terça-feira, dezembro 25

Um branco de inverno


Os tempos são outros, é certo. A loiça pode ser da Vista Alegre, os talheres de cutelaria de renome, os cristais de tamanhos e volumes adequados, a toalha barroca, os guardanapos enormes e contrastantes, algumas iguarias de latitudes diferentes. Mas a tradição da mesa transmontana dita que o cabrito assado no forno seja o alvo de todas as atenções. Assim foi. As expressões dos rostos faziam adivinhar facilmente as palavras que justificariam detalhadamente o acerto da confecção - o tempo da assadura, a consistência das diferentes partes, a proporção dos temperos, a espessura e cor do molho, a qualidade das batatas que acompanhavam o assado.
A escolha do vinho mereceu também uma atenção particular, e um atrevimento - quem escolheria um branco para acompanhar o almoço de Natal?
Resposta: o Senhor Luís Barreira, meu pai. O gosto pelos brancos vem de longe e o interesse pelos da Adega de Vila Real também, não fosse ele um transmontano e um apreciador de vinho. Se os brancos estão associados aos peixes e ao verão pela frescura e baixo teor alcoólico, sempre estranhei este gosto desalinhado (que contaminou o meu) e pouco ortodoxo do meu pai. A escolha mostrou-se acertada. O “branco de inverno” de Vila Real, Grande Reserva, 2010, correu livremente.

segunda-feira, dezembro 24

Bacalhau cozido com batatas do barroso



Recordo-me que o dia de consoada era longo, muito longo. O repasto, excepcionalmente mais tarde, começava com o depenicar de uns macios bolos de bacalhau. Depois, entravam fumegantes postas de bacalhau cozido com batatas farinhentas do barroso e couve troncha passada pelo azeite e alho, que eram substituídas pela pequenada pelo polvo, também ele cozido. No fim, os doces – rabanadas de leite e água, jirimuns lambidos em suave calda de açúcar perfumada com pau de canela, línguas de abade, leite-creme bem marcado pelo ferro, pratos de aletria decorados com a mestria da minha mãe - enchiam de novo uma mesa ainda composta.

sábado, dezembro 22

Nem húngaros, nem espanhóis, nem greg.. (cruzes, canhoto!). Portugueses, de sete costados.



Recortes da imprensa:

“Contas equilibradas, defesa da classe média, descida de impostos e aumento do salário mínimo. Hungria parece imagem invertida de Portugal.” in Dinheiro Vivo

Cambio de ritmo crucial. La Comisión Europea se ha comprometido a dar más flexibilidad a España para cumplir las metas de déficit, según explican a este diario fuentes de Bruselas y confirma el Gobierno de Mariano Rajoy. In El País

“Só no universo de clientes do BPN com empréstimos superiores a meio milhão de euros, já há três mil milhões de dívidas em incumprimento total.” in Expresso

"Caso o défice orçamental previsto para 2013 comece a derrapar, o Governo tem preparado um plano de contingência que passará por reduzir ainda mais a factura salarial do Estado." In Público



domingo, dezembro 16

Um país de cowboys


Nos Estados Unidos há 300 milhões de armas de fogo para 311 milhões de habitantes. Tem a maior taxa de posse de armas do mundo nas mãos de civis. O comércio de armas nos EUA cresceu para o dobro nos últimos dez anos.(Ver mais aqui.) Se a conquista do Velho Oeste legitimou esse complemento bélico, uma nação como os EUA não pode ficar presa ao passado, muito menos refém de uma poderosíssima indústria  de armamento. Vamos ver de que são feitas as lágrimas de Obama.

quarta-feira, dezembro 12

Enamoramentos


Na contracapa: este romance é, acima de tudo, uma investigação metafísica sobre a vida, a morte, o amor e a moralidade. E um fascinante tratado sobre o enamoramento...
Só retiraria o adjectivo à última frase e salientaria a constante referência ao romance O coronel Chabert, de Balzac. Reflectem Marías e Balzac sobre a impossibilidade de alguém regressar a um lugar quando todo o contexto se alterou. O livro de Javier Marías é muito mais do que um romance. É, sobretudo, uma reflexão crua sobre a vida.

     Quem segue o regresso do sargento Nicholas Brody, na fabulosa série Homeland (Fox, canal 89), encontrará em Enamoramentos um complemento oportuno.



"Sim, todos somos arremedos de pessoas que nunca chegámos a conhecer, gente que não se aproximou e passou ao largo da vida de quem agora queremos, ou que se deteve mas se cansou com o tempo e desapareceu sem deixar rastro ou só a poeira dos pés que vão fugindo, ou que morreu para aqueles que amamos causando-lhes mortal ferida que quase sempre acaba cicatrizando. Não podemos pretender ser os primeiros, ou os preferidos, somos apenas quem está disponível, os restos, as sobras, os sobreviventes, o que vai ficando, os saldos, e é com esse pouco nobre que se edificam os maiores amores e se fundam as melhores famílias, disso provimos todos, produto da casualidade e do conformismo, dos descartes e das timidezes e dos fracassos alheios, e mesmo assim daríamos qualquer coisa às vezes para continuar junto de quem resgatámos um dia de um sótão ou de um leilão, ou tiramos à sorte nas cartas ou nos recolheu dos detritos; inverosimilmente conseguimos nos convencer dos nossos fortuitos enamoramentos, e são muitos os que creem ver a mão do destino no que não é mais do que uma briga de aldeia quando o verão já agoniza…"


quinta-feira, dezembro 6

Naquela noite de Verão





A chegada da família do Sr. João de Menezes dava início ao melhor período das férias grandes. O Zé Mário era o mais velho de seis irmãos. Tinham seis bicicletas de todos os tamanhos. Uma delas, a verde, era de rapariga, da Joana, nem por isso menos pretendida, tal como as bicicletas dos irmãos mais novos que eram literalmente confiscadas. Todas elas serviam para imprimirmos outra velocidade àquela terra feita para miúdos. A do Zé Mário, não. A bicicleta do Zé Mário nunca se despiu dos guarda-lamas, da bolsa de ferramentas presa ao selim, tão pouco do suporte traseiro. Pudera, o Zé Mário precisava dele para transportar as inúmeras caixas cheias de fios, lâmpadas, tubos de ensaio, e todo o género de ferramentas. As mãos magras e os longos dedos do “engenhocas” pareciam esculpidas para aquilo. Era alto o Zé Mário, homem feito, costas curvas, branco como nenhum outro, olhos grandes encovados em olheiras arroxeadas. Naqueles estios infernais, refugiava-se nas suas experiências, ensimesmado, bem longe dos fedelhos.

Os fedelhos cresceram. O Zé Mário não mais andou na bicicleta de roda vinte e oito. Manteve a silhueta vincada - que traía a sua discrição, as camisas de risca fina de manga curta, o saco a tiracolo. Apesar de mais sociável, continuava reservado, falava baixo, cochichava projectos que a nenhum interessavam, repetia ladainhas sobre recentes amizades do Porto, dava conta de conversas tidas com o grupo de universitários sobre objetos voadores não identificados, tão frequentes nos céus daquele tempo. O aparecimento desses estranhos seres era conversa recorrente nos jornais, na televisão e também no Café Capri. O Zé Mário sentia-se à vontade na matéria, perdia a timidez, alimentava as conversas com pormenores, revelações, estudos científicos. O pormenor, claro, levava ao bocejo da rapaziada, mais interessada em carros, futebol e raparigas.

(Não devíamos ter feito aquilo. Estávamos longe de pensar nos transtornos que iríamos causar ao nosso amigo.)

Não sei de quem partiu a ideia, mas recordo com uma nitidez surpreendente o primeiro acto. Para dar credibilidade a toda a peça pedimos ao Mário Cardoso, empresário, casado, um pouco mais velho do que o grupo de rapazolas, que se referisse a um estranho fenómeno que lhe teria acontecido quando regressava a casa depois de um dia de trabalho. O Mário Cardoso era um brilhante “actor”. O campo de futebol era o seu palco predileto. Dono de uma fabulosa capacidade técnica a que juntava a teatralidade de um mimo, o Cardoso fazia gato-sapato dos adversários e, mais do que ganhar ou marcar golos, o que procurava era o aplauso. Imaginem Maradona e Conan O´Brien num só: era o Mário Cardoso.
Todos o conheciam, excepto o Zé Mário. A descrição do estranho acontecimento de que tinha sido vítima na noite anterior incendiou aqueles olhos ávidos. Todos desdenhámos a ocorrência, dando coerência a conversas anteriores e ao plano improvisado. O Zé Mário, de olhar fixo, passou a único interlocutor: prolongou a conversa, procurou detalhes, pediu explicações. O Cardoso respondia de maneira evasiva, tinha lapsos de memória, divagava. Saiu da esplanada do Café Capri visivelmente transtornado, deixando para trás a informação de que haveria um novo contacto com aqueles seres dois dias depois, quinta-feira.
Tínhamos dois dias. A cada hora que passava o Zé Mário aumentava a preocupação com o estado emocional do M. Cardoso e aumentava, também, exponencialmente, o entusiasmo com a revelação. A história alastrou a todo o Capri e os sorrisos e os avisos dos mais velhos não refrearam o comportamento obcecado do Zé Mário.
O local do contacto estava definido. A preparação dos adereços e o esboço do guião ocupou-nos toda a tarde de quarta em casa do Paulo. O Paulo já na altura olhava o céu de outra maneira. Por vezes, em noites quentes e abafadas de agosto, como só as de Vidago são, escolhíamos o green do quatro e estatelados de barriga para as estrelas conversávamos noite dentro. Era nesse local de observação privilegiada que seguíamos o dedo do Paulo na identificação de vários pontos luminosos, de hipotéticas galáxias e, em vão, de perceber as distâncias absurdas a que tudo se encontrava. A possibilidade de existência de vida no Universo provocava a imaginação e as conversas ganhavam ainda mais cor com as constantes referências à série britânica Espaço: 1999, um êxito da televisão no final dos anos setenta, e aos livros que o Paulo lia sobre ficção científica. Recordo o fascinante “A nebulosa de Andrómeda", de Ivàn Efrémov, que li na altura, e o sugestivo “A crónica dos mundos paralelos” de Guy Tarade, que tanto o marcou.  Era, evidentemente, o mais preparado para dar credibilidade, qual ponto do teatro, às dificuldades argumentativas que iriam surgir, e era o único que dominava a linguagem específica que seria necessária no confronto com o terráqueo. A logística da operação passou, sobretudo, pela gravação de sons num gravador de cassetes Orion (curioso). Pensávamos nós que a melodia e a harmonia estariam relegadas da sensibilidade desses seres e assim a composição transformou-se numa delirante montagem de excertos dos novíssimos Kraftwerk, dos Emerson Lake and PalmerRick Wakeman, aos quais misturámos uma cacofonia de sons e ruídos bizarros. Alguns anos mais tarde, ao ouvir o Helicopter Sring Quarter  e outras composições de música contemporânea de Stockhausen recordei-me imediatamente desta tarde magnífica.

 O local escolhido para o encontro foi um lugar recatado no meio do Reigás. Fazia lembrar a cávea de um teatro grego, com fragas enormes e uma mata de pinheiros e carrascos densa que acabavam num palco de erva rasteira, seca, oculto da estrada nacional por uma série de plátanos frondosos.
O Mário Cardoso vestiu a melhor camisa branca e calças de fato vincadas. O Zé Mário, inquieto, desafiou os mais próximos a assistirem ao contacto. Só os restantes rapazolas do grupo aceitaram.

O encontro era à meia-noite daquela noite escura como breu, o ar estava quente, os extraterrestres instalados. Chegaram antes da hora e esperaram, esperaram, esperaram até à uma da manhã. Só o sussurrar nervoso do Zé Mário quebrava o silêncio da montanha ocupada. A espera alimenta e potencia o desejo, e quando resignado se preparava para desistir, surgiram os primeiros sons: primeiro, pequenos ruídos metálicos, depois a composição aleatória amplificada pela montanha e de uma clareza surpreendente. O Zé Mário parou, estupefacto, pediu que parassem todos, fez uma pausa no sentido de confirmar o que ouvia e num acto de coragem (sim, coragem) assumiu a liderança e toda a responsabilidade, “Calma, estamos perante um encontro com extraterrestres!” Com os seus longos braços tentava acalmar os restantes que se mostravam assustados com o fenómeno (rapazolas!). Com a “música” a ressoar, surgiu uma figura enorme ao meio da cávea que resultava da junção do penedo ao meu corpo por um lençol branco e terminava num capacete integral azul com uma bola de natal vermelha no interior. Os focos de luz apontados tornavam a figura gigantesca, irreal e sem vestígios de humano. O impacto foi tremendo. O Zé Mário, petrificado, só reagiu depois de uma voz monocórdica, pausada, ribombar monte a baixo e se anunciar. A voz do Zé Carvalho, alterada pelo megafone de latão, era credível, e o conhecimento rudimentar da língua dos humanos servia para nos esquivarmos às dificuldades que iríamos sentir. E as perguntas surgiram em catadupa: quais eram as nossas intenções, de que galáxia vínhamos, e velocidades, e radiações, e a nave, e porquê ali, e mais e mais, e o entusiasmo era tanto que começou a aproximar-se de nós sem que antes, e numa atitude protectora,  o Zé Mário afastasse os restantes para trás. Para o conter, o chefe, essa massa informe, exerceu a primeira represália sobre um dos humanos – sobre o Cardoso de camisa branca imaculada e calças de fato justas. A um gesto, caiu abruptamente, rastejou, rebolou, ficou possesso perante todos, executando uma coreografia que nunca tínhamos imaginado sem a bola nos pés. Parou repentinamente e num movimento de obediência cega caminhou como um autómato em direcção à voz metálica - a nós. O pânico instalou-se no nosso cândido amigo e a surpresa em todos os outros com o estranho bailado do Cardoso. Numa atitude de grande nobreza, o Zé Mário pediu encarecidamente que não lhe fizéssemos mal, que a responsabilidade era toda dele, que o M. Cardoso era casado e tinha filhos. A resposta foi imediata e ameaçadora: “A mentira, ao contrário dos humanos, não é admissível, este humano não tem filhos.” O desespero apoderou-se do Zé Mário: gesticulou, pediu perdão, explicou que não o conhecia bem, suplicou pela libertação do infeliz. E o desespero e a agonia aumentaram quando comunicámos que o humano iria ser sujeito a uma intervenção cirúrgica no sentido de percebermos como funcionavam os terráqueos. Nos longos minutos de espera, o Zé Mário pouco fez, pouco disse. Vergado pelo peso da culpa juntou-se aos restantes que não conseguiam esconder o gozo proporcionado pelo espectáculo naquela noite de verão. Teria durado uma eternidade para o Zé Mário, não fora a entrada em cena de um grupo de amigos que se dirigia para as Pedras Salgadas e decidira participar na estúpida brincadeira.“Calma, estamos perante um encontro de terceiro grau!”, repetiu o Zé Mário, ganhando um novo folgo. A explicação detalhada do acontecimento foi cortada pelo reaparecimento do  Cardoso que descia a ravina, naturalmente, de camisa aberta, a tocar numa cicatriz que sempre tivera e que não conseguia explicar e, muito menos, o que fazia ali àquelas horas. Dirigiu-se para a carrinha com os restantes, deixando o Zé Mário por breves instantes só. O Tó Rodrigues puxou de novo a cassete atrás, os sons iniciais ecoaram, a voz metálica ameaçou o terráqueo pela ousadia demonstrada, os focos de luz apagaram-se. O silêncio instalou-se novamente no monte.

Depressa se soube na esplanada do Café Capri e em todo o Vidago. O Zé Mário, numa excitação incontrolável, tinha perdido a noite a escrever o relatório do acontecimento a que juntou um desenho do “allien”. Desde bem cedo não tinha parado de divulgar o encontro. Era difícil dar crédito ao Zé Mário precisamente pela magnitude daquilo que descrevia. Quem o ouviu, e foram muitos, depressa concluiu que tudo não passara de uma brincadeira e, tarde dentro, os próprios rapazolas confirmaram o acontecimento, assumindo ser os responsáveis pela brincadeira.
O Zé Mário partiu no dia seguinte.
O Zé Mário voltou quinze dias depois. Voltou com o grupo de universitários amigos, editores de uma publicação daquela área, com o intuito de esclarecer e apoiar as vítimas desses encontros que, diziam eles,  preferiam esconder os acontecimentos a exporem-se à incompreensão e ao ridículo. Avisaram-nos, desde logo, que já tinham inspeccionado o local tal como a casa do M. Cardoso e encontrado vestígios e provas do contacto a que tínhamos sido sujeitos e que só precisavam de ouvir os nossos testemunhos para publicarem a notícia. Depois de longas horas e de uma nova simulação no local perceberam definitivamente que o Zé Mário tinha sido o protagonista de um “encontro espectacular”, não mais.

Nunca mais vi o Zé Mário. Nunca deixou de ser para mim, e para todos os rapazolas, um dos grandes amigos do Porto. E as férias, as Grandes, só começavam quando ele e os seus irmãos chegavam.
Demóstenes dizia que todo o homem acredita que aquilo que deseja seja também verdadeiro.
Tão humano, afinal.


Nota: este texto é um relato subjectivo baseado e idealizado a partir de dados reais.

sábado, dezembro 1

Danay

Via facebook chegou até mim - Danay Suárez. E não deixei mais de a ouvir. Agradeço ao Tó.


Com o pianista Roberto Fonseca.