por palavras próprias o fosso enorme que separo o ato em si da sua transformação em história. E tu ouves com atenção e apressas-te a registar por escrito o que ouves e depois estraga-lo com a tua maldita mania de transformar tudo em ficção."

quarta-feira, março 6

Correcções, um poderoso romance



Joe Ciardiello
"Era pateticamente óbvio que acreditava que os seus livros lhe renderiam centenas de dólares. Virou as costas às suas reprovadoras lombadas, lembrando-se de como cada um daqueles livros o chamar, numa livraria, com a promessa de uma crítica radical da recente sociedade capitalista, e de como se sentia feliz por levá-los para casa. Mas Jurgen Habermas não tinha as pernas compridas, frescas e em forma de pereira de Julia; Theodor Adorno não tinha o cheiro racimoso de flexibilidade lasciva de Julia, e Fred Jameson não tinha a língua ardilosa de Julia." 
Jonathan Franzen, Correcções



segunda-feira, fevereiro 25

O elogio da imperfeição, José Tolentino de Mendonça



Excerto de uma entrevista ao SOL

No seu livro Nenhum Caminho Será Longo afirma que a perfeição é impossível. Devemos aceitar-nos como somos?
Interessa-me muito mais fazer o elogio da imperfeição. Entender e abraçar a imperfeição, que é muito mais humana e verdadeira. O ideal da perfeição torna-se banal, estandardizado. A imperfeição carrega a singularidade, as marcas biográficas, o que corresponde ao vivido.
Isso não vai contra o ‘não pecarás’?
Gosto desta definição: um santo é um pecador que não desiste. O caminho espiritual que a Igreja propõe é esse, um caminho de maturação, de transformação permanente. Tem a ver com o que podemos dar a cada tempo da nossa vida. Não é o homem que foi feito para a lei, é a lei que é feita para o homem. E é feita para o homem crescer, maturar, ter hipótese de ser em plenitude. A palavra pecado, na sua origem, significa falhar o alvo. O pecado é isso: quando não acertamos no essencial. Mas com essas falhas também se aprende. Tudo é caminho.
É primeiro padre e depois poeta, é primeiro poeta e depois padre, ou a poesia e o sacerdócio são indissociáveis?
Perante uma folha em branco nós não somos nada. A folha em branco exige-nos esse exercício de ignorância. Estamos sempre a começar. O que somos não interessa, o que escrevemos não interessa. Interessa escrever a primeira palavra como se fosse a primeira palavra do mundo. Essa é a experiência da poesia.

quinta-feira, janeiro 17

Eusébio Macário



Adicionar ao cesto é uma tentação, é fácil, os descontos são maiores e os portes gratuitos. Pagar com o cartão de crédito torna o valor perigosamente simbólico. O tempo estimado de entrega suportar-se-ia não fosse a fnac falhar todos os prazos previstos. A espera fez-me saltar de livro em livro até esta dedicatória:

“Minha querida amiga
Perguntaste-me se um velho escritor de antigas novelas poderia escrever, segundo os processos novos, um romance com todos os “tiques” do estilo realista. Respondi temerariamente que sim, e tu apostaste que não. Venho depositar no teu regaço o romance, e na tua mão o beijo da aposta que perdi.” 
Camilo Castelo Branco

E fiquei por Eusébio Macário e a Corja, divertido, recordando expressões e um vocabulário que permaneceram até à minha infância. 

“- Bebo à saúde do gentil fruto do inteligente e assaz conhecido farmacêutico, o senhor Eusébio Macário, meu amigo e senhor. Eu já sabia por experiência de enfermo, que o benemérito filho de Hipócrates manipulava no seu laboratório remédios eficazes para dores; mas agora acabo de ver e saber que também os sabe manipular para refrigério de amores. O deus Esculápio abraça-se com Cupido. Eu faço votos por que o nosso ilustre amigo, o senhor comendador Bento José Pereira Montalegre, não gaste da botica do senhor Eusébio Macário senão a linda filha, a droga mais doce, mais balsâmica que ele produziu, para a qual vejo que todos olham com inveja, excepto aquele a quem tenho a honra de saudar, o ilustríssimo comendador Montalegre, unindo-o no brinde àquela que já está pelo coração, a esbelta Custodinha!”  

quarta-feira, dezembro 12

Enamoramentos


Na contracapa: este romance é, acima de tudo, uma investigação metafísica sobre a vida, a morte, o amor e a moralidade. E um fascinante tratado sobre o enamoramento...
Só retiraria o adjectivo à última frase e salientaria a constante referência ao romance O coronel Chabert, de Balzac. Reflectem Marías e Balzac sobre a impossibilidade de alguém regressar a um lugar quando todo o contexto se alterou. O livro de Javier Marías é muito mais do que um romance. É, sobretudo, uma reflexão crua sobre a vida.

     Quem segue o regresso do sargento Nicholas Brody, na fabulosa série Homeland (Fox, canal 89), encontrará em Enamoramentos um complemento oportuno.



"Sim, todos somos arremedos de pessoas que nunca chegámos a conhecer, gente que não se aproximou e passou ao largo da vida de quem agora queremos, ou que se deteve mas se cansou com o tempo e desapareceu sem deixar rastro ou só a poeira dos pés que vão fugindo, ou que morreu para aqueles que amamos causando-lhes mortal ferida que quase sempre acaba cicatrizando. Não podemos pretender ser os primeiros, ou os preferidos, somos apenas quem está disponível, os restos, as sobras, os sobreviventes, o que vai ficando, os saldos, e é com esse pouco nobre que se edificam os maiores amores e se fundam as melhores famílias, disso provimos todos, produto da casualidade e do conformismo, dos descartes e das timidezes e dos fracassos alheios, e mesmo assim daríamos qualquer coisa às vezes para continuar junto de quem resgatámos um dia de um sótão ou de um leilão, ou tiramos à sorte nas cartas ou nos recolheu dos detritos; inverosimilmente conseguimos nos convencer dos nossos fortuitos enamoramentos, e são muitos os que creem ver a mão do destino no que não é mais do que uma briga de aldeia quando o verão já agoniza…"


terça-feira, outubro 30

Goodbye Columbus, Philip Roth


"Então ouvimos o tempo do verbo em que tínhamos falado e caímos em nós e no silêncio.
Minutos depois, peguei na minha mala e vesti o casaco. Penso que a Brenda também estava a chorar quando abri a porta para sair."

Sinopse, aqui.

sábado, setembro 1

Leituras de Verão. De um folêgo só.




"Dessa massa era eu feito - dessa melancolia aos supetões, dessa esquizofrenia que dominava os meus passos ali, em Lisboa ou em qualquer outro lugar do mundo. E, no entanto, não conseguia deixar de voltar todos os anos à procura de mais, inspirando aquele ar húmido e sorvendo aquele cheiro da terra e prostrando-me perante aquela névoa permanente que era ao mesmo tempo um castigo divino e o afago solícito e trapalhão do próprio Deus ...". Joel Neto

"Uma coisa parecia certa: no dia vinte e cinco de Abril de mil novecentos e setenta e quatro, faltaria ainda um bom bocado para as sete da manhã, Celestino apertou a cartucheira à cintura, enfiou a Browning a tiracolo, verificou o tabaco e as mortalhas, esqueceu-se do relógio pendurado num prego que também segurava um calendário e saiu porta fora. O céu começava a clarear. Ou talvez nem sequer tivesse começado a clarear." João Ricardo Pedro