domingo, abril 27

Vasco Graça Moura, Auto-retrato com a musa


1.
vejo-me ao espelho: a cara
severa dos sessenta,
alguns cabelos brancos,
os óculos por vezes
já mais embaciados.
sobrancelhas espessas,
nariz nem muito ou pouco,
sinal na face esquerda,
golpe breve no queixo
(andanças da gilette).
ia a passar fumando
mais uma cigarrilha
medindo em tempo e cinza
coisas atrás de mim.
que coisas? tantas coisas,
palavras e objectos,
sentimentos, paisagens.
também pessoas, claro,
e desfocagens, tudo
o que assim se mistura
e se entrevê no espelho,
tingindo as suas águas
de um dúbio maneirismo
a que hoje cedo. e fico
feito de tinta e feio.
2.
quem amo o que é que pode
fazer deste retrato?
nem sabê-lo de cor,
nem tê-lo encaixilhado,
nem guardá-lo num livro,
nem rasgá-lo ou queimá-lo,
mas pode pôr-se ao lado
e ter prazer ou pena
por nos achar parecidos
ou não achar. quem amo
não fica desenhado,
fica dentro de mim
e é quando mais me apago
e deixo de me ver
e apenas me confundo,
amador transformado
na própria coisa amada
por muito imaginar.
assim nem john ashberry,
nem o parmigianino,
nem espelho convexo,
nem mesmo auto-retrato.
só uma sombra que é
na sombra de quem amo
provavelmente a minha.
3.
quem amo tem cabelos
castanhos e castanhos
os olhos, o nariz
direito, a boca doce.
em mais ninguém conheço
tal porte do pescoço
nem tão esguias mãos
com aro de safira,
nem tanta luz tão húmida
que sai do seu olhar,
nem riso tão contente,
contido e comovente,
nem tão discretos gestos,
nem corpo tão macio.
quem amo tem feições
de uma beleza grave
e música na alma.
flutua nas volutas
de um madrigal antigo
em ondas de ternura.
é quando eu sinto a musa
pousando no meu ombro
sua cabeça. assim
me enredo horas a fio
e fico a magicar.

segunda-feira, abril 21

Um longo passeio pelos greens (2)




Mas é com o campo que o verdadeiro desafio se faz, qualquer jogador de golfe sabe isso.
Experimentem jogar em Vidago, no outono - a verdadeira essência da natureza, de uma natureza que se apresenta como emanação de um deus. Mas não se deixem iludir: toda aquela beleza, aparentemente espontânea, não passa de um logro. Por debaixo de toda aquela harmonia está o dedo perverso de um deus qualquer medieval - exigente, inclemente, quase sempre devastador, raras vezes acolhedor. Quem o desenhou fê-lo para nos seduzir e depois, creio cada vez mais, para nos corromper e para nos vexar.

Coloquemo-nos de um ponto de vista exterior, nos olhos do criador. Desçamos o monte íngreme de terra pobre e agreste, feito de fragas e penedos de granito, coberto de giesta, urze, rosmaninho, estevas, tojos, pinheiros, carrascos e cedros, e quando o monte descansa a paleta de cores altera-se radicalmente, incendeia-se: os verdes sem estação da montanha dão lugar a um vale de paleta rica em tons flamejantes açucarados.    E a escala de tudo aquilo! Se quisermos registar na nossa memória todo esplendor de cor, de texturas e luz, a altura e robustez dos plátanos e dos cedros, os áceres, os belíssimos tons amarelos das nogueiras-da-índia, os amarelos, laranjas, vermelhos e castanhos dos frondosos carvalhos-americanos, os bordos nas terras ricas com o seu luminoso amarelo-ouro com notas avermelhadas, os longilíneos e trémulos choupos-negros com o seu amarelo-ocre, os freixos, amieiros e salgueiros que ladeiam o ribeiro que percorre todo o vale, a perfeição das tílias, a desmesura da sequoia-vermelha - que viverá por mil anos, o chão juncado de folhas que apertam o relvado, reduziremos o homem a uma infinita e insignificante pequenez.
E como se tudo isso não bastasse, o que nos toca mais no meio daquilo tudo é o silêncio. O silêncio absoluto. E a dimensão do absoluto mede-se paradoxalmente pela nitidez dos trinados dos rouxinóis, pelo canto limpo e repetido dos tordos, pelo restolhar dos melros nas folhas secas. E é esse silêncio que nos comove, e é esse silêncio que nos coloca num lugar indeterminado, num vazio inquietante difícil de detalhar e de compreender.

Perante esta explosão simultânea de violência e de tranquilidade, o que fazem os jogadores de golfe?
Cegos, perseguem uma bola.

segunda-feira, abril 14

Regresso às Belas-Artes.

Rita

(7.ª EDIÇÃO – GAB-A GALERIAS ABERTAS DAS BELAS-ARTES)

O amarelo forte fica-lhe bem. Na entrada, procurei a escultura do Laocoonte e percebi de imediato que pouco mudara: os magníficos gessos expostos continuam estranhamente mal conservados. O acesso aos pisos superiores continua a fazer-se, à direita e à esquerda, por dois lances de escadas largas e polidas pelos anos e, como todos os alunos da Escola durante tantas gerações, também a Rita optou pelo lado esquerdo. Percorri os longos corredores de cicerone entrando nas salas de pintura, de desenho, de modelo e pareceram-me exactamente iguais: os mesmos estiradores, o chão e as paredes marcados pela tinta, as janelas claras e profundas viradas a sul, as paredes larguíssimas do convento, os trabalhos expostos aparentemente acabados de fazer. Agradou-me ver que a figura humana continua a ser a base de trabalho de formação.

Recordei-me deste "recorte" de José Cardoso Pires:
“ Em arte só se pode esquecer, sabendo; só assim se torna possível corromper o discurso para o renovar e lhe dar dimensões mais vivas. Assim fizeram os grandes mestres pintores dos nossos dias. Corromperam porque conheciam a gramática da imagem para a enriquecer com novas leituras e com novas confrontações com o real.”


sexta-feira, abril 11

Um longo passeio pelos greens (1)



Dificilmente me seguirão. Ninguém suporta conversas sobre golfe e golfistas. Como se isso não bastasse, vou usar termos específicos da modalidade que, provavelmente, nada vos dirão. Mas também não dizem muito. Quando o itálico enviesar a palavra não liguem e pensem que tudo se resume a se bateu ou não bateu na bola. Passem à frente. Evitarei juntar aos anglicismos os palavrões que os precedem ou que lhes sucedem. São estes que classificam com acuidade a qualidade da pancada. Não há só dois tipos de pancadas, tal como sugeri, mas uma infinidade delas e, por estranho que vos pareça, as perfeitas são raras, dificilmente as vemos. Melhor, ouvimos, porque o som do contacto com a bola é o primeiro sinal, e o mais fiável, para atestar a qualidade do bom shot. O som não engana. O contacto perfeito provoca no jogador uma sensação única de plenitude e no adversário a exclamação genuína de reconhecimento ou, por vezes, o elogio forçado, a dissimulação, o silêncio invejoso. Estranha estas palavras quem pensa que o golf (repararam no itálico e a perda do é) é um desporto cortês de uma elite aristocrática de sapatos de franja brancos e calças aos quadrados seguidos por rapazinhos enfezados que carregam sacos enormes cheios de ferros de todos os feitios e incapaz de tais sentimentos mesquinhos. Afastem essa ideia. Esse mundo, se existiu, acabou há muito. A roupa e os acessórios exclusivos foram substituídos pelas plebeias nike e adidas que tornaram o golfe num circo de cores que só tem paralelo no jogging de domingo à beira-mar; pensam, ainda assim, que os grupos de afortunados que se passeiam nos greens a falar de negócios e a matar o tempo que lhes sobra são alheios à competição; acham, seguramente, que não encontram ao longo das quatro horas do percurso um gesto que os comprometa, uma palavra que os vulgarize, uma atitude que os denuncie. Nada disso, simples mortais. Batem-se tenazmente. São capazes de tudo: das desculpas mais torpes, dos palavrões mais rascas, dos olhares mais inquisitivos, das atitudes mais vis. Se lerem as regras que regulam este longevo desporto e a minúcia das situações que prevê, percebem que a tentação para contornar as normas está latente neste jogo do demo. Fazem tudo por um bom cartão.
Mas há os que o interpretam como um jogo para Homens. Impolutos. Um jogo de deuses. Uma luta inglória e sem fim contra nós próprios e contra o campo. E aí não há lugar para a trapaça. Só há lugar para a desilusão, para o silêncio, para o abanar de cabeça, para o palavrão surdo. E também para a catarse.
Claro que não há os bons e os vilãos. Uns e outros. Os jogadores são uns e outros. Mas todos têm duas características em comum, não estranhem: a perseverança e a humildade – conservam-se firmes, não desistem e são, também, os primeiros a reconhecerem as suas limitações, os seus defeitos, as suas incapacidades. E isso é, bem sabem, difícil de aceitar e, sobretudo, admitir perante os outros - e é aqui que surge o embuste, a simulação, a vaidade.

sexta-feira, abril 4

Gauguin teria gostado


O maior elogio que se pode fazer a uma obra de arte, fê-lo o operário reformado italiano ao manter durante 40 anos uma pintura pelo "valor facial". Pendurá-lo na cozinha foi, seguramente, o melhor local para este Fruits sur une table. Gauguin teria aprovado. 
Agora que o levaram, como ficará a cozinha? Pintará o rectângulo que sobra na parede? Com que se pinta a ausência súbita do que nos acompanhou durante tanto tempo?

I Loves you Porgy, Nina Simone


Neste inverno que não acaba mais, com esta chuva sem fim e um sol que nos abandonou, sabe bem ouvir esta música de George Gerschwin cantada pela imprevisível Nina Simone, e sugerida pelo MEC em Se As Canções Falassem